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A Lei do Cinza - Capítulo Final

Lia estava demasiadamente tensa e encolhida em cima de sua cama, sem imaginar que naquele exato momento o moço do cabelo preto estava sendo levado para o Centro de Reabilitação Social. O sol surgiu e sumiu do céu e ela continuava deitada de olhos fechados. Alternava entre o sono e a vigília, sem ter certeza de quando estava acordada e de quando estava dormindo. O principal era não ser lembrada do moço do cabelo preto. Quer aparecesse como sonho ou como pensamento, Lia lutava para que ele tratasse logo de sumir da sua cabeça. Assim passou mais uma noite, um dia inteiro e uma terceira noite… Teria permanecido nesse estado indefinidamente, não fosse por uma dor de cabeça insuportável que tomou o lugar de qualquer possível traço do moço do cabelo preto. Continuar deitada na companhia apenas daquela dor de cabeça era impossível, então Lia decidiu se levantar. Infelizmente o fez rápido demais, de modo que a sua cabeça pareceu girar pelo quarto inteiro por alguns segundos e em seguida passou a doer ainda mais. Ela escondeu o rosto nas mãos e grunhiu. Tateou seu caminho até o banheiro, batendo o pé e o cotovelo contra uma parede duas vezes, mas enfim conseguiu chegar à pia. Com muito esforço e os olhos meio abertos, deixou a água acumular em uma mão e a levou à boca. Conforme a água tocou sua língua e desceu pela sua garganta, a garota sentiu um pouco de energia ser superficialmente restaurada em seu corpo. As coisas ainda pareciam estar um tanto embaçadas e tortas, tanto no mundo do lado de fora de Lia quanto no de dentro. Pelo menos agora sua coordenação motora estava quase completamente de volta.
Bebeu mais um pouco de água e lavou a areia que a impedia de abrir os olhos. Sendo agora capaz de andar e se recusando a voltar para a cama, Lia saiu de casa e começou a caminhar por aquelas tão familiares e monótonas ruas. Como nem se lembrara de comer durante todo esse tempo, seu passo estava vagaroso, seus ombros, caídos. O que estava fazendo, andando pesadamente por aí? Pensava na resposta enquanto continuava a andar. De vez em quando sentia uma vontade imensa de parar e sentar-se na calçada, e assim o fez diversas vezes. Em algumas delas, não se contentou apenas em sentar-se, e esparramou os membros sobre a calçada quente. A vista por aquela perspectiva era engraçada… O céu estava inteiramente azul naquele dia, mas os olhos de Lia nem uma vez se levantaram para notar. Passara três dias deitada e estava exausta.
Quando se entediava do vazio na sua mente ou quando sentia a pele queimar, Lia se erguia da calçada e continuava a seguir seu caminho sem destino. Passou por lugares conhecidos, lugares desconhecidos, deu voltas, retornou, prosseguiu… Sem prestar muita atenção a nada. Só levantou a cabeça quando sentiu uma estranha sensação de familiaridade, e percebeu que estava na frente da casa de Francine. Não pensou em todos os dias em que se despediu dela ali, nem sobre o que a amiga poderia ter feito nos últimos dias, apenas tocou a campainha e esperou. Um menino de cabelo preto e mais ou menos dez anos abriu a porta. Antes que Lia se lembrasse de que ele era o irmão mais novo da amiga, ele a reconheceu e lhe disse, em uma voz inocente que não combinou em nada com o tom apático, que Francine não voltava para casa há dias. Completou com um "até mais" e voltou para dentro. Lia estivera atônita durante toda a conversa, e assim permaneceu, na frente da porta fechada, sem conseguir compreender o que ouvira. A última vez que vira Francine… A última vez que vira Francine… Quando foi mesmo?! Ah sim. Encontrara-a na rua. Estava chovendo. O que mais? O que mais?! O rosto de Lia suava enquanto ela tentava recordar. Será que… Francine havia… se matado…?
Sem ordem expressa, suas pernas começaram a correr em direção ao bosque. Mesmo que o moço do cabelo preto não estivesse mais lá, aquele lugar ainda tinha o poder de curá-la. Tinha que ter. Ela correu o mais rápido que pôde, mal conseguindo respirar, mas o corredor de tijolos não estava lá. Estranho. De jeito nenhum teria ido para o lugar errado, ou esquecido da onde ele ficava. Esquecera-se de muitas coisas importantes enquanto forçava-se a dormir ou a acordar, é verdade, mas daquilo nunca se esqueceria. Procurou por uma fresta por quilômetros, mas não encontrou nada. Não havia dúvidas: a passagem desaparecera.
Os joelhos de Lia tremiam enquanto ela pensava no que estava acontecendo. Com um pressentimento terrível, ela se dirigiu à biblioteca. Lá chegando, tudo o que viu foram suas ruínas. As estantes haviam sido reduzidas a montes de pó, onde se via uma ou outra página ou capa de livro. A majestosa biblioteca fora transformada em restos de concreto e papel. Por alguns instantes, Lia não conseguiu se mover. Os homens da Administração… eles que devem ter feito isso… De alguma forma descobriram todas as coisas que eram importantes para ela e as destruiriam, uma a uma! A garota se aproximou de um dos montes de pó e resgatou uma folha que sobrevivera. No topo, lia-se em negrito, "A ilusão do livre arbítrio", e o texto continuava pela página, em letras miúdas. Lia não sabia o que "livre arbítrio" significava, mas mesmo assim dobrou a folha como se fosse um tesouro e a prendeu entre a saia e a cintura.
Faltava checar um lugar. Esperando pelo pior, ela andou até o depósito abandonado. E, de fato, Lia estava certa. Onde antes o moço do cabelo preto se encondia, havia apenas um grande espaço vazio.
Não restara nada. Lia pensou seriamente se tudo o que acontecera desde aquele primeiro dia no bosque foi real. Como garantiria a si mesma que tudo não passara de uma longa alucinação? Como se manteria longe da loucura, se já se encontrava tão perto dela naquele momento?! Procurou a folha que havia resgatado para provar que pelo menos a biblioteca existira, mas não a encontrou. Talvez tivesse caído no caminho. Ou talvez ela estivesse enlouquecendo. A garota correu de volta para casa aos soluços e se jogou em cima da cama. Seu corpo ardia todo, as mãos tremiam, lágrimas corriam uma atrás da outra incontrolavelmente. Os soluços, irregulares e altos, impediam que Lia respirasse, até que finalmente a falta de oxigênio a fez perder a consciência. Quando Lia voltou a abrir os olhos, a luz do dia já se fora. Fechou-os e dormiu profundamente. Abriu-os mais uma vez, desta vez durante o dia. A sensação, porém, era de que mais de uma noite havia se passado. Forçou-se a dormir novamente. Duas vezes pensou ter acordado no escuro. Não tinha certeza. Quando foi invadida por uma dor de cabeça pior que a última, abriu de vez os olhos.
Estava claro. Raios de sol adentravam e aqueciam o quarto de maneira bastante agradável e insignificante para a garota. Lia tentou, sem sucesso, contar quantos dias haviam se passado desde a última vez em que saíra de casa. Achou ter ouvido a mãe dizendo que a amava cinco vezes, o que significaria que passaram-se cinco dias, mas talvez isso tivesse sido um sonho. De uma coisa tinha certeza: todos os moços do cabelo preto que vira nas últimas horas foram apenas sonhos.
Depois de tantos dias sem receber atenção, seu corpo ansiava desesperadamente por comida. Lia colocou os pés trêmulos no chão e andou até a porta da casa. Esperava encontrar alguma refeição esperando por ela do lado de fora, mas se deparou com um relógio de pulso dentro de uma caixinha transparente. Depois de muito se esforçar, lembrou-se de que havia ido à Administração e pedido por um relógio novo, apesar de não saber exatamente quando. Aquele relógio era exatamente igual ao antigo. Difícil acreditar que era quase inteiramente feito por mãos humanas. Ao lado do relógio, havia um envelope branco em cima de algumas peças de roupa e um par de sapatos cinzas. Os dedos pequenos de Lia abriram a carta desajeitadamente e seus olhos passearam pelas letras impressas: "Senhorita Lia, parabéns pelo seu desempenho na prova de habilitação. Sua pontuação total foi 920. É com grande prazer que a aceitamos na função de programadora. A senhorita começará a contribuir para a comunidade a partir de amanhã, no local especificado no mapa em anexo, das nove horas às vinte horas. Atenciosamente, a Direção".
É mesmo. O teste. Já tinha se esquecido disso. Lia se agachou e desdobrou o uniforme para analisá-lo: uma camisa branca de manga comprida com oito botões pretos e uma calça cinza. Pela primeira vez na vida, sua saia vinho de estudante lhe pareceu bastante atraente. Levou as roupas e o relógio para dentro de casa e atirou-os com força contra a parede do quarto. Assustou-se com o som que o relógio fez quando chegou ao chão e institivamente se ajoelhou em sua busca. Ainda estava funcionando. Não pôde evitar sentir um certo alívio. As roupas deviam ter amortecido a queda.
A garota voltou a deitar na cama e fechou os olhos. Sua cabeça doía terrivelmente, mas Lia precisava pensar no que fazer dali em diante. A primeira coisa que surgiu em sua mente foi cometer suicídio, mas a ideia foi imediatamente repudiada. Talvez fosse até um pouco de vaidade que a mantinha convicta de que era mais forte que seu pai, impedindo-a de tal ato. Pensou também em viver como fugitiva, assim como o moço do cabelo preto, até lembrar-se de que não havia onde se esconder. Todo o seu mundo havia subitamente desaparecido. A biblioteca, o depósito, o bosque, Fran, o moço do cabelo preto... A verdade é que não lhe sobrara nada além dela mesma. Ou uma sombra cambaleante do que ela era. Isto é, se algum dia ela tivesse sido alguma coisa.
A reflexão parecia querer se prolongar demais, então Lia se concentrou para voltar a pensar no que deveria fazer. Lembrou-se da carta… "A partir de amanhã", estava escrito. Se Lia tivesse perdido um dia de trabalho, com certeza algo já teria acontecido com ela, então a carta e o uniforme deviam ter sido entregues há poucas horas. Poderia também seguir as ordens do moço do cabelo preto... Obedecer as regras... Lia sabia exatamente o que a aguardava. Começaria a trabalhar no dia seguinte. Aos vinte e cinco anos se tornaria esposa de alguém, até os trinta receberia dois filhos e trabalharia como programadora até os sessenta. Ela não fora classificada como ameaça à sociedade, então poderia viver como uma pessoa normal sem nunca ser notada pelo Centro. Fingiria que nunca houve nada de diferente em sua vida, nenhum pai suicida, nenhuma visão dos homens do Centro, nenhum livro, nenhuma pergunta, nenhum bosque, nenhum garoto de cabelo preto que não fosse apenas outro garoto de cabelo preto. Talvez um dia todas essas lembranças se tornariam tão incertas e Lia duvidaria tanto de sua lucidez que acabariam por cair no esquecimento.
A garota repeliu a ideia com todas as forças. Aquilo era mais insuportável que sua dor de cabeça. Como o moço do cabelo preto pôde pedir algo assim?! Não iria obedecê-lo. Afinal de contas, a vida era dela. Podia fazer o que quisesse. Repetiu isso a si mesma diversas vezes, como se estivesse tentando se convencer. Porém, mesmo depois de centenas de repetições, ela sabia o que escolheria no final. Adormeceu sentindo-se destituída de si mesma, mas de alguma forma, satisfeita.
Naquela noite, sonhou mais uma vez com o moço do cabelo preto. Porém, diferentemente das noites passadas, em que ele aparecia apenas para se afastar de Lia enquanto ela gritava pedindo que a esperasse, ele permaneceu na sua frente com uma expressão calma. Estendeu as mãos e segurou os dedos de Lia. "Não vai me dizer que não posso te tocar?", ele perguntou, mas Lia não conseguia emitir nenhum som. "Lia, Lia… Você não é mais você, de qualquer jeito… Que diferença faz agora pra você? Pra mim faz. Foi a melhor escolha". A vontade de Lia era soltar-se daquelas mãos, negar o que ele disse, fazer-se presente. Mas era como se a conexão entre seu corpo e seus pensamentos tivesse sido rompida, de modo que tudo o que fez foi permanecer imóvel, até as imagens se tornarem menos nítidas e desaparecerem por completo.
Assim que abriu os olhos, Lia levantou-se da cama e encarou a menina que a olhava em um espelho. Não, não era mais uma menina. Apesar do cabelo solto e despenteado, da camisa ingênua e da saia juvenil, a pessoa que via no espelho não era mais uma menina. Quando será que mudara? Nem havia se dado conta... Despiu-se e estranhou seu próprio reflexo sem identidade. Recolheu do chão o uniforme pelo qual esperara durante quase toda a vida e o vestiu. A calça deveria ficar por cima da camisa, na altura da cintura. Também prendeu a franja para trás com uma presilha e novamente se olhou no espelho. Ficou surpresa com o quão incrivelmente bem as novas roupas lhe caíram. Até mesmo a aparência desgastada e recentemente adquirida combinava com elas, e era destacada em seu rosto agora nu. Como era estranho estar com o rosto inteiro à mostra... Era como se tivesse se tornado mais vulnerável com aquela simples alteração. Franjas não lhe serviriam mais.
Após analisar-se detidamente no espelho, Lia voltou para o quarto e procurou a caixinha transparente no chão. Retirou o relógio de lá, prendeu-o cuidadosamente no pulso esquerdo e olhou o ponteiro dos segundos se mexer, exato e seguro como sempre.
Tudo continuava igual. Tudo continuaria igual. A programadora engoliu uma refeição sem gosto, calçou os novos sapatos cinzas e saiu para o seu primeiro dia de trabalho.
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A Lei do Cinza - Capítulo XI

Morrer? Sim, era uma solução. Certamente resolveria tudo. Talvez a amiga sentisse sua falta por alguns dias, dois ou três no máximo, e logo estaria bem novamente. "Bem". Lia olhou para baixo. A ponte era bem alta mesmo... Ficou imaginando como devia ser a sensação de pular dali, como tantas vezes fizera desde criança. Como das vezes em que era criança, esse pensamento não passou de uma simples e até mesmo inocente hipótese. De jeito nenhum Lia cometeria suicídio. Ela nunca faria a mesma coisa que seu pai. "Covarde! Fraco! Irresponsável!", era o que a garota pensava enquanto caminhava para longe da ponte.
Suas roupas e seu cabelo estavam molhados e fazendo-na tremer novamente. Lembrou-se de que seria bom se andasse com um guarda-chuva. Guarda-chuva, guarda-chuva... Antes que percebesse, seus pensamentos foram involuntariamente levados ao moço do cabelo preto. "Vou fugir amanhã bem cedo", foi o que ele disse. "Vai fugir e me deixar aqui", Lia pensou ressentida. Mas não pôde deixar de imaginar onde ele estaria agora.
Quando deu por si, estava na frente do depósito abandonado. Provavelmente ele ainda estava bravo com ela, mas mesmo assim, a garota abriu a porta do depósito e gritou:
- Moço! Moço!
Nada. Ela entrou e começou a vasculhar o lugar. Os livros roubados da biblioteca ainda estavam lá, mas o garoto não. Realmente, não seria prático fugir levando consigo cinquenta livros. Será que ele voltaria para o depósito? Lia sentou-se com as costas contra uma parede e esperou. Estava sem relógio, mas era capaz de contar o tempo na sua cabeça quase com a mesma exatidão. Quinze minutos... Quarenta minutos... Uma hora... Uma hora e vinte... Duas horas e dez... Duas horas e cinquenta e cinco... Três horas e trinta... Quatro horas e cinco minutos... Lia se levantou e olhou pela única janela do depósito, tão grande quanto sua mão espalmada. Mais algumas horas e ela não poderia estar fora de casa... E se ele não voltasse até lá?! Ela deixou o depósito e correu até o corredor de tijolos que levavam ao bosque. Atravessou com pressa aquele espaço estreito, arranhando o cotovelo contra uma das paredes sem querer.
O bosque estava igual à primeira vez em que Lia o adentrou. Na verdade, ele quase não havia mudado durante todo esse tempo. Folhas secas no chão, luz passando entre as folhas das árvores e o lindo silêncio. A sensação é que fazia semanas desde a última vez em que Lia estivera lá, naquele dia em que o moço do cabelo preto atirou seu relógio de cima de uma árvore. Foi como se nada do que tivesse acontecido depois disso fosse realmente verdade: descobrir que o moço do cabelo preto era procurado pelo Centro, ouvir sobre o seu passado, ser agredida por causa de um livro imbecil, brigar com o moço do cabelo preto, encontrar Fran no meio da chuva e esperar durante quatro horas e cinco minutos no depósito. Era difícil de acreditar que tudo isso havia acontecido em dois dias. E o segundo dia ainda nem havia terminado.
Lia andou a passos rápidos entre as árvores, o tempo todo gritando "Moço! Moço! Moço!". Pensou ter ouvido alguém atrás dela e se virou, mas não viu ninguém. Devia estar alucinando novamente, que nem quando ficara presa naquela árvore. Continuou andando e chamando-o, até que finalmente viu um vulto pular de um galho e chegar ao chão. Era o moço do cabelo preto, que se aproximou furioso:
- Lia! Você ficou louca?! Fica quieta!
Ela se ofendeu com a recepção agressiva e retrucou:
- Eu tava te procurando. O que posso fazer se você fica se escondendo em cima de árvores?
- Então você sai berrando por aí?! E se alguém te ouvir? Ou descobrirem esse lugar?!
Lia não havia pensado nisso. Ela o olhou contrariada mas em silêncio. O garoto virou as costas, deu alguns passos e parou:
- O que você veio fazer aqui?
Boa pergunta... "O que eu vim fazer aqui, afinal?", Lia pensou. Decidiu-se por responder:
- Não sei. Eu só vim.
Ele se sentou e ela o imitou. Ficaram os dois sentados sem falar nada por um longo tempo, até que Lia perguntou:
- Você se lembra de quando a gente ficou sentado aqui em silêncio que nem agora? Na segunda vez em que a gente se encontrou... Você disse que era pra eu te chamar de moço do cabelo preto porque nomes não importavam...
Agora Lia sabia que era porque ele não queria ouvir a voz da sua irmã chamando-o... O garoto levantou a cabeça e disse:
- Lembro... Você parecia uma criança.
- E você parecia mais mágico.
- Desculpe por perder o encanto, então.
- Desculpe por perder a inocência.
Voltaram a ficar em silêncio. Não restava muito tempo até Lia ter que voltar para casa. Se não falasse agora, perderia para sempre a chance:
- Me leva com você amanhã. Pro outro lado da fronteira.
O moço do cabelo preto se levantou e começou a andar como se não tivesse ouvido seu pedido, então Lia também se levantou e o seguiu:
- Por favor... Não me deixa aqui. Eu não tenho nada a perder de qualquer jeito.
- É claro que você tem. Você tem uma boa amiga e provavelmente deve ter passado no teste pra programadora. E você nem é uma ameaça à sociedade. Você tem um futuro.
- Eu nunca pedi por esse futuro... Sempre achei que as coisas eram assim, simplesmente, mas agora que posso escolher, eu quero sair daqui. Nada mais aqui faz sentido pra mim.
- Você não pode escolher porque eu não vou te levar - ele parou e se virou para encará-la - Lia, eu nem sei se vou conseguir fugir. Tem uma grande chance que eu seja pego no meio do caminho e levado pro Centro, entendeu? - dessa vez era ele quem estava gritando. Lia ia comentar isso, mas ele continuou - Eu não quero que você vá parar no Centro também.
- Então eu morro no Centro ou pulando de uma ponte, mas pelo menos na primeira opção tem a possibilidade de sair daqui!
Ela estava mentindo quanto à parte de pular da ponte, mas tinha esperanças de que a ameaça o convencesse a levá-la com ele. Porém, ela apenas o enfureceu ainda mais:
- Então vai, pula, se joga de uma ponte que nem a Sofia! Eu só consigo fazer as pessoas pularem de pontes de qualquer jeito!
O moço do cabelo preto limpou as lágrimas que haviam surgido em seus olhos e voltou a andar. Lia não sabia se devia continuar a segui-lo, mas aqueles poucos minutos eram definitivamente a sua última chance.
- Eu só acho que vale a pena correr esse risco...
- Lia... - a voz do moço do cabelo preto estava baixa e falhando - eu não te contei tudo sobre o Centro. Eles não apenas matam... Os pacientes viram cobaias e são até torturados - lembrou-se daquela pavorosa visão, um quarto cheio de pessoas que mais pareciam animais, gemendo e chorando solitariamente. Quando enfim encontrou uma que aparentava estar com todas as partes do corpo, percebeu que lhe faltavam os olhos. E então dois homens de branco e mascarados entraram no quarto, e todos se encolheram e gritaram com medo. Não viu mais que isso, pois nesse momento o moço do cabelo preto foi descoberto do lado de fora da janela - Volte a obedecer as regras, Lia. Faça o que for necessário pra não ser levada pra lá.
Pela expressão séria e o tom solene do moço do cabelo preto, Lia sabia que não adiantaria falar mais nada. Chegaram ao final do bosque, onde ele encontrava o corredor estreito de tijolos.
- É hora de você voltar. Estudantes não podem estar fora de casa-
- Depois das seis - ela completou.
Sem saber o que falar, a garota se esgueirou no corredor, sentindo o corpo inteiro pesar de mágoa, enquanto o moço do cabelo preto a viu sumir, sentindo o corpo inteiro se encher de medo.
Durante todo o tempo em que estiveram juntos pela última vez, nem Lia nem o moço do cabelo preto perceberam que não eram os únicos no bosque. Nenhum deles percebeu a presença dos homens que os seguiam e ouviam com imenso interesse. Aqueles homens estavam apenas se certificando de que a garota não era uma ameaça, então ficaram extremamente satisfeitos quando ela os levou a um fugitivo.



Depois de muitas horas deitado de olhos fechados no chão do depósito, Vinicius conseguiu dormir. Antes disso, não conseguia parar de pensar sobre o seu plano de fuga, sobre Lia e sobre o Centro. Primeiro, seguiria pelo rio até onde ele encontra a fronteira. Então esperaria escurecer para tentar passar da fronteira junto com o rio. Seria difícil não ser visto, mas era a única opção. O rio era a única coisa que saía da comunidade. Quanto mais pensava, mais acordado se sentia, mas sabia que precisava de algumas horas de sono para estar descansado quando partisse. Tentou esvaziar a mente e deixar o sono vir. Depois de bastante tempo, finalmente adormeceu.
Do lado de fora, havia apenas a escuridão e o silêncio. Assim permaneceu, até que um carro grande e preto apareceu na rua e parou em frente ao depósito. De dentro dele, saíram quatro homens vestidos inteiramente de branco, e um quinto permaneceu no volante. Suas mãos eram cobertas por luvas e seus rostos estavam escondidos atrás de máscaras também brancas, exceto por alguns detalhes em preto. Dois homens tiraram uma maca da parte de trás do carro e os outros dois abriram cuidadosamente a porta do depósito. Localizaram o fugitivo dormindo em um canto. Já fazia dez semanas que o procuravam. Poucos conseguiram se esconder por tanto tempo. Mas este era um administrador, era apenas esperado que fosse esperto. Os homens se aproximaram no escuro sem fazer barulho algum. Em um movimento rápido e preciso, um deles espetou o fugitivo com uma agulha e injetou a anestesia. Vinicius acordou bruscamente, mas não teve nem dois segundos para se debater aterrorizado pois o outro homem cobriu sua cabeça com um saco preto e a anestesia o fez adormecer novamente. Dois homens colocaram-no na maca e o levaram para o carro, enquanto os outros confiscavam os livros que lá estavam. Finalmente o capturaram. Os quatro homens voltaram ao carro e partiram para o Centro de Reabilitação Social.
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A Lei do Cinza - Capítulo X

Lia e Francine corriam embaixo de gotas pesadas, com gotas mais pesadas ainda caindo de seus olhos. A chuva se misturava às lágrimas, e não era possível dizer o que era simplesmente água e o que era um pouco salgado. Então, por uma grande coincidência, não mais que uma grande coincidência, seus caminhos se encontraram. Como vinham correndo com a cabeça abaixada, acabaram tropeçando uma na outra e caindo no chão molhado:
- Ai! Desculpa, eu não tava olhando pra onde... - ela levantou a cabeça e reconheceu a amiga. Apesar dela mesma estar com expressão parecida, perguntou - O que foi? Por que essa cara?
- Você também não parece estar bem... Aconteceu alguma coisa?
Ela hesitou. Na verdade, nenhuma das duas queria contar o que ocorrera, mas sentiam que precisavam falar com alguém, como se aquilo pudesse ajudar:
- Eu... eu só... me arrependo de algo que fiz.
- Eu também.
- Se eu soubesse que ia acabar assim... - disseram, ao mesmo tempo.
Mais gotas começaram a cair do céu. Logo logo viraria uma tempestade.
- A chuva... ela tá piorando.
- Pra piorar a gente...
Se realmente era essa a intenção da chuva, ela conseguiu. As duas se levantaram e voltaram a chorar, sentindo-se estranhas e culpadas por fazer algo errado, e, ainda por cima, por se deixarem serem vistas por outra pessoa. Mas as lágrimas vinham incontrolavelmente, e as garotas não conseguiam mais suportar. Uma delas escondeu o rosto nas mãos, enquanto a outra agitava-as no ar:
- Eu me sinto péssima!
- Eu também!
- Eu quero descansar! Esquecer tudo isso!
- Me sentir... feliz...
- Sim!
- Ou desfazer tudo!
- Não sei se vou aguentar...
Depois de todas essa gritaria, as duas se acalmaram um pouco. O desespero deu lugar à desesperança, a chuva deixou de incomodar e um longo silêncio se instalou. As vozes voltaram fracas e trêmulas:
- Eu queria poder sumir do mundo por um tempo...
- Quanto tempo?
- O suficiente. Pra conseguir esquecer o que aconteceu.
- Dá pra esquecer? - ela pensou sobre o que a amiga poderia estar falando - É o que estou pensando?
- Deve ser - na verdade, não era. Um dos pensamento era muito mais trágico - Quem sabe eu faça isso mesmo...
Se a outra estivesse em condições normais, teria tentado impedi-la. Mas as duas garotas estavam em um estado miserável. Não sabiam o que estavam falando, não pensaram nas consequências, não perceberam a importância das suas palavras.
Um novo silêncio. Por um lado, a conversa havia acalmado as garotas. Por outro, não havia resolvido nada. A chuva foi parando ao poucos, e quando se tornou apenas garoa, Lia e Francine se despediram como sempre fizeram: brevemente e sem prestar muita atenção.


Depois de algum tempo se arrastando pelas ruas, ela voltou à Administração. Ainda estava bastante molhada, mas deixaram-na entrar mesmo assim. Aproximou-se do balcão indicado e declarou:
- Eu gostaria de ser curada de perturbações da mente, por favor.
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A Lei do Cinza - Capítulo IX

Lia estava ofegante enquanto tentava contar o que acontecera:
- Eles... me levaram pra uma salinha na Administração... por causa daquele livro que você me emprestou. E quando eu tentei me defender, eles...
O moço do cabelo preto tinha se levantado e ouvia com atenção, esperando pelo pior:
- Você foi classificada? Como ameaça à sociedade?
- Não. Mas falaram que da próxima vez que eu fizer algo errado...
- Ai, ainda bem, até que eles foram bonzinhos.
Lia não podia acreditar naquilo. Ele não podia estar falando sério.
- Claro, eles realmente estavam cheios de bondade quando me bateram com aquela coisa!
O tom ácido era merecido. Não podia explicar por quê, mas estava com vontade de feri-lo também. No final, pessoas feridas só conseguem ferir. Na verdade, uma parte escondida de Lia esperava que ele compreendesse sua dor, e lhe dirigisse palavras reconfortantes, mas Vinicius só sabia responder reciprocamente:
- Se você acha isso, que bom pra você. Mas poderia ter sido muito pior. Pelo menos você não chegou ao ponto de ter que fugir da comunidade!
- Ah tá, e você vai fugir da comunidade?!
- Vou! - um curto silêncio no qual o choque foi adicionado à raiva - Eu ia te procurar hoje pra te contar. Eu descobri como sair daqui. Vou fugir amanhã bem cedo.
Não era só o rosto e a costela de Lia que estavam doendo agora. Ela o encarou incrédula, mas ainda cheia de raiva:
- Você realmente vai fugir? E eu vou ficar aqui?
- Não posso ficar aqui pra sempre, Lia. Um dia vão acabar me encontrando.
Então Lia percebeu porque aquilo estava ardendo tanto. Ela tinha desejado... Tinha cometido o erro de desejar que aquilo durasse para sempre. Tinha criado expectativas que simplesmente não podiam ser atendidas, pois não havia ninguém para atendê-las. Ninguém podia atendê-las. Antes de ceder ao desespero, ela disse sem emoção nenhuma:
- Que bom pra você, Vinicius. Espero que você seja feliz.
Suas palavras tinham a intenção de machucá-lo. E elas conseguiram. Lia saiu correndo do depósito, sentindo o seu peito queimar, e aquele calor sufocante subiu para a sua garganta e então para os seus olhos, transformando-se em lágrimas. Não tentou impedi-las. Apenas continuou correndo, sem olhar para frente, enquanto algumas gotas de chuva começavam a cair.


- Agradecemos pelas informações, senhorita Francine. Como prometido, aqui está o seu resultado.
O homem baixou a folha na altura dos olhos da garota. Francine passou os olhos avidamente pelo papel, e no final da folha leu: "895 pontos. Reprovada".
- Pode se retirar - um deles disse, com um leve sorriso.
Ela levou alguns segundos até conseguir levantar e sair. Caminhou sem rumo, completamente imersa em pensamentos. 895 pontos?! O que era isso, uma piada de mau gosto?! Precisava de 900 e tinha feito 895?! Mas na verdade não importava o quanto tinha feito... De qualquer jeito, não tinha passado. Seria uma rebaixada. Rebaixada! E além disso, tinha passado informações importantes sobre sua amiga para aqueles homens... E se Lia fosse mandada para o Centro por sua culpa?! Ela mesma a tinha alertado para tomar cuidado e não contar esse tipo de coisa para ninguém!
Apenas andar não era mais o suficiente para o seu desespero, então começou a correr. Não sabia para onde. Apenas continuou correndo, sem olhar para frente, enquanto algumas gotas de chuva começavam a cair.
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A Lei do Cinza - Capítulo VIII

Só quando os homens de roupa preta levaram-na a uma salinha que nunca vira da Administração, Lia percebeu que estava em apuros. O que foi mesmo que o moço do cabelo preto dissera? "Não conte a ninguém sobre esse livro", ou algo assim. Por que não havia se lembrado disso antes de levá-lo para a praça?! E agora estava sentada diante de dois homens anormalmente robustos, que lhe falavam de modo agressivo e quase cuspindo em seu rosto:
- A senhorita sabe do que este livro se trata?
Ela pressionou o corpo contra a cadeira, e respondeu com a voz fraca:
- Do passado...
- E onde a senhorita o conseguiu?
- Na, na biblioteca.
Não podia falar do moço do cabelo preto. Definitivamente, não podia falar dele. Nunca achou que iria mentir para superiores. Quantas regras já havia quebrado nos últimos dias? Os homens se entreolharam:
- Então aquele lugar ainda não foi destruído?
- Temos que avisar a Direção sobre isso - e voltou a cravar os olhos em Lia - O quanto deste livro você leu?
- Hm... quase tudo... - só depois de receber os olhares de condenação, percebeu que deveria ter mentido sobre isso também. Tentou se defender - Eu não fiz nada de errado! Qual o problema de ter lido isso? É só um livro! Por que vocês não querem que eu saiba essas coisas?!
Não sabia da onde tudo aquilo estava vindo, mas não conseguia mais parar. Então o homem mais alto subitamente armou-se de seu cacetete e acertou a face esquerda de Lia, derrubando-a junto com a cadeira. Ela aterrissou violentamente sobre a costela direita e se encolheu. Nunca havia sentido tanta dor na sua vida. Colocou as mãos sobre a face agredida, cuja vermelhidão se destacava na sua pele branca, e gemeu contra o chão frio. O outro homem endireitou a cadeira e indagou em tom de ameaça:
- Quem te deu permissão para se levantar desta cadeira?
Compreendendo que não havia nada a fazer além de obedecer, ela apoiou as mãos no chão e se levantou, esforçando-se para parecer indiferente diante da agressão. Sentou na cadeira novamente, e pode-se até dizer que o fez com dignidade. Então o homem do cacetete se aproximou a ponto de Lia conseguir sentir seu hálito amargo, e rosnou:
- Se a senhorita for culpada por mais alguma ação nociva, como contaminar outros com o seu pensamento subversivo, seremos obrigados a considerá-la uma ameaça à sociedade. Recomendo se comportar daqui para frente. Retire-se.
Ela saiu a passos tortos da Administração, com os olhos voltados para o chão. Parecia que quanto mais se distanciava daquela salinha, mais seu rosto e sua costela doíam. "Não chora. Não chora". Apesar de repetir isso sem parar na sua cabeça, as primeiras lágrimas em doze anos já estavam se acumulando em seus olhos. Mal fazia 24 horas que fora inundada pela complexa história do moço do cabelo preto e agora isso... Continuou a sua marcha desordenada até o depósito abandonado, onde o garoto estava dormindo tranquilamente. Até pensou que foi como no dia em que se conheceram, mas ao contrário. "Ele me acordou e tudo isso começou". Mas não chegou a formular a frase equivalente: "Eu o acordei e tudo isso terminou".
- Moço! Moço! Acorda!
- Hm? Lia... Bom dia... - um longo bocejo, que logo se transformou em espanto ao ver o seu rosto ferido - Lia?! O que aconteceu?!


- Francine, casa 638, correto?
- Sim.
Ainda estava tentando entender por que havia sido levada para a Administração. Será que não havia passado no teste e já seria encarregada de uma função rebaixada?! Mas não seria surpresa... Não achava que havia conseguido a pontuação necessária e passara os últimos dias sentada na sua cama, roendo as unhas, e depois os dedos. Não estava comendo direito e a angústia consumia-lhe inteira. Parecia um pesadelo, mas do qual ela nunca acordava. Seus pensamentos lastimosos foram interrompidos pela voz de um homem de uniforme preto:
- Segundo nossos dados, a senhorita conhece a habitante Lia há nove anos, e ainda mantém relações com ela. Isto é correto?
- Sim, ela é minha amiga.
- O que a senhorita sabe sobre ela?
- Hã? Como assim?
- Alguma característica peculiar, algo que a torne diferente, e que a senhorita talvez encare como ameaçador ou preocupante.
Não foi difícil achar uma resposta:
- Ela sempre gostou de ler... Mas não acho isso preocupante, só um pouco estranho. Desculpe, mas qual o motivo disso tudo? Aconteceu alguma coisa com a Lia?
- Apenas nós fazemos as perguntas aqui. Limite-se a respondê-las.
O outro homem então tomou a palavra:
- Além do gosto irracional por livros, há alguma outra coisa? Ela já te expôs a ideias perigosas ou tem contato com indivíduos dessa espécie?
Tinha aquele garoto... Mas ela não sabia muita coisa sobre ele. Sabia que Lia tinha muitos motivos para ser mandada para o Centro, e proteger sua amiga foi mais um instinto que um ato minimamente pensado:
- Não, nada...
Um dos homens bufou:
- Parece que ela não está disposta a nos ajudar...
Enquanto isso, o outro checou as informações de Francine em uma folha de papel e encontrou algo interessante:
- A senhorita já sabe qual será a sua função na comunidade?
- Não, ainda não...
- Imagino que isso esteja te incomodando - "Incomodando" era pouco. Ela não estava suportando a ansiedade. Não fazia nada além de pensar naquilo - O resultado só será divulgado daqui a uma semana. Mas se a senhorita nos fornecer algum dado útil, mostraremos-lhe seu resultado hoje mesmo. Está aqui, nesta folha.
Dessa vez o instinto perdeu e Francine pensou sobre a proposta. Bastou olhar para a folha na mão do homem e uma reflexão de três segundos para saber o que escolheria:
- Ela... ela uma vez falou sobre um garoto... mas eu não sei o nome dele.
- Um garoto? Qual é a função dele?
- Eu não sei - ela murmurou.
- Parece que a senhorita terá que esperar mais uma semana até o resultado do teste - o homem disse, dobrando a folha e guardando-a no bolso.
- Não, espera! - gritou desesperada - Ela também falou... de um bosque...
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A Lei do Cinza - Capítulo VII

Aquelas letras acusatórias e perfeitamente retas não saíam da sua cabeça. Nem ouviu quando o funcionário voltou e disse que o novo relógio seria entregue na sua casa em uma semana, nem percebeu quando ela mesma agradeceu e saiu da Administração. Seus pés se arrastavam sobre a calçada, mas não era ela quem os controlava. Será que era mesmo verdade? Precisava falar com o moço do cabelo preto. Mas ele disse que ia trabalhar o dia inteiro!
Não... Se ele era procurado, não podia estar trabalhando...
Então se lembrou daquele lugar. A chuva, o moço, os livros, uma pequena parte do mistério começou a se encaixar. Ele tinha que estar lá. Lia correu o mais rápido que pôde, e abriu com um estrondo a porta do que acreditava ser apenas um depósito abandonado. Apesar da pouca iluminação, ela conseguiu distinguir o contorno fino do moço do cabelo preto, que se virou apavorado. Depois de alguns segundos, o garoto finalmente disse, em uma mistura de alívio e confusão:
- Ah, Lia, é você...
Ela permaneceu ofegante ao pé da porta:
- Vinicius?
Ao ouvi-la pronunciar seu nome, uma expressão ainda mais aterrorizada tomou o rosto do garoto:
- Como você...
- Então é verdade?! - bateu a porta atrás de si e andou em direção ao moço do cabelo preto, com passos decididos e apressados, enquanto ele recuava trêmulo - Seu nome é Vinicius? E você é procurado? Por homicídio?!
O garoto estava com uma mão na frente do corpo, como que para impedir que ela se aproximasse demais. Sentiu as costas baterem contra a parede gelada. Suas mãos começavam a suar e sua respiração estava alterada. Já imaginara o que faria se um dia isso acontecesse, mas a reação de Lia era muito menos intimidadora na sua cabeça. Respondeu aos tropeços:
- É, é verdade. Desculpa por não ter te contado. Eu não imaginava que a gente ia se encontrar de novo depois daquele primeiro dia no bosque. E depois - desviou o rosto, arrependendo-se do seu egoísmo - eu não queria que você se afastasse de mim. Desculpa, Lia.
- Bem, Vinicius, você ao menos vai me explicar alguma coisa?
- Claro. Eu explico. Só... por favor, não me chama disso. Eu não quero te ouvir falando o meu nome. Sua voz é igual à dela.
- Ela quem?
Ele hesitou. Não queria falar daquilo, mas sabia que a hora enfim havia chegado:
- Minha irmã - sentiu as pernas derreterem e chegou ao chão. Lia também se sentou, sem tirar os olhos dele. O depósito se encheu de um silêncio infindável, no qual o moço do cabelo preto pensou em como começar a explicar, e Lia esperou ansiosamente - Eu não era um rebaixado no começo. Estudei muito enquanto estive no Instituto. Tirei a nota máxima no teste. Fiquei com tanto orgulho de mim mesmo...
- O que você era?
- Administrador. Significa que um dia eu ia ser da Direção.
Lia ficou boquiaberta. A Direção era a função mais alta da comunidade, pois praticamente todas as decisões eram tomadas por aquele grupo de privilegiados. Ela nunca nem havia os visto, mas sabia que estavam lá, fazendo a sociedade funcionar.
- Mas eu não servia pra administrador. Sou curioso demais, e há muitos segredos que só são revelados aos diretores. Como assuntos relacionados ao Centro de Reabilitação Social. Eu também queria muito saber o que aquilo era. Então dei um jeito de descobrir onde ficava, e fui até lá uma noite. Mas - um suspiro - me pegaram espiando por uma janela. Achei que iam me prender ali mesmo, mas uma regra diz que a primeira ofensa deve ser repreendida com uma advertência. Então eu fui classificado como ameaça à sociedade. E rebaixado a entregador - nesse momento ele curvou a cabeça e olhou para o seu uniforme branco e comum - Devastado é uma palavra fraca demais pra dizer como eu fiquei depois disso.
- E então? - Lia estava fervilhando de curiosidade.
- Então... minha irmã me salvou daquele abismo... Ela era mais nova que eu, trabalhava no Laboratório como química. Geralmente os irmãos se dão bem quando são crianças, e se distanciam conforme crescem. Mas a gente nunca deixou de se falar. Meus amigos até estranhavam quando nos viam conversando... Uma coisa que me deixava feliz era chegar em casa e ser recebido por ela - "Bem vindo ao lar, meu querido irmão Vinicius!", ele ouviu ecoar na sua cabeça, sem conseguir evitar um leve sorriso - Falava de um jeito engraçado. Sem economizar palavras... E depois que tudo isso aconteceu e minha vida se resumiu à tristeza... ela aparecia todo dia dizendo algo como "vamos explorar as ruas, Vinicius!" "Vinicius, vamos brincar de alguma coisa!". Ela gostava de falar o meu nome, porque o achava bonito... Em uma das vezes que caminhávamos juntos, encontramos o bosque. Quer dizer, ela encontrou. Eu só a segui.
O olhar do moço do cabelo preto parecia estar longe da escuridão do depósito. Estava muito além, em tempos passados, vivendo o sorriso de quem gostava muito, mas muito mesmo. Porém, à medida que as lembranças avançavam, o garoto foi inundado por uma melancolia maior que a de quando fora rebaixado. Continuou:
- Depois de pouco tempo, eu realmente estava muito melhor. Mas... foi como se, pra eu melhorar, ela tivesse me dado a sua vida, entende? Ou como se ela tivesse tomado a minha tristeza. E eu não percebi! Não percebi sua alegria desaparecendo, porque estava ocupado demais sentindo pena de mim mesmo! - não sabia onde esconder o rosto, então acabou afundando-o entre os braços. Mas teve que levantá-lo para continuar a contar - Quando me recuperei e parei pra notá-la... ela nem parecia a mesma pessoa. E seja lá o que foi, tristeza ou ausência de vida, foi demais pra ela.
- Quer dizer que...
Mal terminou a frase, Lia viu o rosto do moço do cabelo preto ser percorrido por lágrimas. Ele estava chorando?! Nunca havia visto alguém com mais de quatro anos chorar. Era uma das primeiras coisas que se aprendia no Instituto. Chorar é errado. Mas ele parecia não ligar, e deixava as lágrimas escorrerem livremente, enquanto tentava falar:
- Ela me deixou um bilhete. Depois o encontraram e disseram que eu era o culpado. Não discordo... Estava escrito "Meu querido Vinicius, que sua tristeza venha comigo".
Ele não parava de chorar. Lia não sabia o que fazer. Deveria dizer alguma coisa? Que situação desconfortável! Provavelmente era por isso que era errado chorar. Ela apenas esperou o moço do cabelo preto parar de soluçar tanto para continuar a contar sua história:
- Dois dias depois, um amigo que trabalhava na Administração apareceu na minha casa e disse que acabara de imprimir a minha ficha para o Centro. Disse isso apressado e saiu correndo. Eu sabia que eles viriam naquela noite mesmo, então fugi pro bosque. Depois me lembrei de que havia um depósito que não estava sendo usado, e vim pra cá. Graças ao tempo em que fui administrador, sabia os horários em que as ruas ficam vazias, e graças ao tempo em que fui entregador, conhecia casas que estavam vazias mas que recebiam comida todo dia. Sabia que a biblioteca era praticamente abandonada, pois fui lá várias vezes com a minha irmã. E claro, também ia ao bosque. Onde te encontrei.
- E... o que você vai fazer agora?
- Estou pensando em fugir... daqui... da comunidade... pra além da fronteira.
Então ele não estava brincando aquele dia em cima do monte. Ele iria fugir... E ela ficaria lá... Lia não conseguiu dar um nome para a sensação que a atormentou naquele momento. Isso porque a palavra "abandono" há muito tempo não era usada para pessoas. Também pensou em como devia ter machucado o moço do cabelo preto nas duas vezes que o chamara de "Vinicius". Então perguntou, voltando ao seu outro nome:
- Moço... Como ela... a sua irmã... se chamava?
Ele respondeu, como se cada sílaba fizesse seu corpo inteiro arder:
- Sofia...
E voltou a soluçar, ainda mais intensamente.
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Além do Cinza - Capítulo VI

“Acho que não passei acho que não passei acho que não passei”, era o que Lia pensava enquanto tentava se distrair diante de centenas de livros. Pegou alguns e os folheou, sem ler uma única palavra, pois sua mente estava ocupada demais com aquele assunto. “Como isso pode ter acontecido?! Eu sempre fui boa nisso! Sempre!”. Se bem que ela não havia estudado tanto nas últimas semanas... Especialmente porque passou muitas horas no bosque e pensando no moço do cabelo preto. Seu inconsciente já estava acusando-o como o culpado por tudo.
Estava vagando entre as prateleiras, quando viu alguém de costas sentado no chão, curvado provavelmente sobre um livro. Outra pessoa na biblioteca... Só podia ser ele.
- Moço?
Ele se virou sorridente:
- Lia! Que legal, nunca te encontrei aqui! Na verdade, nunca encontrei ninguém aqui... Como foi no teste? Era hoje, certo?
- Fui mal. Acho que não fiz 900 pontos.
- Ah, que pena... Mas não se preocupa tanto com isso!
“Como assim?!”
- Não me preocupar? Aquele teste decidiu a minha vida! E eu fui mal! Você tá entendendo? – não percebeu que tinha elevado bastante o tom da voz.
- Estou. Mas não vale a pena se incomodar com esse tipo de coisa.
O que mais a irritou foi a tranquilidade do garoto. Como ele podia estar tão calmo e querer que ela também se acalmasse?! Tinha se preparado a vida inteira para aquele teste, ir bem era uma obrigação! Ela deixou escapar, em uma voz mais alta ainda:
- O que você pode saber?! Você é um rebaixado!
Ele olhou como que não acreditando no que acabara de ouvir.
- Se sente melhor agora? Isso vai fazer você passar?
Sem saber o que responder e não querendo perder a briga, Lia simplesmente se virou e saiu bufando. Queria ir pro bosque. E daí se ele aparecesse lá também? Aliás, se aparecesse, ela o expulsaria! Queria o bosque só para ela. Chegou lá batendo o pé. “Que vontade de fazer alguma coisa!”. Quando levantou o rosto para dar um berro para o céu, viu os galhos bem lá no alto.
Não pensou muito antes de começar a escalar a árvore mais próxima. Arranhou o sapato e os joelhos, mas nem reparou. Conseguiu sentar em um dos galhos, cheia de orgulho e admirando a vista. Mas logo voltou a raciocinar e se deu conta de uma pequena falha nas suas ações impulsivas... “Como se desce daqui?!”. Subira movida pela força da raiva. O medo, porém, não era forte o suficiente para trazê-la ao chão. Era alto demais, pular estava fora de questão. Mas não dava para ser pelo tronco, já que não havia onde apoiar os pés enquanto as mãos se moviam para baixo. Ainda mais porque, a essa altura, as mãos de Lia estavam completamente suadas.
Talvez não fosse tão ruim assim se o moço do cabelo preto aparecesse no bosque.
E se ameaças mentais funcionassem e ele sentiu que não deveria ir para lá, ou seria expulso?!
Quase duas horas depois, Lia ainda estava presa na árvore. Com certeza, ameaças mentais funcionavam. Olhava no relógio a cada trinta segundos. Tinha que estar em casa em quarenta e sete minutos. Sua mente repetia sem parar a regra 89: estudantes não podem estar fora de casa depois das seis. Não podem estar fora depois das seis. Regra 89. Fora de casa depois das seis. 89. Seis. 89. Fora depois das 89. Regra seis. Oitenta e seis. Depois das nove.
Felizmente, antes que ela perdesse completamente a razão, ouviu alguém se aproximar. E tinha certeza que dessa vez não era alucinação. Inclinou-se para frente, quase perdendo o equilíbrio, e viu o moço do cabelo preto passando bem por baixo do seu galho. Não podia perder essa oportunidade! “E daí se ele estiver bravo comigo? Eu preciso de ajuda!”. Gritou:
- Mo... moço do cabelo preto!
Ele estranhou a voz sem corpo e deu alguns passos para trás procurando da onde vinha. Olhou para cima e a viu. Nem precisou perguntar para entender a situação, o rosto amedrontado de Lia já dizia tudo. Ele também não podia perder essa oportunidade:
- Ora ora, se não é a Lia em cima de uma árvore. Como foi que chegou até aí?
- Para de se fazer de bobo. Eu não consigo descer...
- E o que eu tenho a ver com isso?
- Eu quero que você me ajude!
Ele levou a mão ao cabelo e teve que morder o lábio para não rir.
- Não consegue descer, hein?
Então o garoto se aproximou do tronco e começou a subi-lo habilmente. Mas ao invés de ajudá-la a descer, simplesmente se sentou no mesmo galho em que ela estava e exclamou:
- Que dia bonito! Poderia ficar aqui até amanhã!
Teria o empurrado para fora da árvore se não fosse proibido tocar em outras pessoas.
- Para com isso! Isso não é brincadeira! Você só quer me irritar, não é?! Que infantil!
- É assim que você fala com a sua única esperança de algum dia descer desta árvore? Se eu te incomodo, posso ir embora agora mesmo.
Ela retirou o que disse na mesma hora e tentou se controlar:
- Sério, eu preciso estar em casa daqui a quarenta e três minutos. Por favor, me leva pra baixo.
- Isso significa que nós temos treze minutos até você ter que voltar – se espreguiçou lentamente - Dá pra fazer tanta coisa em treze minutos...
- Tá, eu entendi, o que você quer que eu faça?
- Quero que a gente volte a ficar de bem.
“De bem”? Quantos anos ele tinha? Cinco?
- Ai, tá bom, tá bom, estamos de bem – se sentiu ridícula falando dessa maneira.
- Assim não! Parece até que eu estou te forçando a dizer isso!
“Mas você está me forçando a dizer isso!”, ela pensou. Achou melhor não falar mais nada. Ele também não falou nada. O garoto se espreguiçou de novo e fechou os olhos. Ela olhou para a figura tranquila ao seu lado, mas dessa vez, ao invés de irritar-se, sentiu um pouco da tranquilidade dele passando para ela. Não podia ficar sem falar com alguém que a fazia tão bem:
- Ei, não dorme, senão você vai cair.
Ele abriu os olhos e um sorriso contido:
- Tá preocupada comigo, é?
- Bem, estou – por que ele tinha que falar desse jeito que a deixava com tanta vergonha?
- Então a gente tá de bem?
- Sim... Estamos de bem... - o garoto não comentou o rosto corado de Lia, com medo de que ela ficasse de mal novamente. Ela analisou a imagem do moço do cabelo preto, e viu suas mãos ossudas, dando-se conta de algo misterioso - Tem uma coisa que eu não entendo... Como você tá há tanto tempo sem relógio?
- Ah, ninguém nem repara. Ou se reparam, não falam nada. Então qual o problema? Aliás, posso ver o seu relógio? - ela estranhou o pedido, mas levantou o pulso mesmo assim – Você percebeu que ele tá dois minutos adiantado?
- Quê? Impossível! Como você sabe?
- Tá fazendo um barulho um pouco diferente – Lia aproximou o relógio do ouvido, mas não percebeu nada diferente, apenas a mesma aconchegante constância de sempre. Talvez não reparou porque estava sempre com ele? - Isso já aconteceu com o meu, empresta aqui, eu sei arrumar.
Ela tirou o relógio do pulso com todo o cuidado, sentindo que uma parte do seu corpo que estava sendo retirada. Entregou-o ao moço do cabelo preto, que o recebeu com o mesmo zelo. Mas antes que Lia compreendesse a sua real intenção, ele o atirou para longe com toda a força, e tudo o que se ouviu foi um eco do relógio batendo contra o chão.
Poucas palavras seriam capazes de descrever a reação exasperada de Lia. Ela esticou os braços inconscientemente e sentiu seu corpo inclinar para frente mais do que deveria. Esteve livre no ar por uma fração de segundos, mas antes que pudesse esconder a cabeça por reflexo, sentiu seu braço sendo puxado para cima pelo garoto. Ele também quase perdeu o equilíbrio, mas conseguiu apoiar a outra mão no tronco da árvore.
- Por que você fez isso?! – ela gritou, com os olhos para cima e fixos na figura que a sustentava – E você não pode me tocar! Regra 34!
- Lia, agora realmente não é hora disso... – não ia aguentar por mais muito tempo – E se eu não te tocasse, você teria caído e quebrado a perna. Agora não tá tão alto. Você não vai se machucar. Eu vou contar até três e te soltar, tudo bem?
Ela olhou para baixo:
- Mentira! Aqui é alto sim! Não me solta! Não me solta!
- Mas não dá pra fazer nada além disso!
- Por favor, não me solta!
A súplica foi tão intensa que o moço do cabelo preto conseguiu criar forças para tirar a mão que estava no tronco, segurar-se no galho e descer o corpo para o ar.
- E agora? É o mais perto do chão possível.
Ela olhou para baixo novamente:
- Tá... daqui eu consigo... Pode soltar...
Ele contou até três e abriu os dedos que a seguravam. Ela chegou ao chão sem muito impacto, e atrás veio o moço do cabelo preto, que aterrissou com uma cambalhota sobre as folhas secas. Ele se levantou e encontrou o rosto perplexo de Lia:
- Por que você fez aquilo?
Cabelo sendo enrolado entre dedos.
- Porque você não se jogaria pra frente sem um bom motivo. Eu até pensei em pular em cima do galho até ele quebrar, mas aquele era grosso demais.
- Mas e agora? Cadê meu relógio?!
- Eu duvido que ele ainda esteja funcionando, de qualquer jeito.
Apesar de tudo, não conseguiu ficar brava com o garoto. Afinal, foi ela quem pediu para ser ajudada, e foi isso que ele fez...
- Tá, mas então vem comigo amanhã até a Administração pra pedir outro relógio.
- Ih, desculpa, não vai dar não, amanhã eu tenho que trabalhar o dia inteiro... Não tá na hora de você voltar? Já devem ter passado treze minutos.
Ela olhou automaticamente para o pulso, mas viu apenas pele horrivelmente leve. Que estranho. Conformou-se com o fato de que teria que ir sozinha e se despediu do moço do cabelo preto.



Lia aproveitou que não tinha mais aula e foi à Administração bem cedo. Pelo menos não era muito longe de casa. Chegou lá e entrou em uma das salinhas com um funcionário atrás de um computador:
- Bom dia. Como posso ajudar? – o homem falava como uma máquina, e seus movimentos também eram bastante robóticos. “Aposto que eles têm aulas pra ficar assim”, a garota pensou.
- Bom dia... Eu gostaria de solicitar um novo relógio...
- Nome?
- Lia.
Ele digitou as três letras no computador e logo encontrou todas as informações relevantes em relação a ela.
- Casa 746, correto?
- Sim.
- Motivo da solicitação?
- O antigo caiu no chão e quebrou...
O homem terminou de digitar, tirou uma fita métrica de uma gaveta e mediu o pulso esquerdo de Lia. Treze centímetros. Ele guardou a fita e terminou de digitar com uma precisão admirável.
- Um minuto, por favor - disse, ao se retirar por uma porta atrás da mesa dele.
Lia esperou olhando ao redor. Foi então que viu perto do computador uma pasta marrom onde estava escrito “Centro de Reabilitação Social”. Será que ela podia mexer naquilo? Provavelmente não, mas estava tão impulsiva ultimamente que seria apenas lógico ela continuar a agir daquela forma, certo? Era apenas constante. E a constância é boa.
Então ela abriu a pasta e encontrou dezenas de fichas de pessoas que foram levadas ou seriam levadas para o Centro. Cada folha tinha o nome, a situação e a ofensa cometida. Violeta, em tratamento, desrespeito aos superiores, Dan, em tratamento, má influência à sociedade, Marco, procurado, invasão de privacidade... Todos eram procurados ou estavam em tratamento. Não havia nenhum "curado". Então o que o moço do cabelo preto falou devia mesmo ser verdade... O Centro era uma sentença de morte. Lia continuou a virar as páginas, completamente absorta, e se espantou ao ver a foto de duas crianças, em tratamento por desobediência, de uma garota que parecia ter a idade dela, por insolência, e uma senhora de meia-idade, por loucura.
Mas nada, em toda a sua vida, surpreendeu-a mais que a página seguinte. Ela perdeu a respiração e sentiu o coração gelar. Seu corpo parou enquanto o mundo todo continuou a se mexer. Não podia ser verdade. Não era possível que fosse verdade. Olhou mais uma vez sem acreditar, mas aquela imagem não sumia.
Impresso na folha, estava o rosto do moço do cabelo preto, seguido das palavras "VINICIUS", "PROCURADO", "HOMICÍDIO".
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Além do Cinza - Capítulo V

Lia não voltou ao bosque nem à biblioteca, com medo de encontrar o moço do cabelo preto. Mas como não queria ir para casa logo depois de sair do Instituto, criou o hábito de perambular por aí. Não via nada de interessante, apenas as praticamente idênticas construções: ou locais de trabalho ou casas com uma porta e uma janela de habitantes. Já havia passado uma semana desde aquele dia do sol.
Seus pés frequentemente a levavam para perto do bosque antes que percebesse. Em uma dessas vezes, às 16:27, sentiu uma gota cair do céu. Em poucos segundos, essa gota se transformou em várias e não demorou para que virasse um temporal. “Ai, que ótimo, é isso que dá não andar com guarda-chuva!”. Não havia muitas opções onde se esconder, então ela tentou se encolher debaixo da marquise de um local de trabalho. Não adiantou muito, estava se molhando praticamente tanto quanto estaria se estivesse na chuva. Sua roupa e seu cabelo estavam gelados e grudando no corpo. Como odiava quando isso acontecia! E não parecia que a chuva ia parar em breve.
Enquanto esperava, ouviu passos de alguém vindo correndo. Não levantou a cabeça para ver quem era, nem quando a pessoa parou ao seu lado e abriu a porta do local de trabalho, nem quando a pessoa interrompeu o abrir da porta e olhou a garota encolhida mais uma vez para ter certeza do que vira. Por isso, ela estava totalmente despreparada para a voz de que tanto gostava, mas que não queria ouvir:
- Lia! Faz tempo que eu não te vejo...
Era o moço do cabelo preto. Por que tinha que se esconder bem na frente do local de trabalho dele?! Ficou alguns segundos encarando-o incrédula, até que percebeu que teria que falar algo. Disse a primeira coisa que lhe veio à mente, de um jeito um pouco hostil:
- Você voltou a comer a nossa comida?
- Aham... Desculpa de novo. Você tava certa, eu não deveria ter feito aquilo... – bem, não havia muito o que fazer além de perdoá-lo, então ela lhe disse que estava tudo bem. Ele terminou de abrir a porta e convidou - Vem, entra aqui até a chuva passar.
Qualquer coisa era melhor que congelar na chuva. Ela o seguiu, esperando encontrar o lugar onde ele trabalhava. Talvez fosse uma sala com comida até o teto! Mas ao entrar, se deparou com um espaço grande e iluminado apenas por uma pequena janela. O chão, as paredes e o teto eram cinzas, e havia alguns objetos pelos cantos. Não conseguiu identificar o que eram, apenas enxergou suas sombras.
- Ahm... Que lugar é esse? – perguntou, enquanto tentava inutilmente secar os braços na roupa molhada.
- Acho que era um depósito. Eu entrei aqui uma vez quando tava fugindo da chuva. Não deve ter problema, tá abandonado mesmo.
Só então percebeu que o moço do cabelo preto estava com um livro debaixo da camisa. Conforme o puxou para fora, achou que o livro fosse se desfazer por causa da água da chuva, mas então percebeu que a aparência destruída se devia à idade. Na verdade, nunca havia visto um livro tão antigo quanto aquele!
- O que é isso? Onde você arranjou?
- Na biblioteca. Ainda bem que ninguém sabe o que tem lá, senão o teriam queimado faz tempo – ele sentou no chão com as pernas cruzadas e o abriu - Não fale desse livro pra ninguém.
Nenhuma outra frase incitaria tanto a sua curiosidade. Ela rapidamente sentou ao lado dele e se esgueirou sobre as páginas amareladas e corroídas pelo tempo. Ele explicou:
- Isso aqui é de anos e anos atrás... Olha essa parte... “uma sociedade justa e igualitária, onde todos podem ser felizes e livres de qualquer espécie de sofrimento.” - Ele esperou com expectativa por alguma reação, mas como não a obteve, tentou esclarecer - É sobre o início! Não era pra tudo isso ficar do jeito que ficou! A intenção era outra. Era algo bom! Mas o plano foi mudando conforme as gerações passaram. E agora a gente tá assim.
Ela continuou sem entender nada. Do que ele estava falando? Início? Do quê? Tudo isso o quê? O garoto continuou, sem dar atenção à sua expressão atordoada:
- No começo devia existir o amor...
Argh. Lia tinha aversão a essa palavra, pois não conseguia entender o que significava e ninguém queria explicar. Mas se alguém pudesse lhe dizer o que era, esse alguém era o moço do cabelo preto:
- Desculpa, mas o que é isso? Minha mãe repete essa coisa todo dia, mas eu não sei o que ela quer dizer.
- Aposto que nem ela deve saber. Os pais são orientados a dizer isso aos filhos e ao par, sabia? – ele ia começar a enrolar o cabelo entre os dedos, mas sentiu-o molhado quando o tocou e retirou a mão, convencido de que não conseguiria raciocinar direito sem o seu habitual gesto - Amor é quando você gosta muito, mas muito mesmo de alguém.
Era tão simples assim? Anos e anos imaginando o que era aquilo que mencionavam à exaustão e era só isso? Não pôde deixar de ficar um pouco decepcionada.
- Hm... Tem problema nunca ter sentido isso? – tentava evitar a palavra.
- Acho que significa que você é igual a todas as outras pessoas.
- Ufa, que bom, então eu sou normal! – voltou os olhos ao moço do cabelo preto e percebeu que ele não parecia compartilhar do seu alívio. Será que - Você já gostou muito, muito de alguém?
Um longo silêncio, no qual ele perdeu os olhos em lembranças. Preferia dizer que não, mas não queria mentir outra vez para aquela voz inocente e infantil, então balançou a cabeça positivamente.
- É por isso que você está triste agora?
Nem percebera que deixara a mágoa transparecer... Balançou a cabeça novamente.
- Então vai ver que é por isso que não existe mais. Fazia as pessoas sofrerem.
Depois de alguns segundos ele assimilou o que ouvira. Como nunca havia pensado nisso? Falou em voz baixa, mais para si mesmo, como se tivesse decifrado um enigma:
- “livres de qualquer espécie de sofrimento”...
- Mas não entendi porque fazem as pessoas falarem isso, se é algo ruim.
O moço do cabelo preto voltou à realidade e respondeu propriamente:
- Acho que apenas virou tradição. Ninguém sabe o que é, de qualquer jeito.
- Ainda bem que acabaram com essa coisa. Imagina se você gosta muito de alguém e ela morre – uma pausa e um suspiro - Teria sido horrível se eu gostasse muito do meu pai, por exemplo...
- Seu pai?
Fazia tempo que não dizia essa palavra... Sentiu uma coisa esquisita na língua, como se tivesse dito algo proibido. Nunca havia falado sobre isso para ninguém, mas sentia-se confortável com o moço do cabelo preto:
- Um dia eu cheguei em casa e ele tinha se enforcado – lembrou-se da cena estática de quando tinha quatro anos. Não fora atormentada pela tristeza nem pelo desespero, apenas pelo choque. Não sabia que as pessoas podiam se... Porém, contando agora, não sentia absolutamente nada - É por isso que não tenho irmãos. Acharam que seria inadequado entregar mais um filho pra uma pessoa sozinha criar. Era muito chato quando me perguntavam sobre o meu irmão ou irmã e eu dizia que não tinha. Me sentia mal por ser diferente - o garoto não a condenou por ela se importar mais com o fato de ser diferente do que pela perda de um integrante do núcleo familiar. Era apenas natural. Era o esperado.
O moço do cabelo preto permaneceu sentado em silêncio, vítima de centenas de pensamentos. Mas Lia não estava com vontade de apenas ficar sentada refletindo, então se levantou e pôs-se a explorar o depósito. Estava inesperadamente limpo para um lugar abandonado. Talvez não tivesse sido abandonado há tanto tempo. Viu um balcão e foi espiar se havia algo atrás dele.
- Moço! Moço! Vem cá! Olha! Tem livros aqui! Um monte deles!
Ele se levantou e se deslocou vagarosamente até onde ela estava:
- Ah, Lia, nem são tantos assim. Devem ser uns quarenta, cinqüenta no máximo.
- Mas esses livros são da biblioteca! O que cinqüenta livros da biblioteca tão fazendo num depósito abandonado? – todos tinham a capa dura e cores sóbrias. Um dos motivos pelos quais Lia gostava tanto de livros era a sua aparência. Muitos deles eram atraentes aos olhos, não apenas práticos.
- Isso prova que ninguém sabe e nem liga pra o que tem lá.
Ela se ajoelhou para folheá-los, mas o garoto a repreendeu:
- Ei, não mexe! Isso deve estar cheio de pó. Nunca ouviu falar que a curiosidade matou o gato?
Lia levantou o rosto sem largar o livro e respondeu ingenuamente:
- A curiosidade me fez encontrar o bosque e você.
Um pensamento que fez o garoto estremecer surgiu em sua mente. Não queria afastá-la, mesmo sabendo que o que estava fazendo era errado. Então se esforçou para sorrir e disse, o mais levianamente que conseguiu:
- Então vamos torcer pra esse ditado não ser verdade. Olha, já parou de chover. E já devem ser umas cinco e meia.
- É mesmo! Eu preciso ir! – não queria se separar daqueles livros, mas não podia simplesmente pegá-los sem nem saber a quem pertenciam - Eu sei que ainda to com o seu livro de arte, mas posso pegar aquele antigo emprestado? Quem sabe aí eu o entenda.
- Claro. Não se preocupa, devolve quando puder.
Ela colocou o livro que estava segurando de volta no lugar, tomando o cuidado de deixá-lo como estava, para que o dono não percebesse. Voltou para onde estavam sentados, levantou o livro das páginas amareladas com mais cuidado ainda, e saiu correndo no asfalto molhado, com o cabelo ainda um pouco úmido.


No dia seguinte, Fran e Lia voltavam do último dia de aula no Instituto. As duas ficavam com frio na barriga só de pensar que faltavam menos de 24 horas para o teste que decidiria a função delas na sociedade. Falaram dele o caminho inteiro, se sentindo aptas a conseguir a nota mínima de 900 pontos. Não sabiam que apenas uma delas poderia ser aprovada (estavam precisando de trabalhadores para funções rebaixadas, devido ao crescente número de suicídios). Ao chegarem na frente da casa de Fran, ela disse, antes de sumir atrás da porta como sempre:
- Lia... Não me leve a mal, eu só to preocupada, e faz um tempo que eu quero te perguntar isso... Tá tudo bem com você? Não sei, você parece... diferente.
Diferente? Sentia-se mais leve e... tranquila. Mas não imaginava que dava para notar:
- Deve ser o bosque... – ela pausou e sorriu só de criá-lo em sua cabeça - Sabia? Existe um bosque por aqui! Atrás de um corredor de tijolos. Ele é maravilhoso! E eu conheci um garoto muito interessante lá! – não devia haver problema em falar dele. Nunca foi orientada a não fazê-lo, certo?
- Um garoto? Qual o nome dele?
- Eu não sei... Ele disse que nomes não importam. Então eu o chamo de “moço do cabelo preto”.
- Mas todo cabelo é preto.
- É, mas só ele é o moço do cabelo preto.
Fran observou o rosto cintilante da amiga sem ter certeza do que deveria pensar. Aquilo parecia muito estranho... Por outro lado, nunca vira Lia tão alegre... Então limitou-se a alertá-la delicadamente:
- Só... cuidado com o que você fala, tá? Não tem problema falar pra mim, ou pra esse garoto, aparentemente. Mas... cuidado.
- Pode deixar! – ela se afastou e acenou - Bom teste amanhã, Fran!
A outra sorriu de volta e desejou com igual sinceridade:
- Bom teste!
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Além do Cinza - Capítulo IV

Nenhuma luz estava acesa às cinco da manhã. Felizmente, não levou muito tempo para que Lia se acostumasse à escuridão, e assim conseguiu fazer o caminho até o bosque. Estava caindo de sono, pois normalmente só acordava às sete.
O bosque escuro era um lugar totalmente diferente. As sombras das árvores não se distinguiam muito bem, então a única forma de se orientar era pelo som das folhas no chão. E agora? Para onde iria? Combinaram de se encontrar no bosque, mas ele era imenso! Será que o moço do cabelo preto já estava lá? Se pelo menos conseguisse enxergar alguma coisa...
- Ei! Lia! É você? - ouviu alguém sussurrar.
- Sim! Cadê você? Por que você tá sussurrando?
- Ah, pra ficar mais divertido - uma risadinha - Consegue me ver? Eu tô aqui!
- Ah, achei - disse ao ver uma sombra acenando a alguns metros de distância - O que você queria me mostrar?
- A gente vai ter que andar um pouco - "no escuro?!", pensou horrorizada, mas ele logo a tranquilizou - eu vou balançando o braço, é só seguir. Cuidado pra não bater a cara em uma árvore - outra risada, apesar de Lia não achar graça nenhuma naquilo.
- Como você tá com tanto bom humor a essa hora? - não pôde deixar de perguntar, um pouco irritada.
- Talvez sejam as frutas! Você também deveria parar de comer aquela coisa! Nunca me senti melhor!
Ela recusou educadamente e continuou andando atrás do braço em movimento. O chão se tornara bastante inclinado e ela já estava ficando cansada de subir:
- Tá chegando? Há quanto tempo a gente tá andando?
- Tudo ao seu tempo, cara Lia! Estamos quase lá!
Mal sabia Lia que esse "quase" significava mais quarenta minutos de subida, nos quais ela trombou contra cinco árvores e caiu duas vezes. As árvores se tornavam mais escassas à medida que subiam, até que chegaram ao topo de um monte coberto por um gramado macio, onde ela deitou completamente exausta.
- E então? O que você queria me mostrar?
O moço do cabelo preto se sentou perto de Lia, com as pernas estendidas e as mãos apoiadas no chão atrás do corpo. Clareara um pouco e agora estava tudo, incluindo ele, coberto por tons de azul escuro. Os dois primeiros botões de sua camisa estavam abertos, o que violava a regra 133, mas Lia nem se deu ao trabalho de repreendê-lo, pois sabia que de pouco adiantaria.
- Agora é só esperar... de olhos bem abertos...
Ela obedeceu. Mas o que estariam esperando, afinal? O que havia para ser mostrado no alto de um monte às seis e doze da manhã? Talvez devesse ter ficado dormindo, mal começara o dia e já estava cansada!
Então ela percebeu o que era e retirou os protestos. O céu começou a mudar. “É o sol! Ele me trouxe pra ver o sol!”. Chamaria-o de excêntrico, se ela mesma não tivesse se entusiasmado tanto com aquilo. Não podia permanecer deitada, levantou-se e correu alguns metros para o ponto mais alto do monte. Pela primeira vez, esqueceu-se das regras e do relógio nomeando o tempo. Nem percebeu quando o moço do cabelo preto veio também correndo e se posicionou ao seu lado.
A maior parte do céu resistia no azul escuro, mas o horizonte começava a ceder ao amarelo. Os raios do sol tingiam as nuvens que estavam por perto de laranja e lilás, e o céu também estava se tornando uma mescla de cores infindáveis, que não se deixavam definir nem queriam que descobrissem onde uma acabava e a outra começava. O azul se transformava em amarelo, o lilás em vermelho, o rosa em laranja e tantas outras ao mesmo tempo, no espaço infinito sobre suas cabeças. Enquanto admirava assombrada com tamanha perfeição, angustiou-se com o pensamento de que poderia estar perdendo mais alguma coisa no mundo:
- Que ridículo... O sol nasceu umas seis mil vezes desde que nasci e eu nunca parei pra olhar - murmurou, não sem um pouco de melancolia.
Ao tirar o rosto do céu, viu a fronteira bem longe, aquele enorme muro de concreto sem fim. Aproximou-se do moço do cabelo preto, que também parecia ter avistado a fronteira:
- O que você acha que tem do outro lado?
Ele enrolou o cabelo nos dedos como de costume:
- Hm... Mais chão, mais árvores... Nada de regras nem horários... Espero que não tenha pessoas, senão já vai estar tudo estragado. Você consegue imaginar como seria isso? - perguntou empolgado - E você? O que acha que tem?
- Os perigos dos quais falam. Só não sei o que são.
- Só se for um perigo chamado liberdade.
- E isso não pode ser perigoso?
O moço do cabelo preto refletiu e teve que concordar. Realmente, podia ser perigoso. Mas estava convicto de que não o seria para ele.
- Você acredita em tudo o que dizem?
Ela respondeu um pouco sem jeito:
- Acredito... Só tenho algumas dúvidas... Certas coisas que gostaria de saber, mas acho que não é permitido perguntá-las.
O garoto se interessou:
- Como o quê?
- Hm... Eu queria saber como é o tratamento no Centro de Reabilitação Social, por exemplo.
- Tratamento? Lia, não tem tratamento nenhum.
- Mas então o que eles fazem com as - não precisou terminar a frase, apenas olhar para o garoto foi o suficiente - É por isso que meu vizinho não voltou? Ele nunca vai voltar? – engasgou.
- Não, Lia. Ninguém volta. O Centro é uma sentença de morte.
- Como você pode saber? - choramingou. Não tinha a intenção de ser grossa, apenas não queria acreditar no que estava ouvindo. Ele ficou quieto por alguns instantes, pensando em como convencê-la sem revelar mais do que devia.
- Eu apenas sei. Tudo bem se você não acreditar em mim, mas eu tenho certeza do que disse.
No fundo, Lia sabia que ele estava falando a verdade. No fundo, ela mesma já sabia, ou no mínimo suspeitava daquilo. Segunda mentira que lhe haviam ensinado. A primeira era que tragédias como suicídio não existiam, pois todos eram felizes do lado de dentro da fronteira. Lembrou-se de uma pergunta que fez à Fran semanas atrás e a repetiu para o garoto:
- Você gosta de viver?
Não recebeu expressões de estranhamento dessa vez.
- Sim... Eu gosto muito de viver. Eu gosto demais de viver – alguma coisa estava errada. Suas palavras soaram tão sinceras, mas tão... tristes. E amarguradas. Quando indagou-lhe sobre isso, o moço do cabelo preto hesitou, mas acabou respondendo – Há algo que me preocupa...
- O quê?
Ele voltou o rosto na direção da fronteira e não disse mais nada. Lia sabia que ia ficar sem a resposta daquela pergunta. Depois de alguns minutos de devaneios mútuos, ele finalmente disse:
- A gente podia fugir... Imagina você num lugar sem regras nem horários. Acha que consegue sobreviver? - um sorriso. Devia estar brincando, então Lia sorriu de volta.
- É, quem sabe?
Mas o garoto continuou com os olhos fixos na fronteira. E se ele não estivesse brincando?
- Ah, mas é impossível atravessar a fronteira, não é mesmo? – acrescentou Lia, para desencorajá-lo da ideia absurda.
- É... Acho que sim...
O moço do cabelo preto tirou os olhos da fronteira e os dirigiu para Lia. O sol já iluminava a terra de um ponto mais alto no céu e uma brisa começara a soprar. Ele não parava de olhar. Ela o encarou como que perguntando "Por que tá me olhando desse jeito?".
Lia não esperava pelo o que aconteceu em seguida. O garoto subitamente a agarrou pela cintura e a puxou para si, e enquanto uma mão passeava pelo seu cabelo e pelo seu rosto, a outra a mantinha junto de seu corpo.
- O que você tá fazendo?! - exclamou enquanto tentava se afastar - Você não pode me tocar! É contra a regra - qual era mesmo? - trinta e - trinta e quanto?! - trinta e - tentava se lembrar e se livrar dele, sem sucesso, até que percebeu que teria que quebrar a tal regra se quisesse afastá-lo. Empurrou-o com toda a força que conseguiu reunir, enfim separando-se dele - Você tá louco?! O que foi isso?! - Mas ele também estava ofegante e confuso.
- Eu... eu não sei... De repente... eu senti que precisava... - ele olhou para as mãos e em seguida para Lia, que por sua vez estava com as mãos sobre o lugar onde ele a tinha agarrado - Eu te machuquei? Desculpa, Lia, desculpa. Eu não sei... Por que... Será que... as frutas...? - murmurou, compreendendo.
- Pronto, você descobriu pra que que serve a mistura. Impede as pessoas de ferirem outras! - ele escondeu o rosto, cheio de culpa. Lia ainda sentia as mãos dele na sua cintura. Que sensação horrível! Não apenas a dor, mas também o calor latejante que não lhe pertencia. Não era à toa que isso era proibido! - Agora para de comer essas frutas. E me leva de volta pro bosque.
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Além do Cinza - Capítulo III

Os dias passavam e viravam semanas. Lia não ia sempre ao bosque, mas diversas vezes foi e não encontrou o moço do cabelo preto. Nem por isso desanimou, também adorava ficar apenas acompanhada das árvores. Cada vez que passava horas e horas com as folhas em cima e em baixo, algo nela mudava um pouco, apesar dela mesma não perceber. Também ia muito à biblioteca, a gigantesca e decadente biblioteca. Era cheia de livros e vazia de pessoas. Não gostava de ir para lá pois era lembrada de que era diferente dos outros, mas não conseguia deixar de visitá-la. "Qual o meu problema?", pensava, enquanto contemplava paredes de livros. Suspeitava da resposta, mas tentava ignorar a voz que lhe falava do passado.
Em um dia de folga, Fran e Lia foram a uma praça para descansar. Ou melhor, Lia estava descansando, enquanto Fran estava curvada sobre uma apostila. Ela se irritou com a obsessão da amiga e se perguntou em meio à frustração, "Por que ela só se importa em estudar? Ela nem para pra ver a beleza das coisas! Nem pra olhar pra cima e reparar que o céu tá azul, depois de semanas!". Ela se espreguiçou no banco e comentou, para tentar fazê-la perceber:
- O céu tá lindo hoje!
- É, muito bonito - Fran continuava com o rosto e os ombros quase colados às folhas - Escuta, você já estudou o capítulo 32?
- Já, não é muito difícil.
- Tá brincando? Eu não consigo nem entender esses comandos! Queria ter nascido com o talento pra isso que nem você. E daqui a duas semanas é o teste! - cobriu o rosto dramaticamente com as mãos - Eu tenho que passar. Eu preciso passar. Se não - pensou no destino dos rebaixados, exercer as funções de menor prestígio e maior esforço físico - vou ser uma falha. Vou ser infeliz pra sempre!
- Também não precisa exagerar! - lembrou-se do moço do cabelo preto. Ele era entregador, uma função dos rebaixados, mas era uma pessoa, bem, interessante - Imagina como seria se nós pudéssemos escolher nossas funções... Ou se pudéssemos escolher nosso par!
Fran ficou boquiaberta:
- Você é louca. Da onde saiu esse absurdo?
- Ah, hm... tá, é verdade... e se você escolhesse errado, né? A culpa seria sua. É, seria responsabilidade demais.
- Sem falar que a comunidade viraria uma bagunça - acrescentou, enquanto fechava a apostila.
- Sim... Regra 1, tudo é decidido e feito para o bem da comunidade.
- Exato. As coisas funcionam porque são previsíveis. A gente aprende, começa a trabalhar, é designado a alguém e recebe dois filhos para criar.
- Regra 15.
- Como é que você consegue decorar o número de todas as regras?
- Não sei, é legal.
A outra revirou os olhos:
- Ai, Lia, só você pra gostar dessas coisas... Mas até que eu acho isso legal em você - e sorriu, olhando-a nos olhos. Fazia tempo que Lia não a via sorrir, e percebeu que ela mesma também se tornara um pouco amarga quando estava com Fran. Fazia meses que a amizade das duas se tornara um tanto distante. Conversavam, sim, mas parecia que faltava alguma coisa, que poderia voltar agora, se não deixassem a chance escapar.
- Obrigada. Eu tenho sorte de te ter como amiga há tanto tempo... Obrigada por isso também - ela sentiu o rosto esquentar. Nunca havia dito algo assim.
- Fazer o quê? Certos hábitos são difíceis de mudar - respondeu Fran, rindo um pouco. Lia se juntou e logo estavam as duas rindo como não faziam há muito tempo.
Depois de se despedirem, Lia foi correndo para o bosque. Estava se sentindo tão bem que queria ficar saltitando entre os troncos. Enquanto o fazia, viu um vulto em cima dos galhos de uma árvore e correu para ela:
- Moço do cabelo preto!
O garoto levou um susto e se desequilibrou. Um livro e um objeto redondo caíram nas folhas secas, mas ele conseguiu se segurar por uma mão e ficou balançando lá no alto.
- Lia! O céu tá lindo hoje! - cumprimentou, enquanto tentava alcançar a outra mão no galho.
- Desculpa, desculpa, desculpa! Eu não queria te assustar! E sim, tá muito lindo!
Ele estava agora se segurando com as duas mãos e começara a impulsionar o corpo para frente e para trás. Contou até três e no três, soltou-se e voou pelo ar, dando uma cambalhota ao chegar no chão, para amortecer a queda.
- Uau, onde você aprendeu isso?
- Não sei, é legal. Quer tentar? - convidou com um sorriso travesso.
- De jeito nenhum. Ei, é por isso que eu não te encontrei todas essas semanas? Porque você fica em cima das árvores?
- Oras, eu também passo o tempo em casa!
Casa... Lia se lembrou de outra coisa que a fazia diferente de todos e baixou a cabeça com um pouco de vergonha:
- Ah sim, com o seu irmão ou irmã.
- Eu não tenho irmãos – respondeu se espreguiçando.
- Você também não?! É tão difícil encontrar outra pessoa como eu! Por que você não tem irmãos?
O garoto a encarou com uma expressão séria que ela nunca vira, e Lia percebeu que perguntara o que não devia.
- Desculpa. Eu entendo se não quiser responder.
- Você gostaria de me contar por que também não tem irmãos?
- Não...
- Então estamos quites.
Dessa vez o silêncio que se instalou era constrangedor e pesado. Lia olhou ao redor para tentar disfarçar:
- Ah, seu livro caiu ali - ela foi buscá-lo e se deparou com uma palavra nova - o que é "arte"?
- É uma coisa que faziam anos e anos atrás.
- Anos e anos atrás? - nunca cogitara a existência de um "anos e anos atrás" - E pra que serve?
Ele começou a enrolar o cabelo preto:
- Nada em especial.
- Que besta - retrucou, devolvendo o livro.
- Mas é exatamente isso que a torna diferente - já havia esquecido que a garota lhe havia perguntado sobre irmãos e voltou a falar empolgado - Servia pra nada e pra tudo ao mesmo tempo. Ela não se resumia a uma função nem era escrava de um sentido. Toma, por que você não pega emprestado? - estendeu o livro de volta.
- Mas isso é da biblioteca, não é? Quando você tem que devolver?
- Não se preocupa, aposto que eles nem vão reparar se eu devolver atrasado - Lia pegou o livro novamente e o abraçou contra o peito.
- Obrigada. Eu achava que mais ninguém lia livros... Me sinto melhor agora que sei que não sou a única.
- Oba, outra aberração! - cantarolou alegremente. Lia nunca se vira daquela forma, mas ficou pensando e concluiu que era justamente aquilo, uma "aberração". Mas até que isso não era ruim, especialmente agora que não estava sozinha. Enquanto isso, o moço do cabelo preto foi atrás do objeto redondo que caíra com o livro.
- E isso, o que é? - perguntou enquanto ele voltava.
- Uma fruta. Aparece em algumas árvores e você come.
- Dá pra comer?! E por que você faria isso? - a fruta parecia dura a ponto de quebrar os dentes, mas até que exalava um cheiro agradável.
- Eu te falei que faço a entrega de alimentos, certo? Uma vez tive que ir à Indústria e ouvi dois funcionários conversando. Falaram que uma mistura que não lembro o nome estava quase acabando, e que seria um caos se ficassem sem ela - o garoto então chegou perto e sussurrou em tom de mistério - Acho que eles colocam alguma coisa na comida.
Lia olhou sem entender o motivo da inquietação:
- Se colocam, é pro nosso bem.
Ele se afastou com um olhar de desafio:
- Pode até ser. Mas eu quero saber o que acontece. Já estou há três dias comendo apenas frutas, e me sinto ótimo!
- Eu realmente acho que você não deveria fazer isso... - olhou para o relógio e viu que eram quase cinco e trinta. O garoto entendeu e, antes que ela se fosse, perguntou:
- O que você vai fazer amanhã às cinco da manhã?
"Pergunta estranha".
- Ahn, eu vou estar dormindo.
- Que tal vir pra cá? Quero te mostrar uma coisa.
Não havia nenhuma regra contra estudantes fora de casa às cinco da manhã. E sua mãe nem perceberia, pois só acordava depois que Lia já havia saído para o Instituto. Ela hesitou, mas sentiu algo dentro dela, algo novo, ameaçador e poderoso, dizendo "Por que não?".
Então ela aceitou.