Além do Cinza - Capítulo VI

“Acho que não passei acho que não passei acho que não passei”, era o que Lia pensava enquanto tentava se distrair diante de centenas de livros. Pegou alguns e os folheou, sem ler uma única palavra, pois sua mente estava ocupada demais com aquele assunto. “Como isso pode ter acontecido?! Eu sempre fui boa nisso! Sempre!”. Se bem que ela não havia estudado tanto nas últimas semanas... Especialmente porque passou muitas horas no bosque e pensando no moço do cabelo preto. Seu inconsciente já estava acusando-o como o culpado por tudo.
Estava vagando entre as prateleiras, quando viu alguém de costas sentado no chão, curvado provavelmente sobre um livro. Outra pessoa na biblioteca... Só podia ser ele.
- Moço?
Ele se virou sorridente:
- Lia! Que legal, nunca te encontrei aqui! Na verdade, nunca encontrei ninguém aqui... Como foi no teste? Era hoje, certo?
- Fui mal. Acho que não fiz 900 pontos.
- Ah, que pena... Mas não se preocupa tanto com isso!
“Como assim?!”
- Não me preocupar? Aquele teste decidiu a minha vida! E eu fui mal! Você tá entendendo? – não percebeu que tinha elevado bastante o tom da voz.
- Estou. Mas não vale a pena se incomodar com esse tipo de coisa.
O que mais a irritou foi a tranquilidade do garoto. Como ele podia estar tão calmo e querer que ela também se acalmasse?! Tinha se preparado a vida inteira para aquele teste, ir bem era uma obrigação! Ela deixou escapar, em uma voz mais alta ainda:
- O que você pode saber?! Você é um rebaixado!
Ele olhou como que não acreditando no que acabara de ouvir.
- Se sente melhor agora? Isso vai fazer você passar?
Sem saber o que responder e não querendo perder a briga, Lia simplesmente se virou e saiu bufando. Queria ir pro bosque. E daí se ele aparecesse lá também? Aliás, se aparecesse, ela o expulsaria! Queria o bosque só para ela. Chegou lá batendo o pé. “Que vontade de fazer alguma coisa!”. Quando levantou o rosto para dar um berro para o céu, viu os galhos bem lá no alto.
Não pensou muito antes de começar a escalar a árvore mais próxima. Arranhou o sapato e os joelhos, mas nem reparou. Conseguiu sentar em um dos galhos, cheia de orgulho e admirando a vista. Mas logo voltou a raciocinar e se deu conta de uma pequena falha nas suas ações impulsivas... “Como se desce daqui?!”. Subira movida pela força da raiva. O medo, porém, não era forte o suficiente para trazê-la ao chão. Era alto demais, pular estava fora de questão. Mas não dava para ser pelo tronco, já que não havia onde apoiar os pés enquanto as mãos se moviam para baixo. Ainda mais porque, a essa altura, as mãos de Lia estavam completamente suadas.
Talvez não fosse tão ruim assim se o moço do cabelo preto aparecesse no bosque.
E se ameaças mentais funcionassem e ele sentiu que não deveria ir para lá, ou seria expulso?!
Quase duas horas depois, Lia ainda estava presa na árvore. Com certeza, ameaças mentais funcionavam. Olhava no relógio a cada trinta segundos. Tinha que estar em casa em quarenta e sete minutos. Sua mente repetia sem parar a regra 89: estudantes não podem estar fora de casa depois das seis. Não podem estar fora depois das seis. Regra 89. Fora de casa depois das seis. 89. Seis. 89. Fora depois das 89. Regra seis. Oitenta e seis. Depois das nove.
Felizmente, antes que ela perdesse completamente a razão, ouviu alguém se aproximar. E tinha certeza que dessa vez não era alucinação. Inclinou-se para frente, quase perdendo o equilíbrio, e viu o moço do cabelo preto passando bem por baixo do seu galho. Não podia perder essa oportunidade! “E daí se ele estiver bravo comigo? Eu preciso de ajuda!”. Gritou:
- Mo... moço do cabelo preto!
Ele estranhou a voz sem corpo e deu alguns passos para trás procurando da onde vinha. Olhou para cima e a viu. Nem precisou perguntar para entender a situação, o rosto amedrontado de Lia já dizia tudo. Ele também não podia perder essa oportunidade:
- Ora ora, se não é a Lia em cima de uma árvore. Como foi que chegou até aí?
- Para de se fazer de bobo. Eu não consigo descer...
- E o que eu tenho a ver com isso?
- Eu quero que você me ajude!
Ele levou a mão ao cabelo e teve que morder o lábio para não rir.
- Não consegue descer, hein?
Então o garoto se aproximou do tronco e começou a subi-lo habilmente. Mas ao invés de ajudá-la a descer, simplesmente se sentou no mesmo galho em que ela estava e exclamou:
- Que dia bonito! Poderia ficar aqui até amanhã!
Teria o empurrado para fora da árvore se não fosse proibido tocar em outras pessoas.
- Para com isso! Isso não é brincadeira! Você só quer me irritar, não é?! Que infantil!
- É assim que você fala com a sua única esperança de algum dia descer desta árvore? Se eu te incomodo, posso ir embora agora mesmo.
Ela retirou o que disse na mesma hora e tentou se controlar:
- Sério, eu preciso estar em casa daqui a quarenta e três minutos. Por favor, me leva pra baixo.
- Isso significa que nós temos treze minutos até você ter que voltar – se espreguiçou lentamente - Dá pra fazer tanta coisa em treze minutos...
- Tá, eu entendi, o que você quer que eu faça?
- Quero que a gente volte a ficar de bem.
“De bem”? Quantos anos ele tinha? Cinco?
- Ai, tá bom, tá bom, estamos de bem – se sentiu ridícula falando dessa maneira.
- Assim não! Parece até que eu estou te forçando a dizer isso!
“Mas você está me forçando a dizer isso!”, ela pensou. Achou melhor não falar mais nada. Ele também não falou nada. O garoto se espreguiçou de novo e fechou os olhos. Ela olhou para a figura tranquila ao seu lado, mas dessa vez, ao invés de irritar-se, sentiu um pouco da tranquilidade dele passando para ela. Não podia ficar sem falar com alguém que a fazia tão bem:
- Ei, não dorme, senão você vai cair.
Ele abriu os olhos e um sorriso contido:
- Tá preocupada comigo, é?
- Bem, estou – por que ele tinha que falar desse jeito que a deixava com tanta vergonha?
- Então a gente tá de bem?
- Sim... Estamos de bem... - o garoto não comentou o rosto corado de Lia, com medo de que ela ficasse de mal novamente. Ela analisou a imagem do moço do cabelo preto, e viu suas mãos ossudas, dando-se conta de algo misterioso - Tem uma coisa que eu não entendo... Como você tá há tanto tempo sem relógio?
- Ah, ninguém nem repara. Ou se reparam, não falam nada. Então qual o problema? Aliás, posso ver o seu relógio? - ela estranhou o pedido, mas levantou o pulso mesmo assim – Você percebeu que ele tá dois minutos adiantado?
- Quê? Impossível! Como você sabe?
- Tá fazendo um barulho um pouco diferente – Lia aproximou o relógio do ouvido, mas não percebeu nada diferente, apenas a mesma aconchegante constância de sempre. Talvez não reparou porque estava sempre com ele? - Isso já aconteceu com o meu, empresta aqui, eu sei arrumar.
Ela tirou o relógio do pulso com todo o cuidado, sentindo que uma parte do seu corpo que estava sendo retirada. Entregou-o ao moço do cabelo preto, que o recebeu com o mesmo zelo. Mas antes que Lia compreendesse a sua real intenção, ele o atirou para longe com toda a força, e tudo o que se ouviu foi um eco do relógio batendo contra o chão.
Poucas palavras seriam capazes de descrever a reação exasperada de Lia. Ela esticou os braços inconscientemente e sentiu seu corpo inclinar para frente mais do que deveria. Esteve livre no ar por uma fração de segundos, mas antes que pudesse esconder a cabeça por reflexo, sentiu seu braço sendo puxado para cima pelo garoto. Ele também quase perdeu o equilíbrio, mas conseguiu apoiar a outra mão no tronco da árvore.
- Por que você fez isso?! – ela gritou, com os olhos para cima e fixos na figura que a sustentava – E você não pode me tocar! Regra 34!
- Lia, agora realmente não é hora disso... – não ia aguentar por mais muito tempo – E se eu não te tocasse, você teria caído e quebrado a perna. Agora não tá tão alto. Você não vai se machucar. Eu vou contar até três e te soltar, tudo bem?
Ela olhou para baixo:
- Mentira! Aqui é alto sim! Não me solta! Não me solta!
- Mas não dá pra fazer nada além disso!
- Por favor, não me solta!
A súplica foi tão intensa que o moço do cabelo preto conseguiu criar forças para tirar a mão que estava no tronco, segurar-se no galho e descer o corpo para o ar.
- E agora? É o mais perto do chão possível.
Ela olhou para baixo novamente:
- Tá... daqui eu consigo... Pode soltar...
Ele contou até três e abriu os dedos que a seguravam. Ela chegou ao chão sem muito impacto, e atrás veio o moço do cabelo preto, que aterrissou com uma cambalhota sobre as folhas secas. Ele se levantou e encontrou o rosto perplexo de Lia:
- Por que você fez aquilo?
Cabelo sendo enrolado entre dedos.
- Porque você não se jogaria pra frente sem um bom motivo. Eu até pensei em pular em cima do galho até ele quebrar, mas aquele era grosso demais.
- Mas e agora? Cadê meu relógio?!
- Eu duvido que ele ainda esteja funcionando, de qualquer jeito.
Apesar de tudo, não conseguiu ficar brava com o garoto. Afinal, foi ela quem pediu para ser ajudada, e foi isso que ele fez...
- Tá, mas então vem comigo amanhã até a Administração pra pedir outro relógio.
- Ih, desculpa, não vai dar não, amanhã eu tenho que trabalhar o dia inteiro... Não tá na hora de você voltar? Já devem ter passado treze minutos.
Ela olhou automaticamente para o pulso, mas viu apenas pele horrivelmente leve. Que estranho. Conformou-se com o fato de que teria que ir sozinha e se despediu do moço do cabelo preto.



Lia aproveitou que não tinha mais aula e foi à Administração bem cedo. Pelo menos não era muito longe de casa. Chegou lá e entrou em uma das salinhas com um funcionário atrás de um computador:
- Bom dia. Como posso ajudar? – o homem falava como uma máquina, e seus movimentos também eram bastante robóticos. “Aposto que eles têm aulas pra ficar assim”, a garota pensou.
- Bom dia... Eu gostaria de solicitar um novo relógio...
- Nome?
- Lia.
Ele digitou as três letras no computador e logo encontrou todas as informações relevantes em relação a ela.
- Casa 746, correto?
- Sim.
- Motivo da solicitação?
- O antigo caiu no chão e quebrou...
O homem terminou de digitar, tirou uma fita métrica de uma gaveta e mediu o pulso esquerdo de Lia. Treze centímetros. Ele guardou a fita e terminou de digitar com uma precisão admirável.
- Um minuto, por favor - disse, ao se retirar por uma porta atrás da mesa dele.
Lia esperou olhando ao redor. Foi então que viu perto do computador uma pasta marrom onde estava escrito “Centro de Reabilitação Social”. Será que ela podia mexer naquilo? Provavelmente não, mas estava tão impulsiva ultimamente que seria apenas lógico ela continuar a agir daquela forma, certo? Era apenas constante. E a constância é boa.
Então ela abriu a pasta e encontrou dezenas de fichas de pessoas que foram levadas ou seriam levadas para o Centro. Cada folha tinha o nome, a situação e a ofensa cometida. Violeta, em tratamento, desrespeito aos superiores, Dan, em tratamento, má influência à sociedade, Marco, procurado, invasão de privacidade... Todos eram procurados ou estavam em tratamento. Não havia nenhum "curado". Então o que o moço do cabelo preto falou devia mesmo ser verdade... O Centro era uma sentença de morte. Lia continuou a virar as páginas, completamente absorta, e se espantou ao ver a foto de duas crianças, em tratamento por desobediência, de uma garota que parecia ter a idade dela, por insolência, e uma senhora de meia-idade, por loucura.
Mas nada, em toda a sua vida, surpreendeu-a mais que a página seguinte. Ela perdeu a respiração e sentiu o coração gelar. Seu corpo parou enquanto o mundo todo continuou a se mexer. Não podia ser verdade. Não era possível que fosse verdade. Olhou mais uma vez sem acreditar, mas aquela imagem não sumia.
Impresso na folha, estava o rosto do moço do cabelo preto, seguido das palavras "VINICIUS", "PROCURADO", "HOMICÍDIO".

5 comentários:

Anônimo | segunda-feira, 29 novembro, 2010

foi engraçada a imagem do moço do cabelo preto jogando o relógio pro nada

agora me deu vontade de fazer a mesma coisa...

Anônimo | segunda-feira, 29 novembro, 2010

é tão legal ser VIP
já tenho meu nome na lista de comentário!

Becko | segunda-feira, 29 novembro, 2010

noss! muito bom! =] mmuuito muuito louco jeeh!

Elizabeth | sábado, 04 dezembro, 2010

=D
Que começe o segundo ato!

Érica | quarta-feira, 15 dezembro, 2010

wa wa wa (!)

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