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A busca

A personagem era uma garota de estatura mediana, porque é mais provável que ela fosse de estatura mediana do que especialmente alta ou especialmente baixa. Por isso chama média né. Okay, não necessariamente, o mais correto seria dizer moda, mas eu tirei 2,5 ou menos na prova de Estatística, então finjamos que o que eu falei tá certo. O cabelo dela pode ser do jeito que você quiser imaginar, assim como os olhos, o nariz, os dedos, os cotovelos e o umbigo. Não, retiro essa última parte, o umbigo dela não era pra fora. Eu não tenho nada a ver com o umbigo dela sendo pra fora ou não, simplesmente não era.
Essa era a personagem. Sinto-me tentada a dizer que o lugar era uma floresta, mas de floresta e árvores já escrevi demais, então que o lugar seja Paraty. Se você não sabe onde fica Paraty, o lugar é Jericoacoara. Se você também não sabe onde fica Jericoacoara, procure no Google que eu não quero explicar e me desviar da história.
Agora que já falei da personagem e do lugar, vou começar a contar a história. A história começava antes, mas vou mostrar mais ou menos do meio, aí é só subir na maria-fumaça em movimento. Juro com os dedos cruzados nas costas que não vai ser difícil, é uma maria-fumaça, não um metrô. 
:
- Não se preocupe, garotinha, eu vou te ajudar a te encontrar!
- Oh, muito obrigada!
- Vamos ver... Como você é?
- Como eu sou? Eu não sei como sou!
- Mas como você quer achar uma coisa que você nem sabe como é?! É boba, é?
- Bobo é você. 
- Eu estou tentando te ajudar.
- Tá bom, tá bom... Eu... Eu acho que sou... Ah, eu não sei! Não sei nem que forma que tenho, nem se tenho uma forma, ou se é como vapor, ou vapor invisível! Não sei se tenho cor ou cheiro... Sei apenas do meu invólucro, do meu invólucro sei. O que procuro, não sei como é.
- Assim fica difícil! Não vou te ajudar mais.
Então a garota continuou andando por Paraty ou Jericoacoara. Era relativamente cedo, se bem que a garota não acordava tão cedo assim, mas posso dizer que ainda era de manhã, e tinha sol no céu. Ela obviamente não tinha passado protetor solar antes de sair de casa, porque passar protetor dá preguiça. Mas não se arrependia de não ter passado protetor, porque sabia da preguiça que dava, então ela apenas continuava a andar, procurando o que havia perdido no meio da noite. Hora ou outra ela encontrou um Coelhinho marrom, tão bonitinho e de olhos tão grandes que dava vontade de chutar. Teria-o feito, se ele não tivesse falado primeiro:
- Olha uma garota! O que você tá fazendo, hein?
- Eu acho que me perdi.
- Ah, neste caso, você está nas proximidades de Paraty ou de Jericoacoara! 3km pra lá dá no centro da cidade.
- Não, não é isso! Quero dizer que eu perdi a mim mesma. 
- ...That`s weird.
- Acho que fugi no meio da noite, não sei. Lembro que me falaram alguma coisa ontem à noite que me fez querer ir passear, e eu deixei. Geralmente eu volto antes de acordar, mas dessa vez, a manhã veio e eu não voltei. Agora eu não sei onde eu estou. 
- Se você não está aí... Então quem é essa com você? - o Coelhinho começou a gargalhar, e teria saído saltitando se a garota não o tivesse chutado primeiro. 
Fazer o quê, continuou andando, não podia voltar à sua vida sem ela mesma né. Olhou atrás de troncos finos, cavocou a areia, forçou os olhos para ver o horizonte... E nada. Lá pelo meio dia, uma da tarde, a garota estava com tanta sede que foi beber água em uma lagoazinha que encontrou por lá. Acho que era uma poça bem grande na verdade, mas não conte nada para a garota. Ao se debruçar sobre a lagoazinha, viu uma coisa na água e gritou:
- Ei! Você sou eu?!
E a coisa na água respondeu:
- Se você acha que eu sou você, você deve estar muito perdida mesmo.
- Ah, é, me enganei. É que foi de relance, tá? Mas você é só o invólucro. Não, nem o invólucro você é.
- Não sou mesmo.
A garota bebeu a água e foi embora. Estava quase desistindo de procurar, então começou a fazer o caminho de volta para casa. No caminho de volta, se deparou com um Espantalho sábio, o que foi muito estranho, porque espantalhos não são sábios e porque não havia espantalho nenhum no caminho de ida.
- Nem precisa falar! Eu já sei o que você busca... 
- Ai, obrigada! Escrever Falar dá tanta preguiça! 
- Bem sei, minha cara, bem sei... E escute-me! Digo e disso tenho certeza: não há necessidade de continuar apreensiva. Você vai encontrar o que busca.
- Como você sabe?!
- Porque isto é uma história. Histórias têm começo, meio e fim. Esta história também terá um fim. E ninguém se daria ao trabalho de escrever uma história sobre busca do próprio eu sem concluí-la de maneira bonita. 
- Oh, acho que você tem razão!
- Eu tenho.
- Muito obrigada, seu espantalho!
E a garota continuou a fazer o caminho de volta, feliz com o seu novo destino. Talvez fosse assim que eram as coisas: era só deixar de procurar e de se preocupar, que ela encontraria aquilo que estava buscando! E essa seria a moral da história.
Quando a garota estava quase chegando em casa, veio correndo em sua direção aquele primeiro ser que disse "Não se preocupe, garotinha, eu vou te ajudar a te encontrar!" Ele estava segurando uma boneca de pano, muito parecida com a garota, especialmente pela estatura proporcionalmente mediana.
- Olha, garotinha, olha! Eu te achei! Aqui está! Você!
- Ahm... Essa não sou eu não.
- É sim!
- É não.
- Mas olha como é parecida!
- Mas não sou eu. Andei pensando viu, e acho que
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A Menina Triste e o Passarinho Solitário

Um dia a Menina triste falou:
- Passarinho, Passarinho, eu gosto muito de você!
E o passarinho solitário respondeu:
- Menina, também gosto muito de você!
- Quero ficar para sempre com você, Passarinho!
- Também quero ficar com você para sempre, Menina.
Então a Menina triste pegou um pedaço de barbante e amarrou as asas do Passarinho.
- Assim você não vai voar para longe e estaremos sempre com o outro!
A Menina triste sorriu satisfeita, pensando que com isso ela não seria mais triste e o Passarinho solitário não seria mais solitário. E os dois passaram muitos dias juntos, dizendo juras de amor um ao outro.
No entanto, um dia a tristeza da Menina voltou.
"Será que o Passarinho fica aqui porque ele gosta mesmo de mim ou porque não pode mais voar?", ela pensou.
Então a Menina triste desamarrou o barbante das asas do Passarinho solitário, e o Passarinho saiu voando e cantando pela janela.
A Menina triste começou a chorar e berrar. E o Passarinho solitário voltou para dentro de casa no mesmo instante.
- Desculpe, Menina! Por favor, não chore! É que o céu é tão bonito que me dá vontade de voar. O que posso fazer para você não ficar mais triste?
A Menina triste soluçou algumas vezes mais e então pegou uma tira de pano para cobrir os olhos do Passarinho.
- Assim você não vai ver o céu e não vai ficar com vontade de voar para longe!
A Menina triste sorriu, pensando que com isso ela não seria mais triste. E os dois passaram muitos dias juntos, dizendo juras de amor um ao outro.
Porém, certo dia, a Menina voltou a ficar triste.
"E se a venda cair dos olhos do Passarinho e ele vir o céu e voar para longe?"
Então ela comprou uma gaiola e o colocou com cuidado lá dentro. E os dois passaram muitos dias juntos, ela olhando seu Passarinho vendado e ele paradinho lá dentro da gaiola.
Quanto mais dias passavam, mais triste a Menina triste ficava.
"Será que eu gosto mesmo do Passarinho?", ela se perguntou.
Então a Menina triste abriu a porta da gaiola e tirou a venda dos olhos do Passarinho. Mas o Passarinho continuou paradinho onde estava.
- Você não vai voar para longe?
- Acho que me acostumei a ficar aqui. É confortável… Não tenho que ir atrás de comida, nem bater as asas. Bater as asas pode ser cansativo às vezes.
Não sabia por quê, mas de repente a Menina triste ficou também muito brava. Ela pegou o Passarinho solitário e o colocou no parapeito da janela.
- Voa.
- Não quero.
- Voa.
- Não.
- Voa! - e deu um empurrãozinho.
O Passarinho solitário pôs-se a bater as asas e voou para longe. A Menina triste ficou olhando ele ficar cada vez menor e menor, até ficar tão pequeno que ela não conseguia mais vê-lo.
E os dois passaram muitos dias sem o outro.
A Menina triste começou a brincar fora de casa com outras crianças que gostavam muito de brincar com ela.
O Passarinho solitário conheceu muitos outros passarinhos que lhe ensinaram novos jeitos de voar.
Um dia, quando a Menina triste não era mais triste e o Passarinho solitário não era mais solitário, eles se encontraram por acaso em uma esquina. E a Menina e o Passarinho perceberam que agora sim poderiam ser grandes amigos.
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A Desordenada História da Menina que Virou uma Boneca

Uma vez era uma menina. Quando deu a hora de ser garota, disse assim não, garota não, muito sem graça isso, quero o bonitinho, quero o doce e submisso, quero minha vida o artificialmente idílico. E deu que passava por ali um fragmento de espelho com asinhas purpurinadas que ouviu o seu pedido. Então aqui está um vestidinho com rendas, sapatinhos pretos e uma meia pra deixar um teco das coxas aparecendo. Notou cabelos sedosos para agradar a quem tocá-los, olhos brilhosos com longuíssimos cílios para agradar a quem fitá-los e lábios macios para agradar a quem acariciá-los. Notou também articulações de plástico nos joelhos e nos cotovelos, que teria que esconder, os movimentos estavam duros e conseguia ficar em belas posições. Plim, feito. Boneca, boneca. Mas dá trabalho se manter assim, ok? Ok, ela adorou, tudo bem se dá trabalho, e saiu cantando alto no meio da rua: O amor é meu, o coração é meu, de mão beijada entrego a quem quiser.

Quem quer meu amor, quem quer meu coração? É de graça, de graça, a quem quiser! Venham, venham pegá-lo, é de graça! Opa, um menino que passava disse, de graça mesmo? Eu quero, me dá? Te dou! Tinha aparência de bom menino, e não deu muito tempo viu as articulações de plástico e descobriu que era uma boneca, e não uma menina. Oba, bonecas servem para brincar. E a outra fazia papel de boneca muito bem mesmo: vai pra lá, e ela ia, vem pra cá, e ela vinha, faça isso, ela fazia, diga isso, ela dizia, deixe-me isso, ela calada permitia. E a brincadeira era uma dessas violentas de criança que não sabe limite de brincadeira, e um braço ou uma perna sempre acabavam arrancados, ou um olho saía pra fora, isso quando não entrava pra dentro. 

Espelho, espelho, isso dá muito mais trabalho do que eu imaginei! Fosse só cuidar do cabelo, passar creme no corpo todo e verniz nos olhos e lábios, mas isso está dando trabalho demais, não paro de ter que me consertar e não tá mais dando pra consertar em cima do conserto dos estragos antigos! Nem a cola quente resolveu dessa vez e olha agora, agora tenho um braço e um ombro que o braço não tá no ombro, e aquelas unhas tiraram a tinta do meu ventre, espelho, espelho, o que faço? O fragmento de espelho com asinhas purpurinadas olhou e disse assim: se vira, meu amor, e você sabe que é meu amor. Você desejou e eu concedi e agora você só está sendo é uma ingrata. E a boneca teria chorado se bonecas pudessem chorar, e chorou-se-pudesse-chorar até não se aguentar mais, e chegou até a jogar o braço sem o ombro contra a parede que por lá estava para ver pedaços seus estilhaçados no chão que do lado de fora do mundo ficava. 

Aí um dia chegou uma noite, e na noite chegou uma luzinha que pensou que fosse um vagalume mas não era, era uma luzinha mesmo, que de nada tinha de inha, mas parecia uma luzinha. E a luzinha aqueceu a boneca e os pedaços do braço da boneca se refizeram no ar, e foi de volta para o ombro que estava sem braço. E naquela noite era menos boneca. Soube disso porque uma lágrima plena de alegria e culpa e alívio e tristeza apareceu de verdade: agora podia chorar de verdade. E sabia de mais uma coisa que poderia fazer agora que era menos boneca. 

Devolve que é meu, eu te dei mas ainda é meu e eu quero de volta, e ele respondeu que não, não, não. Não que não ia devolver, era não que nunca foi dele. Você mentiu, você disse que ia me dar seu amor e seu coração mas você nunca me deu, você me deu outras coisas suas, mas eles dois, nunca. E ela virou os olhos pra dentro e viu que era verdade, estavam o amor e o coração bem dentro dela, e ela sorriu ao vê-los na verdade intocados, ainda que tivesse outras partes que ainda tivesse que consertar. Sentiu um gosto amargo e gostoso na boca e disse pra ele, parabéns, você fingiu muito bem, você realmente tem aparência de bom menino, e agora o que você me quebrou eu vou te quebrar, ninguém mandou aceitar a oferta de uma boneca, que tipo de ligação poderia uma boneca lhe dar? Abandono-te. E foi embora feliz e leve e livre e sem dono. 

Queria ser uma mulher, mas não se vai de boneca a mulher direto assim não, primeiro vai de volta pra menina e depois pra garota e depois pra moça e por fim vai pra mulher, desfazendo-se aos poucos das coisas de boneca. As articulações de plástico haviam sumido, agora tinha cotovelos e joelhos de carne, assim como todo o resto do corpo. O cabelo não era mais artificial, então os fios caíam e cresciam, e os lábios não eram mais envernizados, então eles secavam de vez em quando também. O lado de fora é sempre o mais fácil de mudar, o difícil é se desfazer das coisas do lado de dentro. Uma vez mais era uma menina. Deu um tempo e começou a ser também garota. E decidiu que não queria mais meninos-donos, e mudou os versos que antes cantava, acrescentando uma palavrinha que significava muito mais do que a palavrinha: O amor é meu, o coração é meu, de mão beijada entrego a quem eu quiser. 
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Relato de uma manhã

Abri os olhos, e vi meu quarto iluminado por uma pálida luz branca que atravessava toda a janela. Dia nublado de novo… Sentei-me, afastei as cortinas do dossel e olhei para a Mel, que ainda dormia na minha cama. Estava deitada de lado, com metade do corpo completamente à mostra, e o cabelo loiro quase branco espalhado sobre o lençol. Espreguicei-me, e com isso ela também acordou. Coçou os olhos docemente e simplesmente perguntou:
- Gostou da noite?
Eu só fiquei a olhar para aquele rosto branco e aqueles olhos pequenos e opacos. Não era muito bonita, as pessoas diziam, mas aos meus olhos era atraente, e isso bastava. Como eu não respondia à sua pergunta, sentou-se na cama e tornou a falar, enquanto fazia seus dedos caminharem pelas minhas costas nuas:
- Fazia tempo que não passávamos uma noite juntas… Obrigada por me receber mais uma vez. Achei que você nunca mais ia querer me ver.
Coloquei minha mão na sua bochecha e aproximei meu rosto do dela:
- Que besteira, Mel. Eu nunca conseguiria te deixar... Quero beber cada gota sua.
E comecei a beijá-la como na noite anterior. Minhas mãos foram escorregando da sua bochecha para o seu pescoço, e depois para o resto do seu corpo, enquanto as mãos dela acariciavam minha nuca. 
Então a Cá entrou saltitando no quarto, com seu vestidinho vermelho de babados, suas sardas e os cabelos presos em duas marias-chiquinhas:
- Bom dia, vocês duas! Que tal saírem dessa cama e se prepararem para o dia? A Liz fez omelete de café da manhã pra todas nós!
Separei irritada minha boca da boca da Mel:
- Cá, que que você tá fazendo aqui? - Eu perguntei, com vontade de jogar algum bichinho de pelúcia nela - Como você entrou na minha casa? Já não falei que odeio quando você tá por perto?
- Ai, isso lá é jeito de falar comigo, depois de tudo o que eu te fiz?
- É exatamente por causa de tudo o que você me fez que eu te quero longe de mim, sua imbecil!
- Ai, isso machuca, tá? Mas não importa, eu vou continuar aqui até alguém de fora me expulsar! E aliás, foi a Sol quem me deixou entrar, ela sim é uma boa amiga. Agora, ponham alguma roupa vocês duas e venham comer o omelete da Liz!
E saiu saltitando novamente. 
Bufei. Pelo menos havia um omelete feito pela Liz me esperando. Falaram-me que eu não deveria comer a comida dela, mas eu finjo que não ouço. 
Eu e a Mel nos levantamos, vestimos as primeiras regatas que encontramos no armário e fomos para a cozinha. A Cá nem estava lá, já devia ter comido, mas fomos recebidas pela Sol, uma garota de cabelo preto na altura do pescoço, que estava quase terminando o omelete:
- Ora ora, que bom ver vocês duas unidas de novo. Se não fosse por mim, talvez vocês nunca mais se falassem, não é mesmo?
Sol… Difícil explicar minha relação com ela… Eu gosto dela. Mas não por muito tempo. Sabe como é. No começo o sorriso dela é misterioso, sedutor, interessante… Mas quando eu passo muito tempo ao seu lado, esse mesmo sorriso passa a ser irônico e desprezível. No momento, ele era quase irônico.
- Oi, Sol - eu respondi - Quando é que você vai embora?
- Um pouco antes da Cá. Mas eu volto, eu sempre volto, não se preocupe… Aliás, já que eu e você vamos ficar sempre uma com a outra, a gente podia se casar logo de uma vez, não? Até já tenho as alianças - ela falou, mostrando no ar dois anéis de ouro com um pequeno diamante encravado. Senti um calafrio percorrer meu corpo com a visão daqueles aros cintilantes. Sentei-me ao seu lado, em frente a um prato de omelete, tentando aparentar calma:
- Nem adianta tentar, Sol. Você sabe que eu não prometo o perpétuo a ninguém. 
Ela deu de ombros, como se dissesse "Bem, não foi dessa vez", e voltou a comer. Então eu e a Mel também começamos a comer o omelete que a Liz nos fez. 
Estava delicioso… Na boca, pelo menos. Sabia que quando chegasse ao estômago se tornaria tremendamente amargo. Era assim com tudo o que a Liz nos dava para comer. Mas mesmo assim, eu sempre aproveitava enquanto ainda fosse bom. 
De repente, o encanto daquele momento foi interrompido pelo som da campainha. 
- Quem será a esta hora? - a Mel perguntou, inclinando a cabeça com aquele jeito fascinante dela.
Levantei-me, andei até a sala e abri a porta. Quando vi quem era, imediatamente fechei a porta com toda a força que pude, e fez-se um estrondo pela casa. 
- Por favor, deixe-me entrar! - uma voz masculina do outro lado da porta implorou.
- De jeito nenhum! Vai embora! - eu gritei de volta - Rô, não sei o você veio fazer aqui, mas vai embora e vê se nunca mais volta! 
- Por favor, querida, me dê mais uma chance! Eu nem consigo entender o que foi que aconteceu para você me repudiar desta forma! Por favor! Eu não consigo viver sem você!
- E eu não consigo te ouvir sem sentir vontade de vomitar - berrei - E daí se um dia eu te amei?! Pare de valorizar o meu afeto! Eles vão pra qualquer um! Entendeu?! Me deixa em paz!
Silêncio do outro lado. Depois de um tempo ouvi o barulho do elevador: a porta sendo aberta, fechando-se e indo embora. Abri a porta de casa e dei uma espiada, e o Rô não estava mais lá. Ainda bem… 
Quando me virei para voltar para a cozinha, dei de cara com a Liz, que me encarava com seus grandes olhos verdes:
- Quem era? - perguntou. 
Fiquei com muita vontade de mentir, mas não podia fazer isso, não com ela:
- Hã… Era o Rô… 
- E você o expulsou?
- É… - desviei os olhos para o chão - Desculpa, eu sei que vocês eram bons amigos, e agora vocês nem podem mais se ver por causa da minha briga com ele…
- Não, tudo bem - ela falou cheia de charme e inocência - Ele é dispensável para mim - e começou a andar em direção à cozinha. 
Ah, como eu adoro essa garota… A Liz é tão… Linda. Tem sempre os pés no chão. Sim, lindos pés sempre descalços correndo por aí. Fiquei com vontade de agarrá-la, abraçá-la, beijá-la, e assim o fiz. Então voltamos à cozinha, e nos sentamos junto com a Sol, a Mel e a Cá, que voltara para lá para comer mais um pedaço de omelete. 
E assim todas nós apreciamos na companhia uma da outra um por-um-momento-pelo-menos delicioso omelete de café da manhã: eu, a Melancolia, a Solidão, a Carência e a Idealização, sem ser incomodadas pelo Romantismo que tentara entrar.  
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Por que as flores voltam

Um garoto gostava de uma menina que gostava de flores. Ele a viu pela primeira vez em uma terça-feira em que decidiu fazer um caminho diferente para voltar para casa, passando por um parque. E foi em um canto desse parque que ele a viu, sentada em um banco branco, usando um vestido também branco e de cabelo solto. O garoto sabia que a menina gostava de flores porque aquele banco era cercado por elas, e a menina ficava o tempo todo olhando para elas. Então o garoto passou a fazer esse caminho toda terça-feira só para vê-la ali, sentada com os pés em cima do banco ou deitada de barriga para baixo com os pés para cima, olhando uma flor sortuda que estivesse por perto.
Várias semanas se passaram, vários passeios pelo parque, vários segundos da menina com as flores. Um dia, porém, o garoto foi ao parque e as flores não estavam mais lá ao redor do banco. E, como esperado, a menina também não. Por um segundo, o garoto ficou sem saber o que fazer ou o que pensar, mas então teve uma ideia. Na próxima terça-feira, ele mesmo compraria flores e as colocaria em cima daquele banco. A menina com certeza voltaria, como por mágica, como se ela surgisse a partir das flores e do banco, somente às terças-feiras. Quem sabe fosse isso mesmo. Por isso o vestido dela era branco: porque o banco o era.
Na semana seguinte, o garoto fez conforme o plano: comprou um buquê de pequenas flores amarelas, colocou-o em cima do banco e esperou de longe. Viu a menina chegar (então isso significava ela não era uma criatura mágica do parque...), ver as flores em cima do banco, olhar ao redor, pegá-las com cuidado e deitar como sempre. Ela parecia feliz abraçada às flores que o garoto escolheu. Essa visão o alegrou tanto que o garoto prometeu a si mesmo que faria isso toda semana!
Por um longo tempo, o garoto colocou flores em cima do banco, cada terça-feira um buquê diferente, apenas para observar a menina por alguns segundos. Voltava para casa e ficava horas pensando nela. Devia ser a filha mais nova da família, com cinco irmãos, e se dava muito bem com o terceiro. Com certeza sua fruta favorita era manga e sabia cozinhar uma ótima omelete. Talvez tivesse um cachorro. Preferia gatos, mas o terceiro filho gostava muito do Noz Moscada (era esse o nome do cão), então ela aprendeu a gostar dele também.
De tanto vê-la e imaginar como ela era, o garoto sentia que conhecia muito bem a menina. Talvez foi por isso que em uma certa terça-feira, ele se aproximou naturalmente dela, que estava deitada no banco, e perguntou:
- E se chover?
A menina voltou os olhos na direção do garoto e respondeu, com um sorriso frágil e inocente:
- Aí eu me molho.
O garoto achou a resposta satisfatória e continuou:
- Como vai o Noz Moscada?
- Quem? – ela perguntou, inclinando a cabeça.
O garoto se lembrou então de que ele mesmo que inventara isso, e pela primeira vez pensou que as chances do irmão dela e ele terem tido a mesma ideia de nome para o cachorro eram mesmo muito pequenas.
- Posso sentar?
- Uhum – a menina murmurou, sentando-se para dar espaço para o garoto.
Ele se sentou ao lado da menina, e ficou olhando para os próprios pés. A menina parecia não se incomodar com o silêncio, apenas ficava brincando com o buquê do dia, então o garoto decidiu ser o primeiro a falar:
- Tem uma coisa que eu ainda não entendo. Por que você gosta tanto de flores?
A menina olhou séria para o garoto e respondeu:
- Porque elas são bonitas e estão sempre no mesmo lugar quando preciso delas. Diferentemente das pessoas.
- Aconteceu alguma coisa com os seus irmãos? – ele perguntou.
- Eu não tenho irmãos – ela respondeu confusa.
Só então o garoto percebeu como tudo aquilo que estava vivendo não fazia sentido algum! Apaixonara-se por uma menina que via durante alguns segundos por semana e nem reparou que não sabia nada de verdade sobre ela, ele que inventara tudo! Passara meses admirando-a sem que ela soubesse. Estava agora sentado ao seu lado, falando coisas que provavelmente a faziam pensar que ele era louco! Esse pensamento o atormentou tanto que ele se levantou e fez menção de ir embora, mas então ouviu a voz fraquinha da menina atrás de si:
- É você quem deixa as flores aqui, não é? – o garoto se virou e viu o rosto da menina ficar vermelho - Obrigada.
- P... por nada... – ele sentou novamente - Você sabe quem eu sou?
- Um garoto que passa por este parque toda terça... Um garoto gentil que deixa flores de que eu gosto muito. Faz tempo que sei quem você é.
O que a menina falou fez o garoto ficar tonto de alegria, o que torna compreensível suas próximas palavras, ditas sem pensar:
- Eu gosto muito de você. Deixe-me ser como as flores. Eu quero estar sempre aqui quando você precisar.
Ela sorriu, mas com mais tristeza do que alegria:
- Você não sabe o quanto já me ajudou. Mas eu não posso.
- Você já tem alguém? – ele perguntou, com a voz falhando.
- Não, não é isso. Eu apenas não posso. Não me espere. Não sei até quando poderei voltar.
Nesse momento, os olhos da menina começaram a brilhar de lágrimas, e ela saiu correndo do banco. O garoto continuou sentado lá, pois sentia que nenhuma força lhe restava no corpo. Ele só foi embora quando o parque estava fechando, quase à noite.
Na terça-feira seguinte, o garoto colocou flores em cima do banco como sempre. Mas a menina não apareceu. Nem na semana seguinte. Nem na outra. Nem em todas as outras terças-feiras que se seguiram.
O tempo passou, e o garoto já não era mais um garoto e a menina há tempos não era mais uma menina. Mas nem mesmo em uma terça-feira o banco deixou de receber um lindo buquê de flores. Muitas vezes o garoto pensou, com gratidão e luto, se o tempo havia esperado eles conversarem ao menos uma vez para então finalmente levar a menina embora.