A Lei do Cinza - Capítulo X

Lia e Francine corriam embaixo de gotas pesadas, com gotas mais pesadas ainda caindo de seus olhos. A chuva se misturava às lágrimas, e não era possível dizer o que era simplesmente água e o que era um pouco salgado. Então, por uma grande coincidência, não mais que uma grande coincidência, seus caminhos se encontraram. Como vinham correndo com a cabeça abaixada, acabaram tropeçando uma na outra e caindo no chão molhado:
- Ai! Desculpa, eu não tava olhando pra onde... - ela levantou a cabeça e reconheceu a amiga. Apesar dela mesma estar com expressão parecida, perguntou - O que foi? Por que essa cara?
- Você também não parece estar bem... Aconteceu alguma coisa?
Ela hesitou. Na verdade, nenhuma das duas queria contar o que ocorrera, mas sentiam que precisavam falar com alguém, como se aquilo pudesse ajudar:
- Eu... eu só... me arrependo de algo que fiz.
- Eu também.
- Se eu soubesse que ia acabar assim... - disseram, ao mesmo tempo.
Mais gotas começaram a cair do céu. Logo logo viraria uma tempestade.
- A chuva... ela tá piorando.
- Pra piorar a gente...
Se realmente era essa a intenção da chuva, ela conseguiu. As duas se levantaram e voltaram a chorar, sentindo-se estranhas e culpadas por fazer algo errado, e, ainda por cima, por se deixarem serem vistas por outra pessoa. Mas as lágrimas vinham incontrolavelmente, e as garotas não conseguiam mais suportar. Uma delas escondeu o rosto nas mãos, enquanto a outra agitava-as no ar:
- Eu me sinto péssima!
- Eu também!
- Eu quero descansar! Esquecer tudo isso!
- Me sentir... feliz...
- Sim!
- Ou desfazer tudo!
- Não sei se vou aguentar...
Depois de todas essa gritaria, as duas se acalmaram um pouco. O desespero deu lugar à desesperança, a chuva deixou de incomodar e um longo silêncio se instalou. As vozes voltaram fracas e trêmulas:
- Eu queria poder sumir do mundo por um tempo...
- Quanto tempo?
- O suficiente. Pra conseguir esquecer o que aconteceu.
- Dá pra esquecer? - ela pensou sobre o que a amiga poderia estar falando - É o que estou pensando?
- Deve ser - na verdade, não era. Um dos pensamento era muito mais trágico - Quem sabe eu faça isso mesmo...
Se a outra estivesse em condições normais, teria tentado impedi-la. Mas as duas garotas estavam em um estado miserável. Não sabiam o que estavam falando, não pensaram nas consequências, não perceberam a importância das suas palavras.
Um novo silêncio. Por um lado, a conversa havia acalmado as garotas. Por outro, não havia resolvido nada. A chuva foi parando ao poucos, e quando se tornou apenas garoa, Lia e Francine se despediram como sempre fizeram: brevemente e sem prestar muita atenção.


Depois de algum tempo se arrastando pelas ruas, ela voltou à Administração. Ainda estava bastante molhada, mas deixaram-na entrar mesmo assim. Aproximou-se do balcão indicado e declarou:
- Eu gostaria de ser curada de perturbações da mente, por favor.

4 comentários:

Jessica Priscilla Huang | domingo, 26 dezembro, 2010

Acho que só vou voltar a escrever nesse blog depois do dia 12 de janeiro. You all know why ;D

Anônimo | domingo, 26 dezembro, 2010

that kind of question is dangerous.
very very dangerous.
very dangerous.
dangerous.

Elizabeth | quinta-feira, 06 janeiro, 2011

AAAHHHH!!!! EU SABIA QEU EU NÃI DEVERIA TER LIDOOOO!!!!

cara, estou curiosa ;o;

Anônimo | segunda-feira, 24 janeiro, 2011

Se eu fosse como elas, vivendo onde viviam, nada me impediria de fazer o que lá teoricamente não existia. Se aqui já é difícil não fazer...

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