A Lei do Cinza - Capítulo VII
Aquelas letras acusatórias e perfeitamente retas não saíam da sua cabeça. Nem ouviu quando o funcionário voltou e disse que o novo relógio seria entregue na sua casa em uma semana, nem percebeu quando ela mesma agradeceu e saiu da Administração. Seus pés se arrastavam sobre a calçada, mas não era ela quem os controlava. Será que era mesmo verdade? Precisava falar com o moço do cabelo preto. Mas ele disse que ia trabalhar o dia inteiro!
Não... Se ele era procurado, não podia estar trabalhando...
Então se lembrou daquele lugar. A chuva, o moço, os livros, uma pequena parte do mistério começou a se encaixar. Ele tinha que estar lá. Lia correu o mais rápido que pôde, e abriu com um estrondo a porta do que acreditava ser apenas um depósito abandonado. Apesar da pouca iluminação, ela conseguiu distinguir o contorno fino do moço do cabelo preto, que se virou apavorado. Depois de alguns segundos, o garoto finalmente disse, em uma mistura de alívio e confusão:
- Ah, Lia, é você...
Ela permaneceu ofegante ao pé da porta:
- Vinicius?
Ao ouvi-la pronunciar seu nome, uma expressão ainda mais aterrorizada tomou o rosto do garoto:
- Como você...
- Então é verdade?! - bateu a porta atrás de si e andou em direção ao moço do cabelo preto, com passos decididos e apressados, enquanto ele recuava trêmulo - Seu nome é Vinicius? E você é procurado? Por homicídio?!
O garoto estava com uma mão na frente do corpo, como que para impedir que ela se aproximasse demais. Sentiu as costas baterem contra a parede gelada. Suas mãos começavam a suar e sua respiração estava alterada. Já imaginara o que faria se um dia isso acontecesse, mas a reação de Lia era muito menos intimidadora na sua cabeça. Respondeu aos tropeços:
- É, é verdade. Desculpa por não ter te contado. Eu não imaginava que a gente ia se encontrar de novo depois daquele primeiro dia no bosque. E depois - desviou o rosto, arrependendo-se do seu egoísmo - eu não queria que você se afastasse de mim. Desculpa, Lia.
- Bem, Vinicius, você ao menos vai me explicar alguma coisa?
- Claro. Eu explico. Só... por favor, não me chama disso. Eu não quero te ouvir falando o meu nome. Sua voz é igual à dela.
- Ela quem?
Ele hesitou. Não queria falar daquilo, mas sabia que a hora enfim havia chegado:
- Minha irmã - sentiu as pernas derreterem e chegou ao chão. Lia também se sentou, sem tirar os olhos dele. O depósito se encheu de um silêncio infindável, no qual o moço do cabelo preto pensou em como começar a explicar, e Lia esperou ansiosamente - Eu não era um rebaixado no começo. Estudei muito enquanto estive no Instituto. Tirei a nota máxima no teste. Fiquei com tanto orgulho de mim mesmo...
- O que você era?
- Administrador. Significa que um dia eu ia ser da Direção.
Lia ficou boquiaberta. A Direção era a função mais alta da comunidade, pois praticamente todas as decisões eram tomadas por aquele grupo de privilegiados. Ela nunca nem havia os visto, mas sabia que estavam lá, fazendo a sociedade funcionar.
- Mas eu não servia pra administrador. Sou curioso demais, e há muitos segredos que só são revelados aos diretores. Como assuntos relacionados ao Centro de Reabilitação Social. Eu também queria muito saber o que aquilo era. Então dei um jeito de descobrir onde ficava, e fui até lá uma noite. Mas - um suspiro - me pegaram espiando por uma janela. Achei que iam me prender ali mesmo, mas uma regra diz que a primeira ofensa deve ser repreendida com uma advertência. Então eu fui classificado como ameaça à sociedade. E rebaixado a entregador - nesse momento ele curvou a cabeça e olhou para o seu uniforme branco e comum - Devastado é uma palavra fraca demais pra dizer como eu fiquei depois disso.
- E então? - Lia estava fervilhando de curiosidade.
- Então... minha irmã me salvou daquele abismo... Ela era mais nova que eu, trabalhava no Laboratório como química. Geralmente os irmãos se dão bem quando são crianças, e se distanciam conforme crescem. Mas a gente nunca deixou de se falar. Meus amigos até estranhavam quando nos viam conversando... Uma coisa que me deixava feliz era chegar em casa e ser recebido por ela - "Bem vindo ao lar, meu querido irmão Vinicius!", ele ouviu ecoar na sua cabeça, sem conseguir evitar um leve sorriso - Falava de um jeito engraçado. Sem economizar palavras... E depois que tudo isso aconteceu e minha vida se resumiu à tristeza... ela aparecia todo dia dizendo algo como "vamos explorar as ruas, Vinicius!" "Vinicius, vamos brincar de alguma coisa!". Ela gostava de falar o meu nome, porque o achava bonito... Em uma das vezes que caminhávamos juntos, encontramos o bosque. Quer dizer, ela encontrou. Eu só a segui.
O olhar do moço do cabelo preto parecia estar longe da escuridão do depósito. Estava muito além, em tempos passados, vivendo o sorriso de quem gostava muito, mas muito mesmo. Porém, à medida que as lembranças avançavam, o garoto foi inundado por uma melancolia maior que a de quando fora rebaixado. Continuou:
- Depois de pouco tempo, eu realmente estava muito melhor. Mas... foi como se, pra eu melhorar, ela tivesse me dado a sua vida, entende? Ou como se ela tivesse tomado a minha tristeza. E eu não percebi! Não percebi sua alegria desaparecendo, porque estava ocupado demais sentindo pena de mim mesmo! - não sabia onde esconder o rosto, então acabou afundando-o entre os braços. Mas teve que levantá-lo para continuar a contar - Quando me recuperei e parei pra notá-la... ela nem parecia a mesma pessoa. E seja lá o que foi, tristeza ou ausência de vida, foi demais pra ela.
- Quer dizer que...
Mal terminou a frase, Lia viu o rosto do moço do cabelo preto ser percorrido por lágrimas. Ele estava chorando?! Nunca havia visto alguém com mais de quatro anos chorar. Era uma das primeiras coisas que se aprendia no Instituto. Chorar é errado. Mas ele parecia não ligar, e deixava as lágrimas escorrerem livremente, enquanto tentava falar:
- Ela me deixou um bilhete. Depois o encontraram e disseram que eu era o culpado. Não discordo... Estava escrito "Meu querido Vinicius, que sua tristeza venha comigo".
Ele não parava de chorar. Lia não sabia o que fazer. Deveria dizer alguma coisa? Que situação desconfortável! Provavelmente era por isso que era errado chorar. Ela apenas esperou o moço do cabelo preto parar de soluçar tanto para continuar a contar sua história:
- Dois dias depois, um amigo que trabalhava na Administração apareceu na minha casa e disse que acabara de imprimir a minha ficha para o Centro. Disse isso apressado e saiu correndo. Eu sabia que eles viriam naquela noite mesmo, então fugi pro bosque. Depois me lembrei de que havia um depósito que não estava sendo usado, e vim pra cá. Graças ao tempo em que fui administrador, sabia os horários em que as ruas ficam vazias, e graças ao tempo em que fui entregador, conhecia casas que estavam vazias mas que recebiam comida todo dia. Sabia que a biblioteca era praticamente abandonada, pois fui lá várias vezes com a minha irmã. E claro, também ia ao bosque. Onde te encontrei.
- E... o que você vai fazer agora?
- Estou pensando em fugir... daqui... da comunidade... pra além da fronteira.
Então ele não estava brincando aquele dia em cima do monte. Ele iria fugir... E ela ficaria lá... Lia não conseguiu dar um nome para a sensação que a atormentou naquele momento. Isso porque a palavra "abandono" há muito tempo não era usada para pessoas. Também pensou em como devia ter machucado o moço do cabelo preto nas duas vezes que o chamara de "Vinicius". Então perguntou, voltando ao seu outro nome:
- Moço... Como ela... a sua irmã... se chamava?
Ele respondeu, como se cada sílaba fizesse seu corpo inteiro arder:
- Sofia...
E voltou a soluçar, ainda mais intensamente.
5 comentários:
Desculpe a demora e bem-vindos à segunda parte.
let the fun begin.
again.
foi surpreendente a maneira como o Vin... moço do cabelo preto ficou alterado depois daquilo...
haha relax! estou muuito curioso pra saber como vai ser a historia!!
xD
Segundo ato.
Que a magia não esfarele... E não esfarelará [?]
Muito[grifa] legal como a estória está desencadeando.
; . ; I'm in tears. I'm sad.
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