Sete vidas - Parte 2 / 4

À noite, meu pai me pediu para descer para pegar a correspondência, porque fazia uma semana que eu não saía de casa porque eu não queria sair de casa porque o Sr. Meinhas tinha caído da janela, e o meu pai falou para eu "parar de ser fresca e descer pra pegar a correspondência pelo menos". Não respondi, ainda estava muito brava com ele, mas o obedeci mesmo assim. Assim que saí e fechei a porta do nosso apartamento, o 102, percebi que havias várias caixas na frente da porta do 101. Os antigos vizinhos eram barulhentos e ficavam acordados até tarde, e eu fiquei feliz quando eles foram embora, então senti um peso no peito e o mundo rodar quando vi aquelas caixas de mudança na frente do 101. Chamei o elevador e torci para que chegasse logo, mas ele estava no S2 e foi parando em alguns andares. Eu esperei bem parada, porque não faço aquela coisa de apertar o botão do elevador várias vezes quando estou com pressa. Isso é o número 74 da minha Lista De Coisas De Que Não Gosto Nas Pessoas, porque o elevador não vai chegar mais rápido se você apertar o botão repetidamente.

Estava pensando nisso quando a porta do 101 abriu. Apareceu um garoto do outro lado da porta, que me olhou de volta. Ele tinha cabelo preto e bagunçado, uns vinte centímetros a mais que eu, e estava de calça jeans e blusa xadrez, o que achei estranho porque não estava frio. Ele disse:

- Oi.

Eu respondi:

- Oi.

Ele sorriu um pouco.

- Agora eu moro aqui.

Eu não sorri de volta.

- É.

Fizemos silêncio.

- Eu me chamo Thales.

- Okay.

Ele sorriu mais e apoiou um braço no batente da porta.

- Você sempre sai de pijama?

- Eu não vou sair.

- Você sempre sai do seu apartamento de pijama?

- Eu estava de pijama e saí do apartamento.

- Seu shorts é bastante curto.

- Tá quente.

- Você tá descalça.

- Você tá de meias.

- Sua regata é meio transparente.

- Ela é.

- Eu não gosto de vegetarianos que comem carne de soja.

- Eu também não.

- Também não gosto quando perguntam onde está a salada do meu prato.

- Porque ninguém pergunta pra um vegetariano onde está a proteína dele.

- Exatamente!

Ele abriu mais o sorriso quase em uma risada, tirou o braço da porta e colocou as mãos nos bolsos.

- Você é legal.

- Obrigada.

- Qual o seu nome?

- Linh.

- Lin...

- É com "H" no final.

- Como você pode saber que eu falei sem "H" no final?

- Porque você não falou com "H" no final.

- Mas não faz diferença sonoramente.

- Meu nome é com "H" no final.

- Tá bom. Linh.

- Isso.

Dessa vez ele riu e cruzou os braços.

- Quantos anos você tem, LinH?

- Dezenove.

- Eu tenho vinte e três.

- Okay.

- Você gostou de como eu falei seu nome com o "H" maiúsculo?

- Não, meu nome só tem o "L" maiúsculo.

- Tá bom, não faço mais.

- Okay.

Pausa. Ele deu alguns passos para fora da porta, desviando das pilhas de caixas no chão.

- Você responde qualquer coisa que eu perguntar?

- Pode ser.

- Tá bom. Então... Você está triste?

- Estou.

- Por quê?

- Meu gato caiu da janela uma semana atrás.

- Ué, e ele morreu?

- É claro que ele morreu.

- Mas gatos têm sete vidas.

- Isso não é engraçado.

Ele parou de sorrir.

- Você quer entrar um pouco? Posso ler uma história pra você que vai te fazer sorrir.

- Eu tenho que descer pra pegar a correspondência.

- Mas você não quer descer pra pegar a correspondência, quer? O elevador está aí desde que eu falei do seu shorts e você só está aí parada.

Demorei para responder, e quando o fiz, foi um murmúrio:

- Qual é a história?

- "Quero meu chapéu de volta", do Jon Klassen.

Minha alma inteira deu um pulo. Nunca havia sentido aquilo antes, mas imagino que seja o que você sente quando descobre que mais alguém gosta do mesmo livro estranho que você, aí você se sente mais viva e pensa que por causa do livro em comum, vocês deveriam ser amantes. Dei um passo para frente e prestei bastante atenção aos olhos verdes quase amarelos dele. Eram escancaradamente sinceros, a ponto de me constranger, mas ao mesmo tempo tinham algo de dissimulados, o que me assustou um pouco. Foi a voz completamente equilibrada dele que me fez voltar ao fluxo normal do tempo:

- Conhece?

- Go-gosto muito desse livro.

- Então a gente devia ser amigos.

- É. Amigos... (e não, hm, amantes, como eu pensei...)

Ficamos nos olhando. 

- Então entra, vem, venha conhecer o novo apartamento do seu novo amigo e ouvir a história do urso que perdeu o chapéu! Falta arrumar muita coisa, mas tudo bem. Posso até te fazer um chá!

Um amigo... De repente tinha um amigo que era uma pessoa. 

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