Além do Cinza - Capítulo III
Os dias passavam e viravam semanas. Lia não ia sempre ao bosque, mas diversas vezes foi e não encontrou o moço do cabelo preto. Nem por isso desanimou, também adorava ficar apenas acompanhada das árvores. Cada vez que passava horas e horas com as folhas em cima e em baixo, algo nela mudava um pouco, apesar dela mesma não perceber. Também ia muito à biblioteca, a gigantesca e decadente biblioteca. Era cheia de livros e vazia de pessoas. Não gostava de ir para lá pois era lembrada de que era diferente dos outros, mas não conseguia deixar de visitá-la. "Qual o meu problema?", pensava, enquanto contemplava paredes de livros. Suspeitava da resposta, mas tentava ignorar a voz que lhe falava do passado.
Em um dia de folga, Fran e Lia foram a uma praça para descansar. Ou melhor, Lia estava descansando, enquanto Fran estava curvada sobre uma apostila. Ela se irritou com a obsessão da amiga e se perguntou em meio à frustração, "Por que ela só se importa em estudar? Ela nem para pra ver a beleza das coisas! Nem pra olhar pra cima e reparar que o céu tá azul, depois de semanas!". Ela se espreguiçou no banco e comentou, para tentar fazê-la perceber:
- O céu tá lindo hoje!
- É, muito bonito - Fran continuava com o rosto e os ombros quase colados às folhas - Escuta, você já estudou o capítulo 32?
- Já, não é muito difícil.
- Tá brincando? Eu não consigo nem entender esses comandos! Queria ter nascido com o talento pra isso que nem você. E daqui a duas semanas é o teste! - cobriu o rosto dramaticamente com as mãos - Eu tenho que passar. Eu preciso passar. Se não - pensou no destino dos rebaixados, exercer as funções de menor prestígio e maior esforço físico - vou ser uma falha. Vou ser infeliz pra sempre!
- Também não precisa exagerar! - lembrou-se do moço do cabelo preto. Ele era entregador, uma função dos rebaixados, mas era uma pessoa, bem, interessante - Imagina como seria se nós pudéssemos escolher nossas funções... Ou se pudéssemos escolher nosso par!
Fran ficou boquiaberta:
- Você é louca. Da onde saiu esse absurdo?
- Ah, hm... tá, é verdade... e se você escolhesse errado, né? A culpa seria sua. É, seria responsabilidade demais.
- Sem falar que a comunidade viraria uma bagunça - acrescentou, enquanto fechava a apostila.
- Sim... Regra 1, tudo é decidido e feito para o bem da comunidade.
- Exato. As coisas funcionam porque são previsíveis. A gente aprende, começa a trabalhar, é designado a alguém e recebe dois filhos para criar.
- Regra 15.
- Como é que você consegue decorar o número de todas as regras?
- Não sei, é legal.
A outra revirou os olhos:
- Ai, Lia, só você pra gostar dessas coisas... Mas até que eu acho isso legal em você - e sorriu, olhando-a nos olhos. Fazia tempo que Lia não a via sorrir, e percebeu que ela mesma também se tornara um pouco amarga quando estava com Fran. Fazia meses que a amizade das duas se tornara um tanto distante. Conversavam, sim, mas parecia que faltava alguma coisa, que poderia voltar agora, se não deixassem a chance escapar.
- Obrigada. Eu tenho sorte de te ter como amiga há tanto tempo... Obrigada por isso também - ela sentiu o rosto esquentar. Nunca havia dito algo assim.
- Fazer o quê? Certos hábitos são difíceis de mudar - respondeu Fran, rindo um pouco. Lia se juntou e logo estavam as duas rindo como não faziam há muito tempo.
Depois de se despedirem, Lia foi correndo para o bosque. Estava se sentindo tão bem que queria ficar saltitando entre os troncos. Enquanto o fazia, viu um vulto em cima dos galhos de uma árvore e correu para ela:
- Moço do cabelo preto!
O garoto levou um susto e se desequilibrou. Um livro e um objeto redondo caíram nas folhas secas, mas ele conseguiu se segurar por uma mão e ficou balançando lá no alto.
- Lia! O céu tá lindo hoje! - cumprimentou, enquanto tentava alcançar a outra mão no galho.
- Desculpa, desculpa, desculpa! Eu não queria te assustar! E sim, tá muito lindo!
Ele estava agora se segurando com as duas mãos e começara a impulsionar o corpo para frente e para trás. Contou até três e no três, soltou-se e voou pelo ar, dando uma cambalhota ao chegar no chão, para amortecer a queda.
- Uau, onde você aprendeu isso?
- Não sei, é legal. Quer tentar? - convidou com um sorriso travesso.
- De jeito nenhum. Ei, é por isso que eu não te encontrei todas essas semanas? Porque você fica em cima das árvores?
- Oras, eu também passo o tempo em casa!
Casa... Lia se lembrou de outra coisa que a fazia diferente de todos e baixou a cabeça com um pouco de vergonha:
- Ah sim, com o seu irmão ou irmã.
- Eu não tenho irmãos – respondeu se espreguiçando.
- Você também não?! É tão difícil encontrar outra pessoa como eu! Por que você não tem irmãos?
O garoto a encarou com uma expressão séria que ela nunca vira, e Lia percebeu que perguntara o que não devia.
- Desculpa. Eu entendo se não quiser responder.
- Você gostaria de me contar por que também não tem irmãos?
- Não...
- Então estamos quites.
Dessa vez o silêncio que se instalou era constrangedor e pesado. Lia olhou ao redor para tentar disfarçar:
- Ah, seu livro caiu ali - ela foi buscá-lo e se deparou com uma palavra nova - o que é "arte"?
- É uma coisa que faziam anos e anos atrás.
- Anos e anos atrás? - nunca cogitara a existência de um "anos e anos atrás" - E pra que serve?
Ele começou a enrolar o cabelo preto:
- Nada em especial.
- Que besta - retrucou, devolvendo o livro.
- Mas é exatamente isso que a torna diferente - já havia esquecido que a garota lhe havia perguntado sobre irmãos e voltou a falar empolgado - Servia pra nada e pra tudo ao mesmo tempo. Ela não se resumia a uma função nem era escrava de um sentido. Toma, por que você não pega emprestado? - estendeu o livro de volta.
- Mas isso é da biblioteca, não é? Quando você tem que devolver?
- Não se preocupa, aposto que eles nem vão reparar se eu devolver atrasado - Lia pegou o livro novamente e o abraçou contra o peito.
- Obrigada. Eu achava que mais ninguém lia livros... Me sinto melhor agora que sei que não sou a única.
- Oba, outra aberração! - cantarolou alegremente. Lia nunca se vira daquela forma, mas ficou pensando e concluiu que era justamente aquilo, uma "aberração". Mas até que isso não era ruim, especialmente agora que não estava sozinha. Enquanto isso, o moço do cabelo preto foi atrás do objeto redondo que caíra com o livro.
- E isso, o que é? - perguntou enquanto ele voltava.
- Uma fruta. Aparece em algumas árvores e você come.
- Dá pra comer?! E por que você faria isso? - a fruta parecia dura a ponto de quebrar os dentes, mas até que exalava um cheiro agradável.
- Eu te falei que faço a entrega de alimentos, certo? Uma vez tive que ir à Indústria e ouvi dois funcionários conversando. Falaram que uma mistura que não lembro o nome estava quase acabando, e que seria um caos se ficassem sem ela - o garoto então chegou perto e sussurrou em tom de mistério - Acho que eles colocam alguma coisa na comida.
Lia olhou sem entender o motivo da inquietação:
- Se colocam, é pro nosso bem.
Ele se afastou com um olhar de desafio:
- Pode até ser. Mas eu quero saber o que acontece. Já estou há três dias comendo apenas frutas, e me sinto ótimo!
- Eu realmente acho que você não deveria fazer isso... - olhou para o relógio e viu que eram quase cinco e trinta. O garoto entendeu e, antes que ela se fosse, perguntou:
- O que você vai fazer amanhã às cinco da manhã?
"Pergunta estranha".
- Ahn, eu vou estar dormindo.
- Que tal vir pra cá? Quero te mostrar uma coisa.
Não havia nenhuma regra contra estudantes fora de casa às cinco da manhã. E sua mãe nem perceberia, pois só acordava depois que Lia já havia saído para o Instituto. Ela hesitou, mas sentiu algo dentro dela, algo novo, ameaçador e poderoso, dizendo "Por que não?".
Então ela aceitou.
2 comentários:
que engraçado...
a Lia dizendo coisas do tipo "vc não deveria fazer isso" ou "isso é permitido?" e o garoto do cabelo preto nem aí para as consequências, movido pela busca do incomum e pela curiosidade...
Boa definição de arte, senhorita. =)
V
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