Além do Cinza - Capítulo I
13:02. Lia e Francine estavam voltando do Instituto, andando lado a lado. Lia percebeu que quando o relógio mudava para as 13:02, elas sempre estavam passando na frente da mesma lata de lixo. Orgulhou-se da exatidão e previsibilidade, até Francine interromper sua satisfação interior:
- Sabe, não querendo te criticar nem nada, mas tá cada vez mais difícil ser sua amiga. As pessoas acham que eu sou estranha por andar com uma estranha. Sem ofensa. É só que, não dá pra você parar de ficar lendo e perguntando coisas inúteis e esse tipo de coisa?
- Qual o problema de ler? - perguntou ofendida.
- Tudo que nós precisamos saber é ensinado no Instituto. Pra que mais?
- Você nunca se pergunta sobre outras coisas? Como... por que somos assim. Como viemos parar aqui. O que tem depois daqui. O que tem além da fronteira. - referia-se aos muros que cercavam a comunidade e que ninguém podia ultrapassar por causa dos perigos que havia do outro lado.
- Não, nunca. Você sabe o que pode acontecer se alguém te ouvir falando essas coisas?
- Centro de Reabilitação Social?
- Exato. E a gente não pode perder tempo com isso.
- O que é isso, afinal?
- Ué, é onde eles tratam pessoas como você, que pensam esquisito.
- Tá, mas você já viu o Centro? Onde ele fica? Você conhece alguém que foi pra lá? Ou que voltou de lá? O que é esse tratamento?
- Eu não sei e não quero saber! Provavelmente isso é ensinado aos médicos. Nós seremos programadoras. Fim da história.
Não era fim da história para Lia. Na sua cabeça, isso era algo muito misterioso, como muitas outras coisas. O Centro era a força que mantinha a sociedade em ordem, curando pessoas de perturbações da mente para que pudessem voltar a viver em paz. Pelo menos foi isso o que lhe ensinaram. Lia nunca contou a ninguém que já os havia visto, uma noite em que não conseguia dormir. Seu vizinho foi levado por eles em uma maca, com a cabeça coberta por um saco preto. Os homens que o levaram usavam branco e também tinham o rosto inteiramente coberto, mas por uma máscara que a assustou na época. Colocaram-no em um carro grande e preto. Isso foi há quatro anos. O tratamento não devia ser muito eficiente, já que o vizinho não havia voltado até agora. Ela tremia só de pensar em também ser levada por eles em uma maca com a cabeça escondida.
- Alô? Acorda aí. Você ficou quieta de repente.
- Ah. Não é nada. - Tentou apagar a imagem das pessoas de branco e lembrou de algo que queria perguntar à amiga - Fran, você gosta de viver?
Ela levantou uma sobrancelha:
- Que tipo de pergunta é essa?
- Apenas responda.
- Sei lá, que diferença faz?
- Não faz diferença estar viva ou não? Então você não gosta de viver?
- Pra mim tanto faz. Que diferença ia fazer se eu nunca tivesse nascido? Não ia saber o que perderia mesmo.
Fazia sentido, mas parecia estúpido ao mesmo tempo.
- Por que a pergunta?
- Só queria saber se você era do tipo de pessoa que não gosta da vida e acha mais fácil... acabar com ela.
- Lia, do que você tá falando?! Você realmente acredita que isso existe? Se existisse, teriam nos contado, você não acha?
Não respondeu. Sabia que não adiantaria discutir com ela. A verdade é que ambas já haviam pensado em acabar com a própria vida, mas não admitiam isso nem para elas mesmas. Dizer a palavra "suicídio" já era o suficiente para ser classificado como ameaça à sociedade. As regras eram claras.
As duas caminharam em silêncio até a casa de Francine, onde se despediram brevemente. Lia continuou andando os passos automáticos ao qual seus pés estavam acostumados. "Não quero ir pra casa". Pensou nas sete horas e quarenta e três minutos de silêncio que a esperavam, seguidas pela chegada de sua mãe e suas frases também automáticas, "Já vou me deitar, estou muito cansada. Eu te amo, filha".
Nesse momento olhou para o céu e viu pássaros voando ao longe. Sentiu algo explodir dentro dela, e com um sentimento estranho de revolta decidiu caminhar na direção deles, queria ir para onde bem entendesse como eles. Não teve que andar muito para chegar em um lugar desconhecido. Se arrependeu de ter desviado do caminho e se envergonhou por fazer algo que não devia, simplesmente quebrando a rotina assim. Foi quando olhou para o lado e viu um corredor estreito entre duas paredes de tijolos com uma luz fraca no final dele. "O que será que tem do outro lado?". A curiosidade a fez esquecer de tudo e logo estava se esgueirando naquele pequeno espaço. Atravessou-o e se surpreendeu ao se ver diante de um bosque. Nunca havia visto tantas árvores juntas! Não tinha ideia que existia um lugar como esse! Depois de, maravilhada, explorar um pouco, deitou na grama e ficou encarando os pedaços do céu cinzento que se deixavam mostrar entre as folhas das árvores.
Acabou adormecendo. Acordou com uma voz masculina que não conhecia e dizia:
- Hm... Oi? Quem é você?
5 comentários:
you shouldn't have done that...
or should?
we'll find out...
Que menina curiosa, gosto dela e adorei a história.
Espero que já tenha um final definido e não fique parado que nem minhas histórias ;~;
A situação [repito, a situação] em que ela se encontra me fez lembrar um filme chamada "A Ilha", não é um filme muito legal, mas é a situação que é bem parecida 8D
As perguntas que a Lia são iguais das que eu fazia quando filhote. Quero saber se ela florecerá ou apenas se engolida pelo Centro. A trama começou de forma bem intrigante ^^
Ganbareee!!!
Anônimo: Yeah, we'll see...
Eliza: mto obrigada!! Fico feliz que tenha gostado e espero que continue gostando, eee! ^__^ E sim, a história já está quase toda definida! Faltam só umas coisinhas :3
Oh, procurei a sinopse desse filme agora no google e parece interessante! *-*
Aproveitando que estou aqui: pretendo postar um novo capítulo a cada 4 ou 5 dias! Vamos ver se dá 8D
Antes de ler o primeiro capítulo e após ler o post em que comentei, escrevi essa frase no Bloco de Notas: "É bom ter de quem se orgulhar quando sua própria vida não dá orgulho de viver."
Senhorita Marisko, obrigada pelo primeiro capítulo após um dia de cheio de mesmices para mim.
V
Oii! Aqui é a Carol Himura, amiga da Vê =)
Legal saber que você também escreve... eu me identifiquei muito com a sua história! Quero acompanhá-la! =D
Beijos e continue assim ol
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