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Dois anos e dois meses depois

- Oi.
- Oi.
- Tudo bem?
- Sim.
- Sim?!
- Sim.
- Mas como?
- Ué, estou bem.
- Mas não era para você estar bem!
- Por quê?
- Oras, aquilo que te aconteceu! Era para você estar triste agora!
- Oh, triste estou, mas estou bem.
- Como assim?!
- Ué... Não são excludentes.
- É claro que são!
- Ahm, acho que não, senão não estaria triste e bem ao mesmo tempo.
- Pare de mentir para si mesmo e fique triste! Só triste.
- Mas é possível sentir uma coisa só?
- Vai chorar naquele canto, vai.
- Mas eu não quero.
- É claro que quer!
- Como você pode dizer o que eu quero?
- Cadê a desesperança, a indignação, as exclamações de que nada nunca ficará bem?!
- Mas as coisas vão ficar bem.
- Qual o seu problema?
- Hã?
- Você é insensível, é isso? Você é um monstro sem sentimentos?
- Não sei. Sou?
- Sim, deve ser, só isso explica.
- Por que você insiste nisso?
- Porque era para você estar triste.
- Mas eu estou triste.
- Tá, triste e não bem.
- Ah, aí não.
- Pare com essa palhaçada e diga que você não está bem.
- Mas eu estou bem! E não há como você mudar isso.
- Monstro sem sentimentos. É isso mesmo.
- ...Então tá.
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Convite a quem aceitá-lo

Venha. Apague as luzes e acenda uma vela. Sente-se aqui ao meu lado. Deixe essa lanterna na gaveta, você não precisará dela. Se não fosse por falhas nos circuitos elétricos, provavelmente nunca descobriríamos como é encantador quando acabam as luzes e só se acham velas pela casa. 
As pessoas acham que conseguem ver graças à eletricidade. Mas tenha certeza de que a eletricidade não é capaz de te fazer ver tudo. A eletricidade é apenas uma pequena parte. Há muito, muito mais.
Está vendo? Preste atenção. Veja, como esta pequena chama concede uma aparência completamente nova a este cômodo com o qual você está tão acostumado. Como o meu rosto é iluminado por este tom avermelhado, e como partes deles são também deixadas às sombras. Como dentro de você cresceu algo que só se mostra em um lugar como este. Consegue ver? Consegue?
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Este desprendimento insensível

Nunca achei que eu fosse capaz de me apaixonar por alguém além de você.
É… Fazer o que né.
Mas não posso negar o gosto azedo e bom que tem esta inversão de papéis.
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Aquela dependência doentia

Olá.
Você tem me machucado, sabia?
Isso faz com que você se sinta melhor?
Se sim, então por favor, continue.
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Volta, volta, volta

Olá… Surpresa em me ver? Deve estar mesmo. Aposto que achava que tinha conseguido se livrar de mim. Como se me trancar em uma sala do esquecimento fosse suficiente. Mas foi só esperar o momento certo. Eu sou uma memória forte. Você já percebeu quanta emoção eu trago comigo. Por isso foi fácil entortar aquelas grades e invadir o resto do seu corpo no momento oportuno. Estou aqui para te trazer de volta às horas nesta cama. Ou naquele sofá, ou no quarto do outro lado.
Por que está se encolhendo desse jeito? Por que está escondendo o rosto com as mãos? Estaria tentando me manter aqui dentro? Ah, mas você não sabe o quanto já estou me mostrando pelo seu corpo. Finalmente, consegui sair.

Sim, eu lembro. Lembro do quão assustada fiquei, pensando "quem é essa pessoa na minha frente?!". De como sentia medo, vergonha, raiva e culpa o tempo todo. Lembro do quão humilhada me senti, várias, várias vezes. Me dá ânsia. Lembro bem de me olhar no espelho e pensar "quem é essa pessoa tão longe do que eu sempre quis ser? Me diz quem é! E me diz por que eu não consigo acabar com isso!" Lembro muito bem de pensar em maneiras de arruinar ainda mais minha vida, quando o ódio e o nojo que sentia por mim mesma viraram desejos de autodestruição. Lembro de abrir a boca e não sair som algum, tentar afastar e não achar forças, querer desesperadamente falar com alguém mas não ter ninguém com quem falar. Lembro de quanta coragem consegui reunir para pedir para que aquilo parasse. E de como no dia seguinte minhas palavras pareceram nunca ter existido.
Eu me lembro muito bem. Memória, diga a verdade. Durante o tempo em que te tranquei naquela sala escura, você arranjou um jeito de se cravar no meu corpo inteiro, não foi? Talvez agora seja mais apropriado te chamar de Trauma, não apenas de Memória.
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- Olá, Chapéuzinho.
- Bom dia, senhor pássaro. O que está fazendo por aqui?
- Estava te procurando. E você? O que faz nesta parte da floresta?
- Vou visitar minha avó.
- Sua avó? Mas a casa dela é pro outro lado.
- Bem, eu me desviei do caminho porque parecia mais divertido. O senhor lobo disse que as flores daqui são mais bonitas.
- Chapézinho, você sabe que não deveria ter feito isso. Quantas vezes sua mãe lhe disse para não se afastar do caminho?
- Mas o lobo disse que
- E você dá ouvidos ao lobo? E olha que ele nem estava fantasiado de ovelha!
- Eu só cansei de fazer sempre o mesmo caminho, tá bom? Queria variar um pouco. Já sou grande, sei me virar sozinha! Não preciso seguir as ordens da minha mãe.
- Então você está consciente de que está fazendo o que não devia?
- Sim. E não ligo, se você quer mesmo saber.
- Quando você ficou assim, Chapéuzinho? Desde quando está perdida?
- Eu sempre fui assim, só sempre escondi muito bem. E eu não estou perdida. Só saí do caminho. Há algumas horas.
- E está gostando deste lado da floresta?
- Com certeza, é muito mais divertido.
- E você já percebeu que todas as flores daqui têm espinhos?
- ...Por que você não cuida da sua própria vida? Você nem sabe se vai conseguir comida amanhã, vai se preocupar com isso e me deixa em paz!
- Eu não tenho que me preocupar com esse tipo de coisa. Chapéuzinho, logo logo ficará escuro. Você não quer passar a noite neste lugar. Volte para casa, peça desculpas à sua mãe e não volte mais aqui.
- Como se ela fosse me perdoar por ter lhe desobedecido.
- É claro que vai. Ela vai ficar muito feliz. Agora você sabe voltar daqui, não sabe?
- Sei... Eu vou voltar... Não vai ser fácil... Obrigada por vir me procurar...
- De nada, Chapéuzinho. Tenha um bom retorno!
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Estava tentando escrever

- Faz tempo que eu não faço um diálogo.
- Por isso eu to aqui?
- Também. E eu preciso de alguém pra me fazer perguntas, pro raciocínio andar, entende? Eu acho estranho fazer perguntas pra mim mesma.
- Primeiro que é exatamente isso que você tá fazendo. Segundo, é estranho conversar consigo mesma mas tudo bem criar uma voz pra falar com você?
- É. E eu não te criei, você é só alguma outra parte minha. Com uma voz ligeiramente diferente na minha cabeça.
- Isso tá parecendo aquele texto do espelho.
- Claro que não, o espelho era a minha imagem, você não passa de uma voz. E você sou eu, o espelho não era eu.
- Ai ai, você quem sabe...
- Aliás, que parte minha você é?
- Como assim?
- Eu sou tão contraditória, imaginei que fossem as várias eus e potenciais eus lutando pra aparecer. Então, que parte você é?
- Que parte VOCÊ é?
- Eu... eu não sei.
- Eu também não.
- ...não era pro texto ficar assim...
- Parece que você não consegue me controlar. Lero lero.
- Eu nem comecei a falar o que vim falar...
- Então fala, ué.
- Não. Não dá mais. Não sei como fazer essa conversa ir aonde eu quero que vá com você desse jeito.
- Culpa do seu autocontrole.
- É... Deixa pra próxima.
3 com
- O que te angustia, minha pequena ninfa?
- Argh, o mundo, as pessoas, tudo! São todos tão estúpidos e ocupados com suas vidas medíocres e pensamentos idênticos!
- Você fica encantadora tomada pela raiva. Parece uma artista fraca e incompreendida.
- Não encosta em mim, eu não to brincando.
- Quando você reclama de outra pessoa, geralmente é uma insatisfação consigo mesma, sabia?
- Então se eu acho alguém imaturo, é porque eu que me acho imatura?
- Isso. Interessante, não?
- Que besteira... E o que você diria de alguém que não acredita em amor?
- Incapacidade da própria pessoa de amar... Encaro seu silêncio como identificação.
- Chega também, eu não preciso ser compreendida. Eu não preciso que me ouçam.
- É melhor mesmo. Em terra de cego, quem tem olho é morto por ameaçar a tranquilidade. E eu não aguentaria viver sem o teu belo rostinho.
- Eu to tão cansada de tudo isso! Por que acontece tanta coisa ruim comigo?
- Oras, imagine os contos de fada sem as partes ruins. "Era uma vez uma linda princesa que casou com um ilustre príncipe e viveram felizes para sempre."
- Mas a minha vida não é o entretenimento de alguém.
- Discordo, eu a acho especialmente divertida. Não me lance esse olhar. E de que importam as pedras no meio do caminho, só o fato de haver um caminho não é o suficiente?
- Eu sei, nós temos sorte de viver, blá blá blá blá blá.
- Temos mesmo. Tanta coisa poderia ter acontecido para nós acabarmos não nascendo...
- Como você consegue estar sempre tão calma?
- Apenas... não há nada que me deixe brava ou triste.
- Legal.
- Assim como não há nada que me deixe muito feliz. É o preço que se paga por essa paz imutável e sempre satisfeita.
- Isso é horrível.
- Oh não, não pense que eu me incomodo. É extremamente agradável, para dizer a verdade. Podem me olhar com admiração ou desprezo que não sou afetada. Posso pensar as coisas mais obscuras e não me impressionar. Imaginar e realizar todos os meus desejos e não me envergonhar. Posso até mesmo seduzir uma garota tola e curiosa como você. Sem culpa nenhuma. Vê como é agradável?
- Me solta, eu não quero mais saber dos seus carinhos, isso é cruel! Você esqueceria que eu existo no momento em que encontrasse alguém melhor.
- Provavelmente. Mas nenhuma de nós tem alguma escolha agora, não é?
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Banheiro

- Olá, você! E aí? Vai piscar com os dois olhos pra mim hoje?
- Sério, você tem que tirar esse livro da sua cabeça, eu não aguento mais essa pergunta.
- Você falou!
- Falei. Assustada?
- Um pouco. Eu tava esperando que você só piscasse, não que falasse. Mas se você consegue falar, por que ainda não piscou com os dois olhos pra mim?! Pisca aí, vai!
- Não. Não vou piscar. Você quer que eu pisque então não vou piscar.
- Infantil.
- Sou como te veem.
- Então me deixa passar pro seu lado?
- Por que você iria querer vir pra cá?
- Ué, porque é o mundo inteiro ao contrário! Deve ser divertido! Ou será que o outro lado é macabro que nem naquele jogo?
- Não é isso, o que eu quis dizer é por que você iria querer vir pra cá se o seu mundo tem muito mais coisa que já pertence a este lado, ao invés das coisas de verdade.
- Não entendi.
- Você não convive com as pessoas, você vive com a imagem delas. Pensa comigo, quantas pessoas você pode de fato dizer que as enxerga como pessoas, e não só como corpos fazendo e falando qualquer coisa? Quantas vezes por dia você olha pra alguém e tem consciência de que esse alguém é uma pessoa?
- Você dá tanta ênfase a "pessoa" que acho que eu não absorvi toda a grandiosidade que você quer passar...
- Alguém com toda uma história, traumas, preferências, sonhos, vontades, motivos! E você nem liga!
- Agora vai ficar me acusando, é? Preferia quando você não falava.
- Você sempre se arrepende do que deseja. Lembra do seu aniversário? Ou daquela história. Qual era mesmo o nome da princesa?
- Para de me expor tanto! Pelo menos quem lê não sabe se quem tá falando sou eu ou só uma personagem, ainda bem.
- É, Jessica, você é genial.
- Fica quieta! Qual o teu problema?!
- O meu problema? Você que fica pedindo pra eu piscar, se enxerga.
- Isso foi uma ironia?
- Ah é, nem percebi. Bem, que seja. Você não muda nem que eu mesma fale na sua cara. Com licença, eu tenho um blog para atualizar agora.
- Como assim você? O blog é meu, você só me imita.
- É, mas agora você tá aí dentro, né?
- Quê?
- Até mais!
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dez mil quatrocentos e dezenove

- Por que você tá chorando?
- ...Quem é você?
- Eu sou uma fada. Eu vivo neste parque. Por que você tá chorando?
- Eu não acredito em fadas.
- Shhh! Sabia que uma fada morre toda vez que alguém fala isso?
- Sabia.
- Então não fala! ...Não vai me contar porque tá chorando?
- Não é nada. É besteira.
- Mas se você tá chorando tanto por besteira...
- É porque eu sou besta. Eu sei.
- Você veio pra um parque só pra chorar?
- Vim. Não to incomodando ninguém, to?
- Não, você chora em silêncio. Como consegue?
- Treino.
- Aqui, toma. Uma flor.
- Você acabou de matar uma flor.
- E daí? Você matou uma fada.
- É diferente. Fadas são más.
- Eu pareço má pra você?
- Você matou uma flor.
- E você matou uma fada!
- ...Tá. Então eu sou má.
- ...É. É mesmo.
- O céu tá muito lindo hoje.
- Mudando de assunto?
- Não, sério. Olha. Tá azul e as nuvens parecem desenhadas com giz de cera. A luz passando entre as folhas...
- Tá que nem sempre.
- Então o sempre é muito bonito. Que sorte.
- O que o céu tem de mais?
- Se a gente não se acostumar a ele...
- Ué, parou de chorar?
- Não consigo chorar olhando pra esse céu.
- É tão fácil assim esquecer a tristeza?
- ...Você gosta de voar?
- Quê?
- Deve ser uma sensação incrível. Voar.
- É normal.
- ...Que triste.
- Tá melhor?
- Não. Nem um pouco.
- Mas você tá sorrindo.
- Não é de felicidade.
- Nunca vou entender os humanos...
- Nem eu.
- Ainda me acha má?
- Sei lá. Mas de qualquer jeito... eu não acredito em fadas. ...Sumiu? Eu devo mesmo estar ficando louca.
3 com
- Oi.
- Oi.
- Tudo bem?
- Não.
- Não?!
- Não.
- Por quê?
- Não sei. Não tenho certeza.
- Qual o seu problema?
- É mais complexo que tristeza.
- Hm?
- Não sei.
- Tudo vai ficar bem.
- Hã?
- Você vai melhorar!
- Por que eu tenho que melhorar?
- Ora, e vai ficar aí, triste?
- Já disse que não é tristeza.
- Que seja. É desagradável.
- Não é não.
- É desagradável para mim.
- Ah.
- Coloque um sorriso nesse rosto!
- Mas eu não quero.
- É claro que quer.
- Por quê?
- Porque ninguém gosta de gente triste.
- Eu não estou triste.
- Pare de mentir para si mesmo e sorria!
- Por que você insiste nisso?
- Porque você não está bem.
- E o que você tem a ver com isso?
- Eu tenho que te alegrar.
- Por quê?
- Porque é isso que as pessoas fazem.
- Mas eu não pedi por isso.
- Mas você disse que não estava bem.
- É claro, você perguntou.
- É, mas era pra você ter falado que sim.
- Mas eu não estou bem.
- Mas, mas não é assim que funciona!
- Então é pra eu falar que estou bem?
- Sim!
- Eu estou bem.
- Ótimo. Eu também.
- Ok.
- Tenha um bom dia.
- Você também.