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A história que inventamos (texto de 2015 que eu não publiquei, li hoje e estou publicando agora)

Esta é uma história real. 

É sério.
Eu juro.

Não, sério, é real. 

Qual é, eu nunca falei que uma história é real, se estou falando que esta daqui é real é porque é real mesmo.

Isso, aceite o meu argumento.

Tudo começou quando
Não, espera, tudo começou antes disso, eu estaria invariavelmente mentindo ao olhar para um ponto e dizer que tudo, ou mesmo algo, começou ali. Não sei nem se pode-se dizer que as coisas começaram.
As coisas começam?
As coisas não começam.
É, definitivamente, as coisas não começam.

Então mudemos o início da narrativa:

Lá estava eu.
Em abril. Final de abril.
Eu tinha acabado de comprar "Leocádio, o Leão que Mandava Bala" na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Eram umas quatro da tarde, e eu não costumo ter fome nesse horário, mas naquele dia eu tive fome, e fome de McDonalds. Então atravessei a Avenida Paulista e fui comer no Mc que fica lá perto, do lado do Shopping Center 3. Estava lá na fila, pensando se o moço me deixaria pedir um triplo pão-carne-queijo com dois hambúrgueres ao invés de três, porque afinal, que posso fazer se tiraram o duplo do cardápio e o triplo é grande demais pra mim?, quando de repente ouvi uma voz bem atrás de mim falando, "O-oi, Letícia, não é?".

Okay, pausa. Eu não gosto de encontrar com pessoas dessa forma. Completamente despreparada. Preciso de tempo para pegar a máscara e a energia que a socialização exige de mim. Deu aquela tontura de arrependimento por ter ido ao Mc e não a outro lugar onde ninguém me encontraria, e me virei pra ver quem era. 
Pausa de novo. É assim: na época do colegial, em alguns bimestres, eu sentava do lado da minha amiga. Atrás dela sentava o amigo dela. E do lado do amigo dela e atrás de mim, sentava o amigo dele.

Certo? Pois a pessoa atrás de mim na fila era o amigo do amigo da minha amiga. Que eu não via há uns dois anos. Por sorte ele logo apontou para si mesmo e disse, "Cícero. Você se lembra?"
"Ahn, você era amigo do Maurício né?"
"É, e você era amiga da Victoria né?"
"Aham."
Nah, não fiquei feliz de encontrar com ele. Raramente fico feliz de encontrar alguém conhecido. Ficaria feliz de encontrar minha amiga, menos feliz de encontrar o amigo da minha amiga, e muito menos feliz de encontrar o amigo do amigo da minha amiga. E além disso, fiquei meio constrangida por ter que pedir o meu triplo pão-carne-queijo com dois hambúrgueres com ele logo atrás de mim, as pessoas geralmente não têm o MENOR pudor em demonstrar sua desaprovação em relação a frescuras alimentícias. Como se isso fosse mudar meu paladar. Por sorte o Cícero não falou nada. Mas senti como se ele estivesse sorrindo ou rindo silenciosamente na minha nuca. Que fosse escárnio!, quero meu triplo pão-carne-queijo com dois hambúrgueres!
Meu plano era pegar a comida e sentar rápido em algum lugar, antes da comida dele chegar. Aí talvez ele não se sentaria na mesma mesa que eu. Mas, céus, ser fresca pra comer custa tempo, e meu hambúrguer saiu ao mesmo tempo que o dele, e nós acabamos sentados na mesma mesa no final. Sabe como é, não dava pra falar "Vou me sentar ali e por favor não me siga porque eu não gosto de gente". 
Enfim... Já que estávamos lá e o silêncio provavelmente seria desconfortável, como sempre é com pessoas não tão íntimas assim, eu liguei o meu modo "socialmente agradável" e tentei conversar um pouco com ele sobre nosso tempo no colégio, antigos colegas e professores, enquanto comíamos as batatas fritas... Tudo normal e levemente desagradável... Até que chegou a hora de comermos os hambúrgueres.

Esse foi o momento em que tudo mudou. 

"Quer ver uma coisa legal?", ele disse, pegando o guardanapo e abrindo a caixa do hambúrguer. Tá, é difícil de explicar essa parte, mas vou tentar. Ele abriu completamente o guardanapo, e o colocou cobrindo metade do hambúrguer, ainda dentro da caixa. Aí ele fechou a caixa, virou-a de ponta cabeça e quando ele a abriu... O hambúrguer estava envolto no guardanapo!! Aí ele pegou o hambúrguer pelo guardanapo e deu uma mordida nele.

Então eu beijei minhas mãos, arranquei meu coração do peito e o entreguei a ele, dizendo "Você é o homem da minha vida."

Simbolicamente, é claro. Senão a história seria um absurdo. 

Depois disso, ele disse que queria conhecer uma Livraria Cultura perto de algum metrô, e eu disse que tinha uma logo do outro lado da avenida. Obviamente me ofereci para acompanhá-lo. Qualquer coisa para ficar mais tempo ao lado do homem da minha vida. 

Vinte minutos depois estávamos andando pela livraria, quando vi um livro com um gato na capa. Era um gato muito bonitinho... Fiquei olhando o gato, e acabei pensando alto: 
"Se eu tivesse um gato, eu o chamaria de Gato..." 

Não sei ao certo o que aconteceu, porque eu estava olhando para o gato até então, mas naquele dia, saímos da livraria sendo namorado e namorada. 

E foi exatamente assim. 

É sério.
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A Transgressão da Árvore

Certa vez, voltando para casa, cruzei com uma árvore, bem, curiosa, na frente de uma padaria de luxo. Como explicar, a árvore era um pouco mais alta que eu e ao longo do seu tronco saíam inúmeras raízes, ou o que um leigo da botânica como eu julgaria ser raízes. Só que essas raízes se assemelhavam a, veja bem... Falos. De adulto pela espessura e de criança pelo comprimento. Ri da natureza como só os humanos riem da natureza e segui meu caminho, deixando a árvore onde estava.

Poucas semanas depois, fiz o mesmo trajeto e encontrei a árvore madura da puberdade, gloriando-se para quem quisesse ver e cometendo o crime do exibicionismo para quem não quisesse. Achei graça novamente e segui meu caminho, sabendo que perto de casa a árvore estava lá: feia, fálica e feliz.

Minha surpresa, no entanto, veio quando, poucos dias depois, encontrei a árvore sem nenhum de seus falos. Onde antes estavam suas explícitas marcas de singularidade no mundo das árvores, viam-se agora buracos, dezenas de buracos no tronco violentado. Minha conclusão foi uma só: os clientes da padaria faziam parte do grupo de pessoas que não queria ver a grandiosidade da árvore. Como pode tamanha indecência à luz do dia?, como explicar às crianças?, como manter puras as virgens? E com a razão que os clientes sempre têm, lá foi o jardineiro, como quem abate um irmão.

Pobre da árvore, castrada 47 vezes pela classe alta de São Paulo, sem nem saber o que fizera de errado.
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Leãozinho

A menininha de três anos e meio escalou para o colo do pai, que estava sentado na frente da tela brilhante da sala que faz tec tec tec com os dedos. 

- Papai, papai!

- O que foi, bonitinha? - ele olhou para ela mesmo estando ocupado.

- Traz o Leãozinho pra brincar? 

- Ué, de novo? Mas você já brincou com ele hoje de manhã, bonitinha. 

Ela se ajeitou no colo do pai e pediu bem pedido, agitando os bracinhos no ar:  

- Quero o Leãozinho! Eu gosto do Leãozinho! Ele faz rawr! 

Pareceu funcionar, porque o pai riu junto com ela, colocou-a no chão e disse que já ia trazê-lo. Logo depois voltou, com o Leãozinho em cima de uma das suas mãos: um bichinho simpático de pelo laranja, juba fofa e uma cauda que balançava pra lá e pra cá.

O Leãozinho abriu a bocona e fez:

- Rawr!

A menininha deu pulinhos de alegria e se jogou no sofá, e o Leãozinho e o pai vieram atrás para brincar. 

- Olá, garotinha! Que bom te ver de novo!

- Oi, Leãozinho!

E abraçou o seu amigo de cabelo engraçado. 

- Fala oi pro papai!

- Oh, é mesmo, que cabeça a minha! Olá, pai da garotinha! - cumprimentou-o respeitosamente com um aceno de cabeça.

- Olá, Leãozinho - o pai respondeu - E então, do que vocês vão brincar?

A menininha esperou a resposta do Leãozinho, que sempre tinha uma boa ideia.

- Raawr, tem tantas coisas para brincar! Mas estou pensando em uma brincadeira que a garotinha gosta muito... Estátua! Então por que você - e se virou para o papai - não canta para nós, e quando você parar, a gente tem que virar estátua? Que tal, garotinha, gosta dessa brincadeira?

- Siiim! - a menininha berrou de volta. 

E o pai começou a cantar uma música que a menininha não entendia nada, ("É inglês, bonitinha, um dia você entende") e ela e o Leãozinho começaram a dançar, virando estátuas sempre que o pai parava a música no meio de uma palavra. 

Brincar com o Leãozinho era sempre tão divertido. Ele era a terceira pessoa (ou animal?) que a menininha mais gostava, depois da mãe e do pai. Uma vez a menininha perguntou ao Leãozinho se ele era o seu bichinho de estimação, e ele respondeu indignado que não, porque ele era o rei da floresta, e nenhum rei da floresta pode ser um bichinho de estimação. E que ele preferia ser o seu amigo. Havia outros animais em cima da cama da menininha que os pais diziam ser também seus amigos, mas ela sabia muito bem a diferença entre eles e o Leãozinho. Todos eram macios e peludos e gostosos de abraçar, mas só o Leãozinho falava mexendo a boca, só o Leãozinho se movimentava, só o Leãozinho tinha o corpo quentinho, só o Leãozinho era como ela. Por isso só ele era o seu amigo. 

Depois que o pai já tinha cantado umas cinco músicas diferentes e o lado de fora começava a ficar escuro (o que significava que a mãe chegaria dali mais um tempo), o Leãozinho soltou um rugido cansado e disse que queria dormir.

- Mas já? - protestou a menininha. 

- Já! Um leão precisa dormir muito! E o seu pai ainda precisa lavar a louça do almoço antes de começar a fazer a janta. 

Aí a menininha soube que não tinha jeito: o Leãozinho tinha muita consideração pelo pai, e se ele não pudesse mais brincar, o Leãozinho também não brincava. Ela ainda tentou fazer beicinho e reclamar, mas o Leãozinho se adiantou:

- Não faça essa carinha... A gente brinca amanhã! Agora... Cadê meu abraço de despedida? 

A menininha o abraçou forte, ainda contrariada, e ele e o pai sumiram pelo corredor. A menininha ficou espiando, e viu os dois entrarem no quarto dos pais. Bem que suspeitava que era ali onde ele dormia! 

Ela correu novamente para o sofá quando ouviu os passos do pai voltando para a sala, e fingiu começar um desenho enquanto ele ia para a cozinha. Assim que ouviu a água da pia correndo, a menininha se esgueirou para o corredor e foi engatinhando para o último quarto. Chegando lá, ficou de pé e apertou o interruptor. 

Devia estar por aqui, em algum lugar do quarto grande dos pais. A menininha olhou em volta, mas não viu nada laranja ou peludo.

"Onde leões dormem?", ela se perguntou. 

Então a menininha agarrou o edredom fofinho da enorme cama dos pais e foi puxando com muita força, até ele estar todo no chão, mas não havia nada escondido querendo dormir por lá, nem mesmo debaixo dos travesseiros. 

"Lugares escuros!", ela continuou, e olhou debaixo da cama, apesar do chão ser duro e portanto não um bom lugar para dormir. E o Leãozinho também não estava lá. 

A menininha ficou na ponta dos pés para espiar as gavetas da escrivaninha, e de novo, nada. 

Só restava um lugar escuro por ali: o armário de roupas. Ela cruzou o quarto, confiante de que dessa vez encontraria o Leãozinho, e se esticou para abrir as portas do armário. Olhou para cima e abriu um sorriso de alívio e vitória quando viu um rabo laranja com um tufo marrom na ponta pendendo para fora da estante mais alta. 

- Leãozinho! - ela gritou, mas logo fez como se tapasse a própria boca, porque o pai ficaria bravo se a encontrasse lá, acordando o Leão.  

A menininha voltou para a escrivaninha e empurrou uma cadeira de rodinhas para perto do armário, tentando não fazer nenhum barulho, nem com a cadeira, nem com seus risinhos. Apoiando as mãos no assento da cadeira, depois no encosto, e depois nas estantes do armário, a menininha foi subindo, equilibrando-se e ficando de pé, mesmo com a cadeira ameaçando girar. 

- Leãozinho! - ela sussurrou com expectativa, puxando-o pelo rabo e levando-o às mãos - Leãozinho, acorda! 

Mas o Leãozinho não se mexeu. A menininha agachou e sentou-se na cadeira, segurando o Leãozinho com as duas mãos, e percebeu que ele não estava dormindo porque seus olhos estavam abertos como sempre. 

- Leãozinho! Leãozinho!

Ela esperou, olhando para ele. Igualmente mudo, completamente imóvel. 

- Leãozinho? 

A cabeça dele inclinou para trás. 

- Leãozinho... Rawr...

A menininha o abraçou, mas a sensação do abraço foi tão diferente de sempre que ela se assustou e atirou o Leãozinho no chão.  

Mesmo assim, ele não se mexeu nem falou nada. Apenas continuou lá, da forma como havia sido jogado, com os olhos abertos virados para o teto. 

Ouvindo um choro que nunca ouvira até então, o pai apareceu à porta do quarto, com as mãos ainda molhadas da louça e as sobrancelhas retorcidas em pânico. Encontrou sua filha encolhida em cima da cadeira, e ela nunca lhe pareceu menor. No chão entre eles estava o fantoche de leão: vazio, inerte. 

Em sua sabedoria de pai, compreendeu, e além: compreendeu que não poderia ser desfeito. Então em silêncio ele pegou a menininha no colo e lamentou em unidade com ela, como uma estátua quando a música repentinamente para.
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Sete Vidas - Parte 3 / 4

A partir daí eu não lembro direito como as coisas aconteceram. Parece que foram uma em cima da outra e em um longo período de tempo, e a comparação da minha memória com o calendário sempre parece incoerente. Sei que no início o Thales leu vários livros infantis para mim, comemos muitas latas de atum e tomamos muito chá mate. Eu o ajudei com a mudança, o que não foi difícil. Quase todas aquelas caixas tinham praticamente a mesma coisa: livros e travesseiros. Os livros nós colocamos em estantes, de acordo com 1) autor; 2) gênero; 3) tamanho; 4) cor. Os travesseiros nós jogamos pelo chão. A sala foi completamente coberta por duas camadas de travesseiros brancos e fofinhos. E ainda por cima as paredes dele eram pintadas de azul escuro, então parecia que nós estávamos em cima das nuvens à noite. Lembro que comentei isso em um dia e no dia seguinte, quando voltei lá, havia uma lua crescente de papel colada na parede. Então começamos a cortar estrelas de papel (no meu apartamento, que tinha uma mesa para isso) e admito que joguei purpurina prateada em algumas. Geralmente ficávamos em silêncio enquanto fazíamos as estrelas, e eu gostava disso… Não sentir a necessidade de ficar falando. E quando falávamos, sempre era sobre algo importante. Algo que nos aproximava. Eu gostava ainda mais disso. Havia no Thales uma tranquilidade e um humor que me faziam muito bem… As preocupações banais não estavam nele, e a admiração incomum pelo mundo impregnava-o. Dava até vontade de acariciar seu cabelo preto e bonito.

Depois de dias fazendo estrelas, colamo-nas uma a uma às paredes. No mesmo dia o atum acabou, e eu saí com ele para ir ao mercado. Aproveitamos e fomos a uma livraria lá perto, eu saí de lá com 6 livros e o Thales, com 7. Nós compramos duas edições do mesmo livro, o que pensando agora foi meio besta, porque nós dois tínhamos acesso livre às estantes um do outro… De qualquer jeito. Um dia ele disse que o dia seguinte seria o seu aniversário, e eu lhe dei de presente luzinhas como as que se coloca em árvores de natal, mas todas brancas. Ele entendeu o que eu pretendia na hora, e eu assisti deitada nos travesseiros do chão enquanto ele afixava as luzinhas enfileiradas por todo o teto da sala. Então ele apagou as luzes normais e acendeu só as luzinhas, todas de uma vez! Foi como se entrássemos em outro mundo… Não sei quanto tempo ficamos deitados nos travesseiros, debaixo daquele monte de luzinhas… Quando vi, o Thales estava dormindo. Eu me aproximei bem devagar para ele não acordar, mas bem devagar mesmo, deve ter levado uns quinze minutos no mínimo. Fiquei olhando para ele… De casaco, como de costume, ele parecia sempre sentir frio. E também de meias, não havia notado, mas ele nunca tirara as meias, pelo menos não enquanto eu estivera com ele. Que nem alguém que eu conhecia... Mais devagar ainda eu aproximei meu rosto do dele, prestando atenção em cada detalhe iluminado pelas dezenas de pequenas luzes sobre nós. Ele inspirava, e, expirava… Então, foram só alguns centímetros até meus lábios tocarem os dele. Ele abriu os olhos um pouco assustado (justificável…) mas então me viu, relaxou e me beijou de leve de volta (felicidade plena). Eu sussurrei:

- Gosto de você.

Ele sorriu e murmurou:

- Ah é? Desde quando?

- Desde que você disse "'Quero Meu Chapéu de Volta', do Jon Klassen."

- ...Eu também gosto de você.

Também quis saber:

- Ah é? Desde quando?

- Acho que dizer "Desde que te vi de pijama transparente" passa a ideia errada, então vou responder "Desde o negócio dos vegetarianos que comem carne de soja."

Sorri que nem ele… Voltamos a nos beijar timidamente. Ficamos a noite inteira lá, e finalmente o vi sem o casaco e sem as meias. 

***


Tudo isso ocorreu em um mês. Depois, vivemos mais dois meses juntos, em que fui tão feliz que eu frequentemente pensava que seria punida por sentir tanta felicidade. E eu fui. 
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Uma dessas histórinhas que só se conta e não há muito além disso

Ah, com quanta inocência eu, uma menina aos 16 anos, e aquela outra menina cujo nome não vou aqui mencionar, também com 16, usamos três minutos da história do tempo deitadas de cabeça para baixo em um sofá, na casa de um colega da natação. Estávamos em uma pequena reunião depois de uma competição em que ninguém ficou em último lugar, e isso já era motivo suficiente para celebrarmos. Éramos menos de 10, uns 8 ou 9, não especialmente amigos uns dos outros porque não se fala muito durante um treino de natação, mas tínhamos alguma consideração pela existência de cada um. 

Houve um momento em que eu estava sentada em um sofá junto com aquela menina, sem falarmos nada... Ela virou de cabeça para baixo e apoiou os pés na parte de cima do sofá, eu vi e fiz o mesmo. As outras pessoas estavam de pé atrás do sofá ou em outros cômodos, então ninguém conseguia ver nossas cabeças. Por isso, eu já esperava pelo que ela disse a seguir:

"Vamos nos beijar?"

Dei um beijo rápido em seus lábios que já estavam no formato dos de um peixinho. Ela abriu os olhos e falou meio rindo:

"Não só assim!"

Não pensei muito, talvez tenha só passado um "Por que não?" pela minha cabeça, e me aproximei dela novamente. Beijamo-nos mais demoradamente, sentindo nossas línguas brincando uma com a outra. Foram três minutos bonitos. Eu, não sentindo nada especial com aquele beijo, mas nem por isso sem me agradar, pois a menina tinha um charmezinho juvenil e um rosto bonitinho, e ela - eu ouvira falar - apenas gostava da sensação relativamente nova de beijar, e beijar especialmente meninas, que não levavam a experiência para o lado pessoal ou, na pior das hipóteses, não demoravam para se curar de um coração ferido. Ficamos lá, estávamos lá, até que simplesmente separamos nossos rostos e nos olhamos sabendo que aquele era o término daquele momento. Eu me levantei e fui pegar mais refrigerante e conversar com o menino com os ombros mais largos da nossa turma. Ela também deve ter ido fazer alguma outra coisa. 

Foi isso, faz quatro anos. Tive que parar a natação no final daquele ano, para estudar para os vestibulares, mas recentemente fui à piscina da faculdade, minha primeira piscina desde que deixei de nadar, e o cheiro do cloro me trouxe a sensação desse beijo. A menina (e suponho que eu também) cheirava a cloro aquele dia. Tive que forçar minha memória para entender porque o cheiro do cloro me fez pensar em um beijo, e então me lembrei de tudo isso. Foi um acontecimento tão isolado e estranho, mais parecido com um sonho, que eu até esqueço de contá-lo ao meu namorado. Bem, aqui está, escrito para eu não me esquecer novamente. 
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Sete vidas - Parte 2 / 4

À noite, meu pai me pediu para descer para pegar a correspondência, porque fazia uma semana que eu não saía de casa porque eu não queria sair de casa porque o Sr. Meinhas tinha caído da janela, e o meu pai falou para eu "parar de ser fresca e descer pra pegar a correspondência pelo menos". Não respondi, ainda estava muito brava com ele, mas o obedeci mesmo assim. Assim que saí e fechei a porta do nosso apartamento, o 102, percebi que havias várias caixas na frente da porta do 101. Os antigos vizinhos eram barulhentos e ficavam acordados até tarde, e eu fiquei feliz quando eles foram embora, então senti um peso no peito e o mundo rodar quando vi aquelas caixas de mudança na frente do 101. Chamei o elevador e torci para que chegasse logo, mas ele estava no S2 e foi parando em alguns andares. Eu esperei bem parada, porque não faço aquela coisa de apertar o botão do elevador várias vezes quando estou com pressa. Isso é o número 74 da minha Lista De Coisas De Que Não Gosto Nas Pessoas, porque o elevador não vai chegar mais rápido se você apertar o botão repetidamente.

Estava pensando nisso quando a porta do 101 abriu. Apareceu um garoto do outro lado da porta, que me olhou de volta. Ele tinha cabelo preto e bagunçado, uns vinte centímetros a mais que eu, e estava de calça jeans e blusa xadrez, o que achei estranho porque não estava frio. Ele disse:

- Oi.

Eu respondi:

- Oi.

Ele sorriu um pouco.

- Agora eu moro aqui.

Eu não sorri de volta.

- É.

Fizemos silêncio.

- Eu me chamo Thales.

- Okay.

Ele sorriu mais e apoiou um braço no batente da porta.

- Você sempre sai de pijama?

- Eu não vou sair.

- Você sempre sai do seu apartamento de pijama?

- Eu estava de pijama e saí do apartamento.

- Seu shorts é bastante curto.

- Tá quente.

- Você tá descalça.

- Você tá de meias.

- Sua regata é meio transparente.

- Ela é.

- Eu não gosto de vegetarianos que comem carne de soja.

- Eu também não.

- Também não gosto quando perguntam onde está a salada do meu prato.

- Porque ninguém pergunta pra um vegetariano onde está a proteína dele.

- Exatamente!

Ele abriu mais o sorriso quase em uma risada, tirou o braço da porta e colocou as mãos nos bolsos.

- Você é legal.

- Obrigada.

- Qual o seu nome?

- Linh.

- Lin...

- É com "H" no final.

- Como você pode saber que eu falei sem "H" no final?

- Porque você não falou com "H" no final.

- Mas não faz diferença sonoramente.

- Meu nome é com "H" no final.

- Tá bom. Linh.

- Isso.

Dessa vez ele riu e cruzou os braços.

- Quantos anos você tem, LinH?

- Dezenove.

- Eu tenho vinte e três.

- Okay.

- Você gostou de como eu falei seu nome com o "H" maiúsculo?

- Não, meu nome só tem o "L" maiúsculo.

- Tá bom, não faço mais.

- Okay.

Pausa. Ele deu alguns passos para fora da porta, desviando das pilhas de caixas no chão.

- Você responde qualquer coisa que eu perguntar?

- Pode ser.

- Tá bom. Então... Você está triste?

- Estou.

- Por quê?

- Meu gato caiu da janela uma semana atrás.

- Ué, e ele morreu?

- É claro que ele morreu.

- Mas gatos têm sete vidas.

- Isso não é engraçado.

Ele parou de sorrir.

- Você quer entrar um pouco? Posso ler uma história pra você que vai te fazer sorrir.

- Eu tenho que descer pra pegar a correspondência.

- Mas você não quer descer pra pegar a correspondência, quer? O elevador está aí desde que eu falei do seu shorts e você só está aí parada.

Demorei para responder, e quando o fiz, foi um murmúrio:

- Qual é a história?

- "Quero meu chapéu de volta", do Jon Klassen.

Minha alma inteira deu um pulo. Nunca havia sentido aquilo antes, mas imagino que seja o que você sente quando descobre que mais alguém gosta do mesmo livro estranho que você, aí você se sente mais viva e pensa que por causa do livro em comum, vocês deveriam ser amantes. Dei um passo para frente e prestei bastante atenção aos olhos verdes quase amarelos dele. Eram escancaradamente sinceros, a ponto de me constranger, mas ao mesmo tempo tinham algo de dissimulados, o que me assustou um pouco. Foi a voz completamente equilibrada dele que me fez voltar ao fluxo normal do tempo:

- Conhece?

- Go-gosto muito desse livro.

- Então a gente devia ser amigos.

- É. Amigos... (e não, hm, amantes, como eu pensei...)

Ficamos nos olhando. 

- Então entra, vem, venha conhecer o novo apartamento do seu novo amigo e ouvir a história do urso que perdeu o chapéu! Falta arrumar muita coisa, mas tudo bem. Posso até te fazer um chá!

Um amigo... De repente tinha um amigo que era uma pessoa. 
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Sete vidas - Parte 1 / 4

Sr. Meinhas era o meu gato. Ele era completamente preto, exceto pelas patas brancas. Por isso Sr. Meinhas. Ele não sabia porque era um gato, mas o Sr. Meinhas era o meu par ideal. Eu não gosto de pessoas, mas se o Sr. Meinhas fosse uma pessoa, eu iria me casar com ele e viver pra sempre com ele. Ele não gostava de sair de casa, e também não gostava de outras pessoas além de mim. Em dias de chuva ele ficava olhando pela janela, e tenho certeza de que tinha pensamentos mais profundos do que os de metade da população mundial. Sempre deitava quietinho ao meu lado quando eu lia um livro, e quando eu o abaixava ele se deitava em cima dele, o que me faz pensar que ele também os lia e gostava deles. Ele também devia gostar de poesia, pois me ouvia com muita atenção quando eu recitava alguns poemas. O Sr. Meinhas gostava de ficar sozinho às vezes, e eu já deixava a minha gaveta de blusas aberta para ele poder entrar lá e se enrolar na lã. E é difícil não gostar de alguém que fica tão feliz deitado ao sol, ainda que esse alguém seja um gato e que ele se lamba. O Sr. Meinhas percebia quando eu estava triste e vinha me fazer companhia ao lado do meu travesseiro.  Às vezes ele tomava o meu chá. Fazê-lo ronronar era muito gratificante. Bastava olhar para seus olhos para saber que dentro dele havia um outro universo, íntimo e particular, que eu conseguia vislumbrar em raras ocasiões em que ele permitia que eu o visse desprevenido. Eram momentos curtos, encarávamos-nos por um longo segundo, e então ele retomava sua postura orgulhosa e saía andando com o rabo levantado. 

Eu adotei o Sr. Meinhas quando ele ainda era um filhote, e eu, uma adolescente de 17 anos. Vivemos juntos por quase dois anos, até que um dia ele caiu da janela. Moro no décimo andar com o meu pai. Às vezes eu acho que meu pai que o jogou pela janela. Ele não gostava do Sr. Meinhas porque o Sr. Meinhas olhava para ele com desdém, e meu pai tenta negar que se sente inferior aos outros por ter sido traído pela esposa, minha mãe. Eu acho que se você frequentemente fala que não é inferior a ninguém por causa disso, você na verdade sente que é. Eu não menosprezo o meu pai por isso, mas se ele tiver jogado o Sr. Meinhas pela janela, eu também o abandonaria e iria viver com outra pessoa, ou sozinha, já que eu não gosto de pessoas, só do Sr. Meinhas, que não é uma pessoa e estava morto.

Depois que o Sr. Meinhas caiu da janela, eu fiquei completamente só. Meu pai perguntou se eu queria um cachorro, e eu fiquei tão ofendida com a pergunta que não falei com ele por uma semana inteira. Que foi quando o apartamento do mesmo andar que o nosso foi alugado e o novo morador chegou com as suas coisas. 
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Lá menor

Lavínia acordou no meio da noite, coisa que era até esperada, pois desde a primeira vez que dormira fora de casa a menina acordava uma ou duas vezes à noite, perguntando-se assustada onde estava e por que aquele teto era diferente do teto do seu quarto. Tinha agora 16 anos, "uma mocinha", como sua mãe gostava de marcar, apesar de Lavínia querer rejeitar o que quer que fosse que uma mocinha deveria fazer: tarefas monótonas como lavar a louça, arrumar a mesa e levar o lixo para fora, e Lavínia sempre dava um jeito de sua mãe sentir pena dela para se livrar das tarefas e furtivamente voltar a ler algum livro com uma história de amor bem doce. Era com essas histórias que gostava de voltar a dormir depois de acordar de madrugada, mas não foi isso o que fez desta vez. Lavínia acordou, mas não pôde abrir os olhos.

Mesmo sem ver o teto diferente, logo adivinhou não estar na sua casa. Todos os quartos de casa estavam em reforma, e ela precisava de um lugar para dormir por uma noite, já que as irmãs menores e a mãe já iriam dormir nos sofás, disso se lembrou rapidamente. No dia seguinte ela e a mãe comprariam alguns colchões quaisquer, colocariam na sala e pronto, todas dormiriam juntas por umas duas semanas, até a reforma terminar. Lavínia fora então mandada, com permissão da mãe, para a casa de um amigo de infância, Casimir. Ele tinha uma dessas camas que escondem uma outra embaixo, e imagine, não será trabalho nenhum, a Lavínia já é da família, essa graça de menina! Lavínia e Casimir sempre estudaram na mesma escola e as duas famílias se conheciam e se davam bem há anos. Lavínia estava acostumada com Casimir. Era um misto de amigo e irmão mais velho, já que ele passava oito meses por ano sendo 1 ano mais velho que ela. Estavam neste período agora, ela tinha 16 e ele tinha 17. Eram ternos um com o outro. Sentia familiaridade com ele.

O que não foi familiar, entretanto, foi a mão que acordou Lavínia, sem que ela pudesse ou quisesse abrir os olhos. Só depois de alguns segundos de emergir dos sonhos pensou se tratar de uma mão. Que não era sua. Mas que estava sobre o seu corpo. A ideia pareceu tão absurda que a menina a descartou prontamente e pensou que ainda estava sonhando, como às vezes acontece de você se considerar acordado e pronto para ir à escola para então acordar de verdade e se ver ainda de pijamas. Só podia ser um sonho. Nada do que estava sentindo era real. Não havia nada realmente passeando pelo seu corpo adormecido. Que ideia. Se quisesse se certificar, era só abrir os olhos e pronto, veria que era só um sonho!

Mas a menina continuou de olhos fechados. Porque de repente foi difícil continuar acreditando que aquela forma fria sobre si era um sonho. Começou a ficar assustada. Em estado de alerta prestou mais atenção. Era uma mão, definitivamente não sua, por baixo da camisa do seu pijama. Fazendo movimentos leves mas insistentes pela sua barriga. Como se não quisesse acordá-la mas não conseguisse conter o entusiasmo e o nervosismo. Da barriga deslizou para os seios, pequenos mas redondos, e a mão se fechou sobre um deles quase com força.

A menina estremeceu de medo. De nojo e raiva. Tentou formular para si mesma, "O Casimir está te tocando enquanto pensa que você está dormindo e isso é um absurdo", pois então pelo menos saberia o que fazer. Mas não conseguia. Não conseguia. As palavras não queriam se juntar na sua frente para lhe apresentar a humilhação. Não pensava nada, só sentia. Sentia Sai daqui! O corpo é meu! Não me invada! Mas não se moveu. Por que sentia vergonha se era ele quem deveria se envergonhar do que estava fazendo?! E era essa vergonha que não a deixava se mover. Muito menos abrir os olhos. Os dedos daquela mão faziam movimentos de vai e vem pelo bico do seio da menina, esperando que eles endurecessem, mas não houve reação alguma. Vendo que a menina não dava sinais de despertar, a mão ficou mais confiante e ambiciosa. Desceu de volta para a barriga e se enfiou por baixo do elástico da calça do pijama, onde nem mesmo Lavínia havia tocado. A menina se desesperou. A mão tentou alcançar para mais além, mas teve o azar das pernas estarem muito próximas uma da outra. Para, por favor, para, ela conseguiu pensar em palavras, as primeiras palavras desde que acordara. Se não estivesse escuro, o dono da mão veria lágrimas silenciosas escorrendo pela lateral do rosto de Lavínia e molhando seus cabelos. Não... Mesmo que estivesse claro, ele não as veria. A mão insistiu mais um pouco, mas por fim desistiu e voltou para a própria cama.

Lavínia tentou ignorar os sons que se seguiram. Sons que só cessaram após uma espécie de suspiro gutural na cama ao lado. Então o silêncio. Por todo esse tempo Lavínia não se mexeu. E por não se mexer é que a vergonha se acumulara.

Dez minutos atrás era uma menina, agora não passava de um corpo para uso alheio. Fora transformada sem o seu consentimento. Não fizera nada para impedi-lo. Não sabia o que fazer para se transformar de volta. Havia algo que poderia fazer?! Seu corpo permaneceu imóvel enquanto seu interior ruía. Não há nada a fazer. Agora não há mais nada a fazer, eu deveria ter feito algo antes!

As lágrimas continuavam sem som algum. Um cachorro latiu do lado de fora, o que fez muitos outros latirem em resposta, e logo havia uns seis ou sete latidos simultâneos no meio da noite. Os cachorros uivavam, com tudo o que tinham, confessando-se à noite para poder viver o dia seguinte. Quisera Lavínia estar livre de si mesma para também uivar com eles. 
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Trecho de realidade, número 98

As roupas no chão, silêncio das palavras, os corpos querendo a mesma proximidade das almas. É tempo: unem-se. Mulher e homem se olham. Mulher e homem que não pertencem um ao outro, não corrompamos nossa humanidade com o desespero de possuir outro ser humano, somos livres e com nossa liberdade escolhemos a cada dia estar juntos e ser confidentes da alma do outro, é isso, como estabeleceram. E neste momento em que se olham ela compreende desde o imaterial obscuro até as vísceras: É você. Minha vida até aqui foi para você. Meu eu foi se tornando eu para você. Só podia ser você. Cheguei no lugar mais alto do mundo. Desejo estar com você até o fim desses dias que são um presente quase excessivo da vida. E o que fiz para merecer tudo isto? Nada, absolutamente nada, não tenho ideia de porque fui escolhida para a felicidade suprema, e não posso negar que sou grata a essa injustiça. 
Todos os pensamentos tombam um no outro, em menos de três segundos, como se fala coisas tão grandes em tão pouco tempo?, então ela se conforma em dizer, com a seriedade máxima da alegria
- Te amo
sem ponto final
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Trecho de realidade, número 97

- Milena! - ouvi chamarem meu nome da sala. Que sonoridade estranha, saindo da boca de outro alguém. Adivinhando meu desconforto, o homem ao meu lado disse, com uma compreensão de encontrar ecos em mim: 
- É o seu nome.
- É. É o nome que meus pais me deram.
- É estranho?
- Sim.
- Porque você é um eu, não o seu nome.
- É! E me chamam por esse nome. 
Não há muito o que fazer depois que se é compreendido nas camadas profundas antes de você mesmo ter palavras para se explicar: fica-se feliz, extremamente feliz por estar ao lado de tal pessoa, e pronto, permanecem-se. Juntos. Cúmplices. Com uma ligação que nunca se teve e que se sabe que nunca terá com outra pessoa. Percebo agora que não respondi ao chamado e nem lembro por que estava sendo chamada. 
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A busca

A personagem era uma garota de estatura mediana, porque é mais provável que ela fosse de estatura mediana do que especialmente alta ou especialmente baixa. Por isso chama média né. Okay, não necessariamente, o mais correto seria dizer moda, mas eu tirei 2,5 ou menos na prova de Estatística, então finjamos que o que eu falei tá certo. O cabelo dela pode ser do jeito que você quiser imaginar, assim como os olhos, o nariz, os dedos, os cotovelos e o umbigo. Não, retiro essa última parte, o umbigo dela não era pra fora. Eu não tenho nada a ver com o umbigo dela sendo pra fora ou não, simplesmente não era.
Essa era a personagem. Sinto-me tentada a dizer que o lugar era uma floresta, mas de floresta e árvores já escrevi demais, então que o lugar seja Paraty. Se você não sabe onde fica Paraty, o lugar é Jericoacoara. Se você também não sabe onde fica Jericoacoara, procure no Google que eu não quero explicar e me desviar da história.
Agora que já falei da personagem e do lugar, vou começar a contar a história. A história começava antes, mas vou mostrar mais ou menos do meio, aí é só subir na maria-fumaça em movimento. Juro com os dedos cruzados nas costas que não vai ser difícil, é uma maria-fumaça, não um metrô. 
:
- Não se preocupe, garotinha, eu vou te ajudar a te encontrar!
- Oh, muito obrigada!
- Vamos ver... Como você é?
- Como eu sou? Eu não sei como sou!
- Mas como você quer achar uma coisa que você nem sabe como é?! É boba, é?
- Bobo é você. 
- Eu estou tentando te ajudar.
- Tá bom, tá bom... Eu... Eu acho que sou... Ah, eu não sei! Não sei nem que forma que tenho, nem se tenho uma forma, ou se é como vapor, ou vapor invisível! Não sei se tenho cor ou cheiro... Sei apenas do meu invólucro, do meu invólucro sei. O que procuro, não sei como é.
- Assim fica difícil! Não vou te ajudar mais.
Então a garota continuou andando por Paraty ou Jericoacoara. Era relativamente cedo, se bem que a garota não acordava tão cedo assim, mas posso dizer que ainda era de manhã, e tinha sol no céu. Ela obviamente não tinha passado protetor solar antes de sair de casa, porque passar protetor dá preguiça. Mas não se arrependia de não ter passado protetor, porque sabia da preguiça que dava, então ela apenas continuava a andar, procurando o que havia perdido no meio da noite. Hora ou outra ela encontrou um Coelhinho marrom, tão bonitinho e de olhos tão grandes que dava vontade de chutar. Teria-o feito, se ele não tivesse falado primeiro:
- Olha uma garota! O que você tá fazendo, hein?
- Eu acho que me perdi.
- Ah, neste caso, você está nas proximidades de Paraty ou de Jericoacoara! 3km pra lá dá no centro da cidade.
- Não, não é isso! Quero dizer que eu perdi a mim mesma. 
- ...That`s weird.
- Acho que fugi no meio da noite, não sei. Lembro que me falaram alguma coisa ontem à noite que me fez querer ir passear, e eu deixei. Geralmente eu volto antes de acordar, mas dessa vez, a manhã veio e eu não voltei. Agora eu não sei onde eu estou. 
- Se você não está aí... Então quem é essa com você? - o Coelhinho começou a gargalhar, e teria saído saltitando se a garota não o tivesse chutado primeiro. 
Fazer o quê, continuou andando, não podia voltar à sua vida sem ela mesma né. Olhou atrás de troncos finos, cavocou a areia, forçou os olhos para ver o horizonte... E nada. Lá pelo meio dia, uma da tarde, a garota estava com tanta sede que foi beber água em uma lagoazinha que encontrou por lá. Acho que era uma poça bem grande na verdade, mas não conte nada para a garota. Ao se debruçar sobre a lagoazinha, viu uma coisa na água e gritou:
- Ei! Você sou eu?!
E a coisa na água respondeu:
- Se você acha que eu sou você, você deve estar muito perdida mesmo.
- Ah, é, me enganei. É que foi de relance, tá? Mas você é só o invólucro. Não, nem o invólucro você é.
- Não sou mesmo.
A garota bebeu a água e foi embora. Estava quase desistindo de procurar, então começou a fazer o caminho de volta para casa. No caminho de volta, se deparou com um Espantalho sábio, o que foi muito estranho, porque espantalhos não são sábios e porque não havia espantalho nenhum no caminho de ida.
- Nem precisa falar! Eu já sei o que você busca... 
- Ai, obrigada! Escrever Falar dá tanta preguiça! 
- Bem sei, minha cara, bem sei... E escute-me! Digo e disso tenho certeza: não há necessidade de continuar apreensiva. Você vai encontrar o que busca.
- Como você sabe?!
- Porque isto é uma história. Histórias têm começo, meio e fim. Esta história também terá um fim. E ninguém se daria ao trabalho de escrever uma história sobre busca do próprio eu sem concluí-la de maneira bonita. 
- Oh, acho que você tem razão!
- Eu tenho.
- Muito obrigada, seu espantalho!
E a garota continuou a fazer o caminho de volta, feliz com o seu novo destino. Talvez fosse assim que eram as coisas: era só deixar de procurar e de se preocupar, que ela encontraria aquilo que estava buscando! E essa seria a moral da história.
Quando a garota estava quase chegando em casa, veio correndo em sua direção aquele primeiro ser que disse "Não se preocupe, garotinha, eu vou te ajudar a te encontrar!" Ele estava segurando uma boneca de pano, muito parecida com a garota, especialmente pela estatura proporcionalmente mediana.
- Olha, garotinha, olha! Eu te achei! Aqui está! Você!
- Ahm... Essa não sou eu não.
- É sim!
- É não.
- Mas olha como é parecida!
- Mas não sou eu. Andei pensando viu, e acho que
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A Menina Triste e o Passarinho Solitário

Um dia a Menina triste falou:
- Passarinho, Passarinho, eu gosto muito de você!
E o passarinho solitário respondeu:
- Menina, também gosto muito de você!
- Quero ficar para sempre com você, Passarinho!
- Também quero ficar com você para sempre, Menina.
Então a Menina triste pegou um pedaço de barbante e amarrou as asas do Passarinho.
- Assim você não vai voar para longe e estaremos sempre com o outro!
A Menina triste sorriu satisfeita, pensando que com isso ela não seria mais triste e o Passarinho solitário não seria mais solitário. E os dois passaram muitos dias juntos, dizendo juras de amor um ao outro.
No entanto, um dia a tristeza da Menina voltou.
"Será que o Passarinho fica aqui porque ele gosta mesmo de mim ou porque não pode mais voar?", ela pensou.
Então a Menina triste desamarrou o barbante das asas do Passarinho solitário, e o Passarinho saiu voando e cantando pela janela.
A Menina triste começou a chorar e berrar. E o Passarinho solitário voltou para dentro de casa no mesmo instante.
- Desculpe, Menina! Por favor, não chore! É que o céu é tão bonito que me dá vontade de voar. O que posso fazer para você não ficar mais triste?
A Menina triste soluçou algumas vezes mais e então pegou uma tira de pano para cobrir os olhos do Passarinho.
- Assim você não vai ver o céu e não vai ficar com vontade de voar para longe!
A Menina triste sorriu, pensando que com isso ela não seria mais triste. E os dois passaram muitos dias juntos, dizendo juras de amor um ao outro.
Porém, certo dia, a Menina voltou a ficar triste.
"E se a venda cair dos olhos do Passarinho e ele vir o céu e voar para longe?"
Então ela comprou uma gaiola e o colocou com cuidado lá dentro. E os dois passaram muitos dias juntos, ela olhando seu Passarinho vendado e ele paradinho lá dentro da gaiola.
Quanto mais dias passavam, mais triste a Menina triste ficava.
"Será que eu gosto mesmo do Passarinho?", ela se perguntou.
Então a Menina triste abriu a porta da gaiola e tirou a venda dos olhos do Passarinho. Mas o Passarinho continuou paradinho onde estava.
- Você não vai voar para longe?
- Acho que me acostumei a ficar aqui. É confortável… Não tenho que ir atrás de comida, nem bater as asas. Bater as asas pode ser cansativo às vezes.
Não sabia por quê, mas de repente a Menina triste ficou também muito brava. Ela pegou o Passarinho solitário e o colocou no parapeito da janela.
- Voa.
- Não quero.
- Voa.
- Não.
- Voa! - e deu um empurrãozinho.
O Passarinho solitário pôs-se a bater as asas e voou para longe. A Menina triste ficou olhando ele ficar cada vez menor e menor, até ficar tão pequeno que ela não conseguia mais vê-lo.
E os dois passaram muitos dias sem o outro.
A Menina triste começou a brincar fora de casa com outras crianças que gostavam muito de brincar com ela.
O Passarinho solitário conheceu muitos outros passarinhos que lhe ensinaram novos jeitos de voar.
Um dia, quando a Menina triste não era mais triste e o Passarinho solitário não era mais solitário, eles se encontraram por acaso em uma esquina. E a Menina e o Passarinho perceberam que agora sim poderiam ser grandes amigos.
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A Desordenada História da Menina que Virou uma Boneca

Uma vez era uma menina. Quando deu a hora de ser garota, disse assim não, garota não, muito sem graça isso, quero o bonitinho, quero o doce e submisso, quero minha vida o artificialmente idílico. E deu que passava por ali um fragmento de espelho com asinhas purpurinadas que ouviu o seu pedido. Então aqui está um vestidinho com rendas, sapatinhos pretos e uma meia pra deixar um teco das coxas aparecendo. Notou cabelos sedosos para agradar a quem tocá-los, olhos brilhosos com longuíssimos cílios para agradar a quem fitá-los e lábios macios para agradar a quem acariciá-los. Notou também articulações de plástico nos joelhos e nos cotovelos, que teria que esconder, os movimentos estavam duros e conseguia ficar em belas posições. Plim, feito. Boneca, boneca. Mas dá trabalho se manter assim, ok? Ok, ela adorou, tudo bem se dá trabalho, e saiu cantando alto no meio da rua: O amor é meu, o coração é meu, de mão beijada entrego a quem quiser.

Quem quer meu amor, quem quer meu coração? É de graça, de graça, a quem quiser! Venham, venham pegá-lo, é de graça! Opa, um menino que passava disse, de graça mesmo? Eu quero, me dá? Te dou! Tinha aparência de bom menino, e não deu muito tempo viu as articulações de plástico e descobriu que era uma boneca, e não uma menina. Oba, bonecas servem para brincar. E a outra fazia papel de boneca muito bem mesmo: vai pra lá, e ela ia, vem pra cá, e ela vinha, faça isso, ela fazia, diga isso, ela dizia, deixe-me isso, ela calada permitia. E a brincadeira era uma dessas violentas de criança que não sabe limite de brincadeira, e um braço ou uma perna sempre acabavam arrancados, ou um olho saía pra fora, isso quando não entrava pra dentro. 

Espelho, espelho, isso dá muito mais trabalho do que eu imaginei! Fosse só cuidar do cabelo, passar creme no corpo todo e verniz nos olhos e lábios, mas isso está dando trabalho demais, não paro de ter que me consertar e não tá mais dando pra consertar em cima do conserto dos estragos antigos! Nem a cola quente resolveu dessa vez e olha agora, agora tenho um braço e um ombro que o braço não tá no ombro, e aquelas unhas tiraram a tinta do meu ventre, espelho, espelho, o que faço? O fragmento de espelho com asinhas purpurinadas olhou e disse assim: se vira, meu amor, e você sabe que é meu amor. Você desejou e eu concedi e agora você só está sendo é uma ingrata. E a boneca teria chorado se bonecas pudessem chorar, e chorou-se-pudesse-chorar até não se aguentar mais, e chegou até a jogar o braço sem o ombro contra a parede que por lá estava para ver pedaços seus estilhaçados no chão que do lado de fora do mundo ficava. 

Aí um dia chegou uma noite, e na noite chegou uma luzinha que pensou que fosse um vagalume mas não era, era uma luzinha mesmo, que de nada tinha de inha, mas parecia uma luzinha. E a luzinha aqueceu a boneca e os pedaços do braço da boneca se refizeram no ar, e foi de volta para o ombro que estava sem braço. E naquela noite era menos boneca. Soube disso porque uma lágrima plena de alegria e culpa e alívio e tristeza apareceu de verdade: agora podia chorar de verdade. E sabia de mais uma coisa que poderia fazer agora que era menos boneca. 

Devolve que é meu, eu te dei mas ainda é meu e eu quero de volta, e ele respondeu que não, não, não. Não que não ia devolver, era não que nunca foi dele. Você mentiu, você disse que ia me dar seu amor e seu coração mas você nunca me deu, você me deu outras coisas suas, mas eles dois, nunca. E ela virou os olhos pra dentro e viu que era verdade, estavam o amor e o coração bem dentro dela, e ela sorriu ao vê-los na verdade intocados, ainda que tivesse outras partes que ainda tivesse que consertar. Sentiu um gosto amargo e gostoso na boca e disse pra ele, parabéns, você fingiu muito bem, você realmente tem aparência de bom menino, e agora o que você me quebrou eu vou te quebrar, ninguém mandou aceitar a oferta de uma boneca, que tipo de ligação poderia uma boneca lhe dar? Abandono-te. E foi embora feliz e leve e livre e sem dono. 

Queria ser uma mulher, mas não se vai de boneca a mulher direto assim não, primeiro vai de volta pra menina e depois pra garota e depois pra moça e por fim vai pra mulher, desfazendo-se aos poucos das coisas de boneca. As articulações de plástico haviam sumido, agora tinha cotovelos e joelhos de carne, assim como todo o resto do corpo. O cabelo não era mais artificial, então os fios caíam e cresciam, e os lábios não eram mais envernizados, então eles secavam de vez em quando também. O lado de fora é sempre o mais fácil de mudar, o difícil é se desfazer das coisas do lado de dentro. Uma vez mais era uma menina. Deu um tempo e começou a ser também garota. E decidiu que não queria mais meninos-donos, e mudou os versos que antes cantava, acrescentando uma palavrinha que significava muito mais do que a palavrinha: O amor é meu, o coração é meu, de mão beijada entrego a quem eu quiser. 
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Relato de uma manhã

Abri os olhos, e vi meu quarto iluminado por uma pálida luz branca que atravessava toda a janela. Dia nublado de novo… Sentei-me, afastei as cortinas do dossel e olhei para a Mel, que ainda dormia na minha cama. Estava deitada de lado, com metade do corpo completamente à mostra, e o cabelo loiro quase branco espalhado sobre o lençol. Espreguicei-me, e com isso ela também acordou. Coçou os olhos docemente e simplesmente perguntou:
- Gostou da noite?
Eu só fiquei a olhar para aquele rosto branco e aqueles olhos pequenos e opacos. Não era muito bonita, as pessoas diziam, mas aos meus olhos era atraente, e isso bastava. Como eu não respondia à sua pergunta, sentou-se na cama e tornou a falar, enquanto fazia seus dedos caminharem pelas minhas costas nuas:
- Fazia tempo que não passávamos uma noite juntas… Obrigada por me receber mais uma vez. Achei que você nunca mais ia querer me ver.
Coloquei minha mão na sua bochecha e aproximei meu rosto do dela:
- Que besteira, Mel. Eu nunca conseguiria te deixar... Quero beber cada gota sua.
E comecei a beijá-la como na noite anterior. Minhas mãos foram escorregando da sua bochecha para o seu pescoço, e depois para o resto do seu corpo, enquanto as mãos dela acariciavam minha nuca. 
Então a Cá entrou saltitando no quarto, com seu vestidinho vermelho de babados, suas sardas e os cabelos presos em duas marias-chiquinhas:
- Bom dia, vocês duas! Que tal saírem dessa cama e se prepararem para o dia? A Liz fez omelete de café da manhã pra todas nós!
Separei irritada minha boca da boca da Mel:
- Cá, que que você tá fazendo aqui? - Eu perguntei, com vontade de jogar algum bichinho de pelúcia nela - Como você entrou na minha casa? Já não falei que odeio quando você tá por perto?
- Ai, isso lá é jeito de falar comigo, depois de tudo o que eu te fiz?
- É exatamente por causa de tudo o que você me fez que eu te quero longe de mim, sua imbecil!
- Ai, isso machuca, tá? Mas não importa, eu vou continuar aqui até alguém de fora me expulsar! E aliás, foi a Sol quem me deixou entrar, ela sim é uma boa amiga. Agora, ponham alguma roupa vocês duas e venham comer o omelete da Liz!
E saiu saltitando novamente. 
Bufei. Pelo menos havia um omelete feito pela Liz me esperando. Falaram-me que eu não deveria comer a comida dela, mas eu finjo que não ouço. 
Eu e a Mel nos levantamos, vestimos as primeiras regatas que encontramos no armário e fomos para a cozinha. A Cá nem estava lá, já devia ter comido, mas fomos recebidas pela Sol, uma garota de cabelo preto na altura do pescoço, que estava quase terminando o omelete:
- Ora ora, que bom ver vocês duas unidas de novo. Se não fosse por mim, talvez vocês nunca mais se falassem, não é mesmo?
Sol… Difícil explicar minha relação com ela… Eu gosto dela. Mas não por muito tempo. Sabe como é. No começo o sorriso dela é misterioso, sedutor, interessante… Mas quando eu passo muito tempo ao seu lado, esse mesmo sorriso passa a ser irônico e desprezível. No momento, ele era quase irônico.
- Oi, Sol - eu respondi - Quando é que você vai embora?
- Um pouco antes da Cá. Mas eu volto, eu sempre volto, não se preocupe… Aliás, já que eu e você vamos ficar sempre uma com a outra, a gente podia se casar logo de uma vez, não? Até já tenho as alianças - ela falou, mostrando no ar dois anéis de ouro com um pequeno diamante encravado. Senti um calafrio percorrer meu corpo com a visão daqueles aros cintilantes. Sentei-me ao seu lado, em frente a um prato de omelete, tentando aparentar calma:
- Nem adianta tentar, Sol. Você sabe que eu não prometo o perpétuo a ninguém. 
Ela deu de ombros, como se dissesse "Bem, não foi dessa vez", e voltou a comer. Então eu e a Mel também começamos a comer o omelete que a Liz nos fez. 
Estava delicioso… Na boca, pelo menos. Sabia que quando chegasse ao estômago se tornaria tremendamente amargo. Era assim com tudo o que a Liz nos dava para comer. Mas mesmo assim, eu sempre aproveitava enquanto ainda fosse bom. 
De repente, o encanto daquele momento foi interrompido pelo som da campainha. 
- Quem será a esta hora? - a Mel perguntou, inclinando a cabeça com aquele jeito fascinante dela.
Levantei-me, andei até a sala e abri a porta. Quando vi quem era, imediatamente fechei a porta com toda a força que pude, e fez-se um estrondo pela casa. 
- Por favor, deixe-me entrar! - uma voz masculina do outro lado da porta implorou.
- De jeito nenhum! Vai embora! - eu gritei de volta - Rô, não sei o você veio fazer aqui, mas vai embora e vê se nunca mais volta! 
- Por favor, querida, me dê mais uma chance! Eu nem consigo entender o que foi que aconteceu para você me repudiar desta forma! Por favor! Eu não consigo viver sem você!
- E eu não consigo te ouvir sem sentir vontade de vomitar - berrei - E daí se um dia eu te amei?! Pare de valorizar o meu afeto! Eles vão pra qualquer um! Entendeu?! Me deixa em paz!
Silêncio do outro lado. Depois de um tempo ouvi o barulho do elevador: a porta sendo aberta, fechando-se e indo embora. Abri a porta de casa e dei uma espiada, e o Rô não estava mais lá. Ainda bem… 
Quando me virei para voltar para a cozinha, dei de cara com a Liz, que me encarava com seus grandes olhos verdes:
- Quem era? - perguntou. 
Fiquei com muita vontade de mentir, mas não podia fazer isso, não com ela:
- Hã… Era o Rô… 
- E você o expulsou?
- É… - desviei os olhos para o chão - Desculpa, eu sei que vocês eram bons amigos, e agora vocês nem podem mais se ver por causa da minha briga com ele…
- Não, tudo bem - ela falou cheia de charme e inocência - Ele é dispensável para mim - e começou a andar em direção à cozinha. 
Ah, como eu adoro essa garota… A Liz é tão… Linda. Tem sempre os pés no chão. Sim, lindos pés sempre descalços correndo por aí. Fiquei com vontade de agarrá-la, abraçá-la, beijá-la, e assim o fiz. Então voltamos à cozinha, e nos sentamos junto com a Sol, a Mel e a Cá, que voltara para lá para comer mais um pedaço de omelete. 
E assim todas nós apreciamos na companhia uma da outra um por-um-momento-pelo-menos delicioso omelete de café da manhã: eu, a Melancolia, a Solidão, a Carência e a Idealização, sem ser incomodadas pelo Romantismo que tentara entrar.  
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Presente de agradecimento

A história que vou contar agora não é dessas que chamam a atenção de grandes multidões. É algo simples, coisa de poucos segundos apenas, que ocorreu em um contexto absolutamente minúsculo quando comparado a este mundo cheio de gente. Provavelmente a única pessoa que se encantará com a beleza desta história será eu mesma. Ainda assim, foi uma dessas poucas coisas que acontecem em um instante, mas ficam por longo tempo insistindo meigamente lá dentro: "Faça-me palavras! Faça-me palavras! Mas com cuidado e capricho, por favor". Por isso, aqui estou eu, para realizar a exigência desta memória tão doce e delicada. Então, se posso me alegrar em ter um pouco da sua atenção dedicada a esta pequena lembrança, entre, sente-se, e sinta-se à vontade.
Nesta história há dois personagens: um menino e uma menina. Mas sabe, um menino e uma menina nunca são apenas um menino e uma menina. Especialmente quando compartilham um desses momentos mágicos em que cada um está completamente consciente do outro. É sobre um momento desses que vou contar. Assim, que comece a história...

Na noite sobre a qual conto, nenhuma estrela podia ser vista no céu, apesar do desejo da menina e do menino. Mas tudo bem. Ter o humor dependente da aparência do céu não é lá uma das melhores ideias que existem de qualquer jeito. Mas talvez foi exatamente isso o que aconteceu, pois do silêncio que reinava até então entre os dois, a menina subitamente mencionou em voz baixa uma aflição, uma dessas que doem mesmo, e que vivera certo dia no passado. O menino ouviu. Levantou os olhos para a menina. Os olhos da menina, porém, não viam mais o que estava à sua frente, mas o que estava lá atrás no tempo. E a cada milésimo de segundo que se passava, ela mergulhava cada vez mais fundo no breu daquela lembrança. Foi então que, quando ela começou a se perder naquele turbilhão de memórias sofridas, imagens condenáveis e emoções cortantes, a menina sentiu algo puxando-a de volta à realidade e tirando-a de lá.
Ela olhou. Eram as mãos do menino. Mãos quentes, gentis, que agora seguravam as pequenas mãos da menina. O menino não disse uma palavra, mas foi como se, ao segurar as mãos da menina, estivesse dizendo, "Venha. Volte para cá. Olhe à sua volta… Você não está mais onde estava. Não é mais o passado. Olha. Eu estou aqui com você, agora."
A menina olhou para o menino. Sorriu. Com a esperança de que ele entendesse que com aquele sorriso ela dizia, "Obrigada. Muito obrigada. Por sua sensibilidade, por sua atenção… Por estar aqui comigo... Muito obrigada."

Talvez seja tudo invenção minha. Sei lá se era isso o que o menino pensava quando segurou as mãos da menina, ou se o breu daquela lembrança puxava a menina tão rapidamente como descrevi. Mas de uma coisa tenho certeza: se o menino não entendeu o que aquele sorriso dizia, a menina deu um jeito dele entender, pouco tempo depois.
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Por que as flores voltam

Um garoto gostava de uma menina que gostava de flores. Ele a viu pela primeira vez em uma terça-feira em que decidiu fazer um caminho diferente para voltar para casa, passando por um parque. E foi em um canto desse parque que ele a viu, sentada em um banco branco, usando um vestido também branco e de cabelo solto. O garoto sabia que a menina gostava de flores porque aquele banco era cercado por elas, e a menina ficava o tempo todo olhando para elas. Então o garoto passou a fazer esse caminho toda terça-feira só para vê-la ali, sentada com os pés em cima do banco ou deitada de barriga para baixo com os pés para cima, olhando uma flor sortuda que estivesse por perto.
Várias semanas se passaram, vários passeios pelo parque, vários segundos da menina com as flores. Um dia, porém, o garoto foi ao parque e as flores não estavam mais lá ao redor do banco. E, como esperado, a menina também não. Por um segundo, o garoto ficou sem saber o que fazer ou o que pensar, mas então teve uma ideia. Na próxima terça-feira, ele mesmo compraria flores e as colocaria em cima daquele banco. A menina com certeza voltaria, como por mágica, como se ela surgisse a partir das flores e do banco, somente às terças-feiras. Quem sabe fosse isso mesmo. Por isso o vestido dela era branco: porque o banco o era.
Na semana seguinte, o garoto fez conforme o plano: comprou um buquê de pequenas flores amarelas, colocou-o em cima do banco e esperou de longe. Viu a menina chegar (então isso significava ela não era uma criatura mágica do parque...), ver as flores em cima do banco, olhar ao redor, pegá-las com cuidado e deitar como sempre. Ela parecia feliz abraçada às flores que o garoto escolheu. Essa visão o alegrou tanto que o garoto prometeu a si mesmo que faria isso toda semana!
Por um longo tempo, o garoto colocou flores em cima do banco, cada terça-feira um buquê diferente, apenas para observar a menina por alguns segundos. Voltava para casa e ficava horas pensando nela. Devia ser a filha mais nova da família, com cinco irmãos, e se dava muito bem com o terceiro. Com certeza sua fruta favorita era manga e sabia cozinhar uma ótima omelete. Talvez tivesse um cachorro. Preferia gatos, mas o terceiro filho gostava muito do Noz Moscada (era esse o nome do cão), então ela aprendeu a gostar dele também.
De tanto vê-la e imaginar como ela era, o garoto sentia que conhecia muito bem a menina. Talvez foi por isso que em uma certa terça-feira, ele se aproximou naturalmente dela, que estava deitada no banco, e perguntou:
- E se chover?
A menina voltou os olhos na direção do garoto e respondeu, com um sorriso frágil e inocente:
- Aí eu me molho.
O garoto achou a resposta satisfatória e continuou:
- Como vai o Noz Moscada?
- Quem? – ela perguntou, inclinando a cabeça.
O garoto se lembrou então de que ele mesmo que inventara isso, e pela primeira vez pensou que as chances do irmão dela e ele terem tido a mesma ideia de nome para o cachorro eram mesmo muito pequenas.
- Posso sentar?
- Uhum – a menina murmurou, sentando-se para dar espaço para o garoto.
Ele se sentou ao lado da menina, e ficou olhando para os próprios pés. A menina parecia não se incomodar com o silêncio, apenas ficava brincando com o buquê do dia, então o garoto decidiu ser o primeiro a falar:
- Tem uma coisa que eu ainda não entendo. Por que você gosta tanto de flores?
A menina olhou séria para o garoto e respondeu:
- Porque elas são bonitas e estão sempre no mesmo lugar quando preciso delas. Diferentemente das pessoas.
- Aconteceu alguma coisa com os seus irmãos? – ele perguntou.
- Eu não tenho irmãos – ela respondeu confusa.
Só então o garoto percebeu como tudo aquilo que estava vivendo não fazia sentido algum! Apaixonara-se por uma menina que via durante alguns segundos por semana e nem reparou que não sabia nada de verdade sobre ela, ele que inventara tudo! Passara meses admirando-a sem que ela soubesse. Estava agora sentado ao seu lado, falando coisas que provavelmente a faziam pensar que ele era louco! Esse pensamento o atormentou tanto que ele se levantou e fez menção de ir embora, mas então ouviu a voz fraquinha da menina atrás de si:
- É você quem deixa as flores aqui, não é? – o garoto se virou e viu o rosto da menina ficar vermelho - Obrigada.
- P... por nada... – ele sentou novamente - Você sabe quem eu sou?
- Um garoto que passa por este parque toda terça... Um garoto gentil que deixa flores de que eu gosto muito. Faz tempo que sei quem você é.
O que a menina falou fez o garoto ficar tonto de alegria, o que torna compreensível suas próximas palavras, ditas sem pensar:
- Eu gosto muito de você. Deixe-me ser como as flores. Eu quero estar sempre aqui quando você precisar.
Ela sorriu, mas com mais tristeza do que alegria:
- Você não sabe o quanto já me ajudou. Mas eu não posso.
- Você já tem alguém? – ele perguntou, com a voz falhando.
- Não, não é isso. Eu apenas não posso. Não me espere. Não sei até quando poderei voltar.
Nesse momento, os olhos da menina começaram a brilhar de lágrimas, e ela saiu correndo do banco. O garoto continuou sentado lá, pois sentia que nenhuma força lhe restava no corpo. Ele só foi embora quando o parque estava fechando, quase à noite.
Na terça-feira seguinte, o garoto colocou flores em cima do banco como sempre. Mas a menina não apareceu. Nem na semana seguinte. Nem na outra. Nem em todas as outras terças-feiras que se seguiram.
O tempo passou, e o garoto já não era mais um garoto e a menina há tempos não era mais uma menina. Mas nem mesmo em uma terça-feira o banco deixou de receber um lindo buquê de flores. Muitas vezes o garoto pensou, com gratidão e luto, se o tempo havia esperado eles conversarem ao menos uma vez para então finalmente levar a menina embora.
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Tempo livre

Era uma vez um Príncipe que dançou com uma donzela em um baile e se apaixonou. Quando o relógio bateu meia-noite, ela saiu correndo, deixando um sapatinho de cristal nas escadarias do castelo. O príncipe saiu em busca da dona do sapato, a encontrou e eles se casaram. A dama, porém, apenas desejava ir ao baile, não se casar, e assim, abandonou o Príncipe pouco tempo depois. Ele, arrasado, foi andar na floresta para esquecer sua tristeza. Encontrou uma torre sem portas, apenas uma janela bem lá no alto, onde viu uma jovem cantando. Aproximou-se, se apresentou, e a jovem jogou seu longo cabelo para que ele subisse. Visitou-a várias vezes, até que um dia a donzela perguntou à sua mãe por que seu vestido estava apertando tanto na cintura. A mãe, que na verdade era uma bruxa, enfureceu-se pela filha se relacionar com um homem, e jogou os dois num deserto, onde a jovem morreu ao dar à luz a gêmeos, que saciaram a fome do Príncipe. Assim, ele conseguiu achar o caminho de volta ao castelo. Mal entrou e encontrou a bruxa, furiosa, pois ficara sabendo da morte de sua amada filha, e transformou o Príncipe em sapo.
Um dia, uma bola dourada caiu na lagoa onde o Príncipe sapo estava. Logo atrás veio uma menina histérica, e o Príncipe disse que pegaria a bola do fundo da água se a garota lhe desse um beijo. Acordo feito, o Príncipe lhe devolveu a bola, mas a menina, enojada, acabou atirando-o contra um muro. Isso fez com que o sapo voltasse à forma de príncipe e eles se casaram. Viveram felizes até o Príncipe encontrar um castelo com uma princesa adormecida no alto de uma torre. Tomado por nostalgia, ele a visitou e se apaixonou. Passou a retornar à torre toda semana. Poucos anos depois, a maldição da princesa se desgastou e se desfez. Ela acordou e se espantou ao ver um desconhecido tão próximo de si, o fez falar quem era e se espantou ainda mais ao saber que ele era casado. Não perdeu tempo e contou à garota que seu marido a traía. Eles se separaram e o Príncipe voltou a perambular cabisbaixo pela floresta.
Dessa vez, encontrou a mais bela das donzelas. Tinha a pele branca como a neve, o cabelo escuro como ébano e os lábios vermelhos como sangue. Também estava adormecida, mas esta, diferentemente da outra, acordou com um beijo e eles se casaram. Foram felizes de verdade, tiveram uma filha, e tudo ia bem. Porém, a donzela adoeceu e, antes de morrer, consciente da própria beleza, fez o Príncipe prometer que só se casaria com uma mulher tão ou mais bonita que ela. Muitos anos passaram sem que o Príncipe encontrasse alguém. Percebeu então que a única pessoa que se encaixava em tal padrão era sua filha, que acabou fugindo de casa com medo de ter que se casar com o pai.
Triste como nunca, voltou para a floresta à procura de outra. Não esperava encontrar a bruxa, ainda ressentida, e foi transformado em uma fera grande e peluda. Sem bolas douradas para resgatar nem princesas adormecidas impossibilitadas de escolherem seus príncipes, decidiu enganar uma menina saltitante em um capuz vermelho que encontrou pelo caminho e a comeu. Enquanto fazia a digestão em seu castelo, teve a privacidade invadida por uma camponesa irritante que de alguma forma desfez a maldição do Príncipe, ele voltou a ser príncipe e, novamente, se casaram. O Príncipe a amou como a nenhuma outra e pensou que desta vez seria feliz para sempre.
Mas o mundo é justo e ele foi traído. Matou a esposa e trancou seu corpo esquartejado em uma sala do castelo. Não confiava mais em mulheres e se deliciava ao confirmar a desonestidade feminina sempre com o mesmo teste: casava com uma qualquer do reino, dava-lhe as chaves de todos os cômodos do castelo, mas a proibia de entrar no quarto da moça esquartejada. Todas eventualmente entravam, se assustavam, e derrubavam as chaves, que manchavam de sangue. O Príncipe, ao ver a marca de sangue, matava a esposa e a jogava lá. Uma nova esposa, porém, colocou as chaves em uma estante antes de abrir a porta e não foi descoberta pelo Príncipe. Quando teve a oportunidade, a esposa o empurrou para dentro do quarto e o trancou lá. Os pedaços esquartejados das esposas se juntaram e torturaram o príncipe até que ele implorasse pela morte.
Então o torturaram mais um pouco. Aí o mataram. E assim o mal chegou ao fim.

Histórias citadas, na ordem em que aparecem: Cinderela, Rapunzel, A Princesa e o Sapo, Bela Adormecida, Branca de Neve, Pele de Asno, Chapeuzinho Vermelho, A Bela e a Fera, Barba Azul
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Wish (final de 2008)

Era uma vez uma princesa chamada Wish, que vivia tranquilamente em seu imenso castelo. Apesar de ele possuir mais de cento e cinquenta cômodos, era no jardim onde ela passava a maior parte do tempo, dançando e admirando as flores e o céu. Nunca passava dos portões do castelo pois a rainha a proibia, dizendo que o mundo era um lugar cruel onde todos eram infelizes. A princesa acreditava e obedecia.
Certo dia, enquanto colhia crisântemos próximos ao portão do castelo, notou um rapaz de vestes luxuosas observando-a de longe. Assim como fazia com tudo que estava além dos portões, o ignorou e continuou sua tarefa. Porém, o rapaz se aproximou, e a princesa, intimidada, virou as costas e começou a fazer o caminho de volta ao castelo.
"Espera!", disse o rapaz, agora na frente do portão. "Qual o teu nome?"
A princesa odiava o hábito que as pessoas têm de não responder as suas perguntas, então se virou com um sorriso forçado e respondeu, "Wish".
"Wish, estou encantado com tua beleza. Já há alguns dias te observo, dançando com os cabelos soltos neste jardim, como uma pétala de rosa ao vento. Venha comigo, te levarei ao meu reino e farei com que sejas a princesa mais feliz que já existiu!"
"Estás louco? Não existe felicidade fora do meu castelo", afirmou a princesa convicta.
"Por que acreditas em tal mentira? Não vês que o mundo é maravilhoso? Especialmente quando se tem alguém com quem dividi-lo", confidenciou com um sorriso.
"Minha mãe me contou tudo sobre o mundo. Ela não mentiria para mim."
"Mas como serás feliz, se está sempre sozinha?"
Wish, indignada, respondeu, "Eu sou feliz. E tenho a companhia do Sol durante o dia, da Lua e das Estrelas durante a noite e das flores sempre que quiser."
"No meu reino, poderás ter o sol durante a noite, e a lua e as estrelas durante a manhã. Mandarei plantar todos as espécies de flores existentes e ordenarei servos para que elas estejam sempre abertas e perfumadas."
A princesa perguntou surpresa, "O que dizes é possível?"
E o príncipe respondeu, "Com o poder que possuo, sim."
Wish começou a andar em direção ao rapaz, tomada de uma mistura de curiosidade, medo e dúvida.
"Conte mais sobre o teu reino."
"Bem, há um rio mais azul que o céu, o gramado é do verde mais puro e os dias são claros como em nenhum outro lugar. Todos estão sempre sorrindo e fazendo algo útil ao reino. Em pouquíssimos lugares vi tanta alegria e paz."
"Então... existe felicidade... fora do meu castelo...?", sussurou, segurando com força as grades do portão.
"Sim. Venha comigo e verás. Eu prometo que serás feliz e que estarei sempre ao teu lado.", sussurrou de volta, tocando o rosto delicado da princesa. "Amanhã voltarei para te buscar." E montou em seu cavalo e sumiu por entre as árvores.
A princesa voltou ao castelo, reuniu toda a sua coragem e anunciou, "Eu desejo conhecer o mundo."
A rainha ficou espantada, "Estás se sentindo bem? Já não te alertei sobre os perigos do mundo?!"
"Não sou mais criança. Sei que o mundo não é esse lugar horrível que tanto insistes em dizer que é. Eu desejo conhecê-lo".
O rei fechou os olhos e disse firmemente, "Tens razão. Não és mais criança. Já é tempo de contar a verdade."
A princesa ficou confusa, "Do que estás falando, papai?"
Ele explicou, "Quando eras pequena, uma fada invejou tua beleza e lançou uma maldição sobre ti. Se fores tocada por um príncipe, morrerás em poucas horas. Por isso nunca a deixamos sair do castelo."
A princesa empalideceu e lágrimas encheram seus olhos. Não conseguiu dizer nada, apenas correu para o seu quarto e lá permaneceu, chorando, até a meia noite, quando seu coração se cansou e o seu quarto silenciou.
No dia seguinte, o príncipe voltou montado em seu cavalo. Não a encontrou, então seguiu em frente e a esqueceu.