A Lei do Cinza - Capítulo Final

Lia estava demasiadamente tensa e encolhida em cima de sua cama, sem imaginar que naquele exato momento o moço do cabelo preto estava sendo levado para o Centro de Reabilitação Social. O sol surgiu e sumiu do céu e ela continuava deitada de olhos fechados. Alternava entre o sono e a vigília, sem ter certeza de quando estava acordada e de quando estava dormindo. O principal era não ser lembrada do moço do cabelo preto. Quer aparecesse como sonho ou como pensamento, Lia lutava para que ele tratasse logo de sumir da sua cabeça. Assim passou mais uma noite, um dia inteiro e uma terceira noite… Teria permanecido nesse estado indefinidamente, não fosse por uma dor de cabeça insuportável que tomou o lugar de qualquer possível traço do moço do cabelo preto. Continuar deitada na companhia apenas daquela dor de cabeça era impossível, então Lia decidiu se levantar. Infelizmente o fez rápido demais, de modo que a sua cabeça pareceu girar pelo quarto inteiro por alguns segundos e em seguida passou a doer ainda mais. Ela escondeu o rosto nas mãos e grunhiu. Tateou seu caminho até o banheiro, batendo o pé e o cotovelo contra uma parede duas vezes, mas enfim conseguiu chegar à pia. Com muito esforço e os olhos meio abertos, deixou a água acumular em uma mão e a levou à boca. Conforme a água tocou sua língua e desceu pela sua garganta, a garota sentiu um pouco de energia ser superficialmente restaurada em seu corpo. As coisas ainda pareciam estar um tanto embaçadas e tortas, tanto no mundo do lado de fora de Lia quanto no de dentro. Pelo menos agora sua coordenação motora estava quase completamente de volta.
Bebeu mais um pouco de água e lavou a areia que a impedia de abrir os olhos. Sendo agora capaz de andar e se recusando a voltar para a cama, Lia saiu de casa e começou a caminhar por aquelas tão familiares e monótonas ruas. Como nem se lembrara de comer durante todo esse tempo, seu passo estava vagaroso, seus ombros, caídos. O que estava fazendo, andando pesadamente por aí? Pensava na resposta enquanto continuava a andar. De vez em quando sentia uma vontade imensa de parar e sentar-se na calçada, e assim o fez diversas vezes. Em algumas delas, não se contentou apenas em sentar-se, e esparramou os membros sobre a calçada quente. A vista por aquela perspectiva era engraçada… O céu estava inteiramente azul naquele dia, mas os olhos de Lia nem uma vez se levantaram para notar. Passara três dias deitada e estava exausta.
Quando se entediava do vazio na sua mente ou quando sentia a pele queimar, Lia se erguia da calçada e continuava a seguir seu caminho sem destino. Passou por lugares conhecidos, lugares desconhecidos, deu voltas, retornou, prosseguiu… Sem prestar muita atenção a nada. Só levantou a cabeça quando sentiu uma estranha sensação de familiaridade, e percebeu que estava na frente da casa de Francine. Não pensou em todos os dias em que se despediu dela ali, nem sobre o que a amiga poderia ter feito nos últimos dias, apenas tocou a campainha e esperou. Um menino de cabelo preto e mais ou menos dez anos abriu a porta. Antes que Lia se lembrasse de que ele era o irmão mais novo da amiga, ele a reconheceu e lhe disse, em uma voz inocente que não combinou em nada com o tom apático, que Francine não voltava para casa há dias. Completou com um "até mais" e voltou para dentro. Lia estivera atônita durante toda a conversa, e assim permaneceu, na frente da porta fechada, sem conseguir compreender o que ouvira. A última vez que vira Francine… A última vez que vira Francine… Quando foi mesmo?! Ah sim. Encontrara-a na rua. Estava chovendo. O que mais? O que mais?! O rosto de Lia suava enquanto ela tentava recordar. Será que… Francine havia… se matado…?
Sem ordem expressa, suas pernas começaram a correr em direção ao bosque. Mesmo que o moço do cabelo preto não estivesse mais lá, aquele lugar ainda tinha o poder de curá-la. Tinha que ter. Ela correu o mais rápido que pôde, mal conseguindo respirar, mas o corredor de tijolos não estava lá. Estranho. De jeito nenhum teria ido para o lugar errado, ou esquecido da onde ele ficava. Esquecera-se de muitas coisas importantes enquanto forçava-se a dormir ou a acordar, é verdade, mas daquilo nunca se esqueceria. Procurou por uma fresta por quilômetros, mas não encontrou nada. Não havia dúvidas: a passagem desaparecera.
Os joelhos de Lia tremiam enquanto ela pensava no que estava acontecendo. Com um pressentimento terrível, ela se dirigiu à biblioteca. Lá chegando, tudo o que viu foram suas ruínas. As estantes haviam sido reduzidas a montes de pó, onde se via uma ou outra página ou capa de livro. A majestosa biblioteca fora transformada em restos de concreto e papel. Por alguns instantes, Lia não conseguiu se mover. Os homens da Administração… eles que devem ter feito isso… De alguma forma descobriram todas as coisas que eram importantes para ela e as destruiriam, uma a uma! A garota se aproximou de um dos montes de pó e resgatou uma folha que sobrevivera. No topo, lia-se em negrito, "A ilusão do livre arbítrio", e o texto continuava pela página, em letras miúdas. Lia não sabia o que "livre arbítrio" significava, mas mesmo assim dobrou a folha como se fosse um tesouro e a prendeu entre a saia e a cintura.
Faltava checar um lugar. Esperando pelo pior, ela andou até o depósito abandonado. E, de fato, Lia estava certa. Onde antes o moço do cabelo preto se encondia, havia apenas um grande espaço vazio.
Não restara nada. Lia pensou seriamente se tudo o que acontecera desde aquele primeiro dia no bosque foi real. Como garantiria a si mesma que tudo não passara de uma longa alucinação? Como se manteria longe da loucura, se já se encontrava tão perto dela naquele momento?! Procurou a folha que havia resgatado para provar que pelo menos a biblioteca existira, mas não a encontrou. Talvez tivesse caído no caminho. Ou talvez ela estivesse enlouquecendo. A garota correu de volta para casa aos soluços e se jogou em cima da cama. Seu corpo ardia todo, as mãos tremiam, lágrimas corriam uma atrás da outra incontrolavelmente. Os soluços, irregulares e altos, impediam que Lia respirasse, até que finalmente a falta de oxigênio a fez perder a consciência. Quando Lia voltou a abrir os olhos, a luz do dia já se fora. Fechou-os e dormiu profundamente. Abriu-os mais uma vez, desta vez durante o dia. A sensação, porém, era de que mais de uma noite havia se passado. Forçou-se a dormir novamente. Duas vezes pensou ter acordado no escuro. Não tinha certeza. Quando foi invadida por uma dor de cabeça pior que a última, abriu de vez os olhos.
Estava claro. Raios de sol adentravam e aqueciam o quarto de maneira bastante agradável e insignificante para a garota. Lia tentou, sem sucesso, contar quantos dias haviam se passado desde a última vez em que saíra de casa. Achou ter ouvido a mãe dizendo que a amava cinco vezes, o que significaria que passaram-se cinco dias, mas talvez isso tivesse sido um sonho. De uma coisa tinha certeza: todos os moços do cabelo preto que vira nas últimas horas foram apenas sonhos.
Depois de tantos dias sem receber atenção, seu corpo ansiava desesperadamente por comida. Lia colocou os pés trêmulos no chão e andou até a porta da casa. Esperava encontrar alguma refeição esperando por ela do lado de fora, mas se deparou com um relógio de pulso dentro de uma caixinha transparente. Depois de muito se esforçar, lembrou-se de que havia ido à Administração e pedido por um relógio novo, apesar de não saber exatamente quando. Aquele relógio era exatamente igual ao antigo. Difícil acreditar que era quase inteiramente feito por mãos humanas. Ao lado do relógio, havia um envelope branco em cima de algumas peças de roupa e um par de sapatos cinzas. Os dedos pequenos de Lia abriram a carta desajeitadamente e seus olhos passearam pelas letras impressas: "Senhorita Lia, parabéns pelo seu desempenho na prova de habilitação. Sua pontuação total foi 920. É com grande prazer que a aceitamos na função de programadora. A senhorita começará a contribuir para a comunidade a partir de amanhã, no local especificado no mapa em anexo, das nove horas às vinte horas. Atenciosamente, a Direção".
É mesmo. O teste. Já tinha se esquecido disso. Lia se agachou e desdobrou o uniforme para analisá-lo: uma camisa branca de manga comprida com oito botões pretos e uma calça cinza. Pela primeira vez na vida, sua saia vinho de estudante lhe pareceu bastante atraente. Levou as roupas e o relógio para dentro de casa e atirou-os com força contra a parede do quarto. Assustou-se com o som que o relógio fez quando chegou ao chão e institivamente se ajoelhou em sua busca. Ainda estava funcionando. Não pôde evitar sentir um certo alívio. As roupas deviam ter amortecido a queda.
A garota voltou a deitar na cama e fechou os olhos. Sua cabeça doía terrivelmente, mas Lia precisava pensar no que fazer dali em diante. A primeira coisa que surgiu em sua mente foi cometer suicídio, mas a ideia foi imediatamente repudiada. Talvez fosse até um pouco de vaidade que a mantinha convicta de que era mais forte que seu pai, impedindo-a de tal ato. Pensou também em viver como fugitiva, assim como o moço do cabelo preto, até lembrar-se de que não havia onde se esconder. Todo o seu mundo havia subitamente desaparecido. A biblioteca, o depósito, o bosque, Fran, o moço do cabelo preto... A verdade é que não lhe sobrara nada além dela mesma. Ou uma sombra cambaleante do que ela era. Isto é, se algum dia ela tivesse sido alguma coisa.
A reflexão parecia querer se prolongar demais, então Lia se concentrou para voltar a pensar no que deveria fazer. Lembrou-se da carta… "A partir de amanhã", estava escrito. Se Lia tivesse perdido um dia de trabalho, com certeza algo já teria acontecido com ela, então a carta e o uniforme deviam ter sido entregues há poucas horas. Poderia também seguir as ordens do moço do cabelo preto... Obedecer as regras... Lia sabia exatamente o que a aguardava. Começaria a trabalhar no dia seguinte. Aos vinte e cinco anos se tornaria esposa de alguém, até os trinta receberia dois filhos e trabalharia como programadora até os sessenta. Ela não fora classificada como ameaça à sociedade, então poderia viver como uma pessoa normal sem nunca ser notada pelo Centro. Fingiria que nunca houve nada de diferente em sua vida, nenhum pai suicida, nenhuma visão dos homens do Centro, nenhum livro, nenhuma pergunta, nenhum bosque, nenhum garoto de cabelo preto que não fosse apenas outro garoto de cabelo preto. Talvez um dia todas essas lembranças se tornariam tão incertas e Lia duvidaria tanto de sua lucidez que acabariam por cair no esquecimento.
A garota repeliu a ideia com todas as forças. Aquilo era mais insuportável que sua dor de cabeça. Como o moço do cabelo preto pôde pedir algo assim?! Não iria obedecê-lo. Afinal de contas, a vida era dela. Podia fazer o que quisesse. Repetiu isso a si mesma diversas vezes, como se estivesse tentando se convencer. Porém, mesmo depois de centenas de repetições, ela sabia o que escolheria no final. Adormeceu sentindo-se destituída de si mesma, mas de alguma forma, satisfeita.
Naquela noite, sonhou mais uma vez com o moço do cabelo preto. Porém, diferentemente das noites passadas, em que ele aparecia apenas para se afastar de Lia enquanto ela gritava pedindo que a esperasse, ele permaneceu na sua frente com uma expressão calma. Estendeu as mãos e segurou os dedos de Lia. "Não vai me dizer que não posso te tocar?", ele perguntou, mas Lia não conseguia emitir nenhum som. "Lia, Lia… Você não é mais você, de qualquer jeito… Que diferença faz agora pra você? Pra mim faz. Foi a melhor escolha". A vontade de Lia era soltar-se daquelas mãos, negar o que ele disse, fazer-se presente. Mas era como se a conexão entre seu corpo e seus pensamentos tivesse sido rompida, de modo que tudo o que fez foi permanecer imóvel, até as imagens se tornarem menos nítidas e desaparecerem por completo.
Assim que abriu os olhos, Lia levantou-se da cama e encarou a menina que a olhava em um espelho. Não, não era mais uma menina. Apesar do cabelo solto e despenteado, da camisa ingênua e da saia juvenil, a pessoa que via no espelho não era mais uma menina. Quando será que mudara? Nem havia se dado conta... Despiu-se e estranhou seu próprio reflexo sem identidade. Recolheu do chão o uniforme pelo qual esperara durante quase toda a vida e o vestiu. A calça deveria ficar por cima da camisa, na altura da cintura. Também prendeu a franja para trás com uma presilha e novamente se olhou no espelho. Ficou surpresa com o quão incrivelmente bem as novas roupas lhe caíram. Até mesmo a aparência desgastada e recentemente adquirida combinava com elas, e era destacada em seu rosto agora nu. Como era estranho estar com o rosto inteiro à mostra... Era como se tivesse se tornado mais vulnerável com aquela simples alteração. Franjas não lhe serviriam mais.
Após analisar-se detidamente no espelho, Lia voltou para o quarto e procurou a caixinha transparente no chão. Retirou o relógio de lá, prendeu-o cuidadosamente no pulso esquerdo e olhou o ponteiro dos segundos se mexer, exato e seguro como sempre.
Tudo continuava igual. Tudo continuaria igual. A programadora engoliu uma refeição sem gosto, calçou os novos sapatos cinzas e saiu para o seu primeiro dia de trabalho.

8 comentários:

Jessica Priscilla Huang | quarta-feira, 30 março, 2011

Muito obrigada a todos que leram e apoiaram! Agradecimentos especiais ao meu professor do colegial de Português, que me incentivou a criar este blog, ao meu avô, que me deixou a máquina de escrever onde esta história começou, e ao meu moço do cabelo preto, sem o qual nada disso existiria.

Anônimo | quarta-feira, 30 março, 2011

A diferença?

Há diferença?




Não é óbvio?

Becko | quarta-feira, 30 março, 2011

ahhhhhhhhhhhhhhhh! gosteei jeeh! um final, muito muito inesperado.. dá aquele treco de querer saber o qq vai acontecer..! mas acaboou! loved it!

jeeh.. entaao, vce vai no retiro de jovens? vamoo vamo! dia 21! (faz tempo que nao te vejo na imel!) estava viajando? beijoos! =]
se cuidaa!

Anônimo | sexta-feira, 01 abril, 2011

Mariko, sabe bem o que imaginei que aconteceria, mas ficaria com cara de filme de ação. A questão conformista é realmente muito mais pertinente do que a questão da esperança.

V

Cesar | sexta-feira, 01 abril, 2011

Jessica, vc tem um dom.
Parabens!

Cesar (J~Squad)haha

Letícia Kim | sexta-feira, 01 abril, 2011

olá jéssica.
alguém me comentou do seu blog e de sua criatividade.
bom, ele tinha razão.
muito interessante.

Érica | sexta-feira, 01 abril, 2011

CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP!!!!!!!!!!!!!!

Unknown | segunda-feira, 04 abril, 2011

Eeeee Jé! Muito bom o texto...! xD

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