Meninas - Capítulo 1: Vamos todos cirandar
Escova de cabelo, toalha, roupas, escova de dente, pasta de dente, foquinha de pelúcia, pijamas, sabonete, xampu, condicionador… Será que estava se esquecendo de alguma coisa?, Nicole pensou, com os olhos na mochila gigante e os dedos entre os cabelos pretos e lisos. Olhou para as outras sete pelúcias em cima da sua cama cor-de-rosa e suspirou. "Desculpa, bichinhos, mas só dá pra levar a Mame", referindo-se à foquinha branca que estava agora em cima da mochila. Num estalo, Nicole lembrou-se do dinheiro. Quase vai embora sem o mais importante! Abriu a gaveta do seu criado-mudo elegantemente esculpido e puxou o seu cofrinho de coelho lá de dentro. Vinte e sete mil e quinhentos reais. Não era difícil acumular dinheiro com uma mesada de mil reais e gastando pouco… Nicole dividiu as notas desigualmente em seis envelopes e os enfiou no fundo da mochila. "Fecha mochila, vai zíper, fecha".
Ufa… Vontade de tomar sorvete de morango… Mas era melhor não. Eram seis da manhã e todos ainda dormiam profundamente, mas e se alguém acordasse? Sim, deveria sair de lá o quanto antes. Escreveu uma mensagem em um papel perfumado e o deixou em cima da escrivaninha. Olhou mais uma vez para o seu quarto. Ah… Tudo ao seu redor era tão bonito e artificial… Percebeu então que isso não se referia apenas ao seu quarto, mas ao seu mundo inteiro.
Nicole colocou a mochila nas costas, não estava tão pesada, ainda bem, abraçou a foquinha branca e andou na ponta dos pés até a porta de casa. Teve que parar de respirar ao passar pelo quarto dos pais e do irmão mais velho, mas felizmente não foi ouvida. Girou a chave devagar, sem fazer barulho e abriu a porta com cuidado… Gotas de suor corriam frio pelo seu rosto e pelas suas mãos conforme descia no elevador. Nunca percebera como ele era lento! Chegando ao térreo, deu bom dia para o porteiro como sempre fizera e foi embora, achando engraçado o fato de que o porteiro não tinha a menor ideia de que ela estava fugindo de casa. Riu-se por dentro. Como gostaria de ter continuado assim para sempre! Mas foi puxada brutalmente para a realidade quando sentiu o bebê chutar.
"Calma, querida, já vamos para um lugar seguro", disse Nicole, fazendo como se a foquinha que estivesse falando com sua barriga.
"São Paulo é uma droga" foi a conclusão à que Luana chegou. Passara o dia inteiro olhando o outro lado da janela, e tudo o que viu foi trânsito e pessoas apressadas. Também, com vista pra Avenida Paulista, queria o quê? Luana desistiu de olhar para baixo e voltou os olhos para cima. "Oi, lua!", berrou. Sei lá em que fase estava. Não gostava da lua, então não procurava saber sobre ela. Mas mesmo assim ficava encarando aquela coisa branca no céu preto. Que exibida, tinha que ficar lá em cima se destacando, falando "olha pra mim, olha pra mim"… "Não tem nada a ver comigo, nada!", a menina pensou. Luana… nomezinho infeliz que permitiu que a apelidassem de "Lua"… Era muito confuso quando ela era criança. Como podia aquela coisa do céu ter o nome igual ao dela? O que mais a irritava era a inconstância da lua. Mudava o tempo inteiro pra depois voltar a ser o que era, eternamente. "Fica logo sempre inteira ou sempre menos!"
Mudanças incomodavam Luana. Mudanças, coisas imprevisíveis, incertezas… E o mundo estava cheio disso. Por isso ela decidiu não fazer parte do mundo. Além disso… pessoas lhe davam um pouco de medo. Estava saindo cada vez menos de casa. E não sentia falta de muita coisa. Não gostava de gente mesmo. Encheu-se da faculdade… Era agradável ficar em casa o dia inteiro.
"Ai ai…", suspirou na frente do espelho. Desde pequena via aqueles lábios finos, aqueles olhos escuros e longos, aquele nariz bem desenhado e aquele cabelo castanho claro, mas ultimamente não se reconhecia muito bem. À noite, costumava alternar entre o espelho e a janela, repetindo "não sou eu" para o reflexo e para a lua.
Ai, como odiava gente. Por que pensara nisso…? Ah, dane-se. Não gostava de pessoas e pronto. E daí se pensava diferente de todo mundo? Essas pessoas hipócritas que dizem que deve-se tolerar e aceitar tudo… Então tolere e aceite as pessoas intolerantes, ué. Ué.
Suspirou novamente. "Eu vou é jogar videogame". E lá se foi ela para seu querido N64, cuidar da sua fazenda, onde podia pensar e fazer o que quisesse sem ser condenada por outros nem por ela mesma.
"Mas não é como se fosse durar pra sempre de qualquer jeito", Clarissa disse calmamente. "Como você pode saber?", o garoto rebateu, "Faz quase um ano que estamos namorando, você sempre pareceu feliz! O que foi que eu fiz de errado?". Ela revirou os olhos também longos e escuros, "Cansei. Só isso." "Cansou…? De mim?" "É.", a menina respondeu enquanto aproximava seu chocolate quente da boca. "Você disse que me amava…", ele murmurou. Ela engoliu o chocolate. "Eu estava errada."
As pessoas na lanchonete começavam a olhar e a tentar escutar a conversa. Clarissa percebera, não se importara, mas o garoto estava atormentado demais para notar. Estava pensando em toda a história deles juntos, onde poderia ter feito algo errado, pensou no dia em que se conheceram, em como foi feliz…
"Clarissa… não faz isso comigo… eu te amo." Ela bebeu mais um gole de chocolate e soltou o elástico que prendia seu cabelo castanho claro em um rabo de cavalo. "Tenho certeza que você se recupera. Sério, aposto que nem vai demorar muito."
Silêncio. Ele olhava para o chão incrédulo e ela tomava o chocolate olhando desinteressada pela janela. Alguns pescoços nas outras mesas se viravam para apreciar a cena.
"Bem, se você não tem mais nada pra falar", ela disse levantando-se e pegando a bolsa, "eu tenho que ir no mercado agora."
O garoto não a impediu. Não sabia o que falar. O que poderia falar? Então ela saiu da lanchonete, com a cabeça já no assunto seguinte: "Que saco. Ela fica com frescurinha e eu que tenho que ficar indo no mercado. Deixa eu ver… tem que comprar algo pra janta, papel higiênico, iogurte, detergente… Janta, que que vai ter de janta? Bah, vou comprar miojo mesmo."
Poucos minutos depois, ela estava na frente das estantes do mercado, concentrada na dúvida entre miojo de galinha e miojo de galinha caipira. "Afinal, qual é a diferença?", Clarissa perguntou-se com um pouco de revolta, e um pensamento subitamente invadiu sua mente.
Sim… qual era a diferença? Entre ela e todas as outras garotas do mundo, entre ele e todos os outros garotos do mundo… No final, não havia diferença nenhuma. Podia ser qualquer um. Ou qualquer uma. Então ela fez uni-duni-tê e pegou o miojo de galinha.
6 comentários:
Então... essa é uma história experimental e meio improvisada, não sei direito o que vai acontecer, então ela não vai ser regular nem nada. Mas vamos lá! :D
E sim pra quem percebeu, é a mesma Luana daqui e daqui.
Mesmo que improvisada, essa história começou com uma terra bem adubada hein!! agora é só regar!!!!! incrível!!! quero ler o restooooooooooo!!!
woooooouuwo!
muuito booa jeeh! haha
como sempre, suas histórias são as melhores fáácil!! xP =]
continuaa ein! haha curiooso para saber o desenrolar desta!
Que coisa... sou muito da egocêntrica. É a segunda vez que começo a ler uma estória sua e lembro de pessoas da família.
V
Ai, como sempre sensacional hime :3
Qro escrever assim quando crescer!!!
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