Sete vidas - Parte 1 / 4

Sr. Meinhas era o meu gato. Ele era completamente preto, exceto pelas patas brancas. Por isso Sr. Meinhas. Ele não sabia porque era um gato, mas o Sr. Meinhas era o meu par ideal. Eu não gosto de pessoas, mas se o Sr. Meinhas fosse uma pessoa, eu iria me casar com ele e viver pra sempre com ele. Ele não gostava de sair de casa, e também não gostava de outras pessoas além de mim. Em dias de chuva ele ficava olhando pela janela, e tenho certeza de que tinha pensamentos mais profundos do que os de metade da população mundial. Sempre deitava quietinho ao meu lado quando eu lia um livro, e quando eu o abaixava ele se deitava em cima dele, o que me faz pensar que ele também os lia e gostava deles. Ele também devia gostar de poesia, pois me ouvia com muita atenção quando eu recitava alguns poemas. O Sr. Meinhas gostava de ficar sozinho às vezes, e eu já deixava a minha gaveta de blusas aberta para ele poder entrar lá e se enrolar na lã. E é difícil não gostar de alguém que fica tão feliz deitado ao sol, ainda que esse alguém seja um gato e que ele se lamba. O Sr. Meinhas percebia quando eu estava triste e vinha me fazer companhia ao lado do meu travesseiro.  Às vezes ele tomava o meu chá. Fazê-lo ronronar era muito gratificante. Bastava olhar para seus olhos para saber que dentro dele havia um outro universo, íntimo e particular, que eu conseguia vislumbrar em raras ocasiões em que ele permitia que eu o visse desprevenido. Eram momentos curtos, encarávamos-nos por um longo segundo, e então ele retomava sua postura orgulhosa e saía andando com o rabo levantado. 

Eu adotei o Sr. Meinhas quando ele ainda era um filhote, e eu, uma adolescente de 17 anos. Vivemos juntos por quase dois anos, até que um dia ele caiu da janela. Moro no décimo andar com o meu pai. Às vezes eu acho que meu pai que o jogou pela janela. Ele não gostava do Sr. Meinhas porque o Sr. Meinhas olhava para ele com desdém, e meu pai tenta negar que se sente inferior aos outros por ter sido traído pela esposa, minha mãe. Eu acho que se você frequentemente fala que não é inferior a ninguém por causa disso, você na verdade sente que é. Eu não menosprezo o meu pai por isso, mas se ele tiver jogado o Sr. Meinhas pela janela, eu também o abandonaria e iria viver com outra pessoa, ou sozinha, já que eu não gosto de pessoas, só do Sr. Meinhas, que não é uma pessoa e estava morto.

Depois que o Sr. Meinhas caiu da janela, eu fiquei completamente só. Meu pai perguntou se eu queria um cachorro, e eu fiquei tão ofendida com a pergunta que não falei com ele por uma semana inteira. Que foi quando o apartamento do mesmo andar que o nosso foi alugado e o novo morador chegou com as suas coisas. 

1 comentários:

Gugu Keller | sábado, 16 março, 2013

Além de tocante, muito bem escrito!
GK

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