A história que inventamos (texto de 2015 que eu não publiquei, li hoje e estou publicando agora)

Esta é uma história real. 

É sério.
Eu juro.

Não, sério, é real. 

Qual é, eu nunca falei que uma história é real, se estou falando que esta daqui é real é porque é real mesmo.

Isso, aceite o meu argumento.

Tudo começou quando
Não, espera, tudo começou antes disso, eu estaria invariavelmente mentindo ao olhar para um ponto e dizer que tudo, ou mesmo algo, começou ali. Não sei nem se pode-se dizer que as coisas começaram.
As coisas começam?
As coisas não começam.
É, definitivamente, as coisas não começam.

Então mudemos o início da narrativa:

Lá estava eu.
Em abril. Final de abril.
Eu tinha acabado de comprar "Leocádio, o Leão que Mandava Bala" na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Eram umas quatro da tarde, e eu não costumo ter fome nesse horário, mas naquele dia eu tive fome, e fome de McDonalds. Então atravessei a Avenida Paulista e fui comer no Mc que fica lá perto, do lado do Shopping Center 3. Estava lá na fila, pensando se o moço me deixaria pedir um triplo pão-carne-queijo com dois hambúrgueres ao invés de três, porque afinal, que posso fazer se tiraram o duplo do cardápio e o triplo é grande demais pra mim?, quando de repente ouvi uma voz bem atrás de mim falando, "O-oi, Letícia, não é?".

Okay, pausa. Eu não gosto de encontrar com pessoas dessa forma. Completamente despreparada. Preciso de tempo para pegar a máscara e a energia que a socialização exige de mim. Deu aquela tontura de arrependimento por ter ido ao Mc e não a outro lugar onde ninguém me encontraria, e me virei pra ver quem era. 
Pausa de novo. É assim: na época do colegial, em alguns bimestres, eu sentava do lado da minha amiga. Atrás dela sentava o amigo dela. E do lado do amigo dela e atrás de mim, sentava o amigo dele.

Certo? Pois a pessoa atrás de mim na fila era o amigo do amigo da minha amiga. Que eu não via há uns dois anos. Por sorte ele logo apontou para si mesmo e disse, "Cícero. Você se lembra?"
"Ahn, você era amigo do Maurício né?"
"É, e você era amiga da Victoria né?"
"Aham."
Nah, não fiquei feliz de encontrar com ele. Raramente fico feliz de encontrar alguém conhecido. Ficaria feliz de encontrar minha amiga, menos feliz de encontrar o amigo da minha amiga, e muito menos feliz de encontrar o amigo do amigo da minha amiga. E além disso, fiquei meio constrangida por ter que pedir o meu triplo pão-carne-queijo com dois hambúrgueres com ele logo atrás de mim, as pessoas geralmente não têm o MENOR pudor em demonstrar sua desaprovação em relação a frescuras alimentícias. Como se isso fosse mudar meu paladar. Por sorte o Cícero não falou nada. Mas senti como se ele estivesse sorrindo ou rindo silenciosamente na minha nuca. Que fosse escárnio!, quero meu triplo pão-carne-queijo com dois hambúrgueres!
Meu plano era pegar a comida e sentar rápido em algum lugar, antes da comida dele chegar. Aí talvez ele não se sentaria na mesma mesa que eu. Mas, céus, ser fresca pra comer custa tempo, e meu hambúrguer saiu ao mesmo tempo que o dele, e nós acabamos sentados na mesma mesa no final. Sabe como é, não dava pra falar "Vou me sentar ali e por favor não me siga porque eu não gosto de gente". 
Enfim... Já que estávamos lá e o silêncio provavelmente seria desconfortável, como sempre é com pessoas não tão íntimas assim, eu liguei o meu modo "socialmente agradável" e tentei conversar um pouco com ele sobre nosso tempo no colégio, antigos colegas e professores, enquanto comíamos as batatas fritas... Tudo normal e levemente desagradável... Até que chegou a hora de comermos os hambúrgueres.

Esse foi o momento em que tudo mudou. 

"Quer ver uma coisa legal?", ele disse, pegando o guardanapo e abrindo a caixa do hambúrguer. Tá, é difícil de explicar essa parte, mas vou tentar. Ele abriu completamente o guardanapo, e o colocou cobrindo metade do hambúrguer, ainda dentro da caixa. Aí ele fechou a caixa, virou-a de ponta cabeça e quando ele a abriu... O hambúrguer estava envolto no guardanapo!! Aí ele pegou o hambúrguer pelo guardanapo e deu uma mordida nele.

Então eu beijei minhas mãos, arranquei meu coração do peito e o entreguei a ele, dizendo "Você é o homem da minha vida."

Simbolicamente, é claro. Senão a história seria um absurdo. 

Depois disso, ele disse que queria conhecer uma Livraria Cultura perto de algum metrô, e eu disse que tinha uma logo do outro lado da avenida. Obviamente me ofereci para acompanhá-lo. Qualquer coisa para ficar mais tempo ao lado do homem da minha vida. 

Vinte minutos depois estávamos andando pela livraria, quando vi um livro com um gato na capa. Era um gato muito bonitinho... Fiquei olhando o gato, e acabei pensando alto: 
"Se eu tivesse um gato, eu o chamaria de Gato..." 

Não sei ao certo o que aconteceu, porque eu estava olhando para o gato até então, mas naquele dia, saímos da livraria sendo namorado e namorada. 

E foi exatamente assim. 

É sério.

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