Meninas - Capítulo 2: Saiu de sua casa e pôs-se a cantar

Nossa, como estava escuro… Eram seis e dez da manhã e ainda estava tão escuro… Devia ter a ver com as estações do ano e a inclinação da Terra ou algo assim. Geografia estava longe de ser a matéria favorita de Nicole. Incrivelmente conseguiu passar no vestibular, mesmo com Geografia na segunda fase.
Hm… Todo o seu terceiro ano do colegial pareceu uma perda de tempo agora. De que adiantou ficar estudando e estudando um ano inteiro e conseguir entrar em Pedagogia se dois meses depois das aulas começarem ela estava largando tudo? Seus pais ficaram tão orgulhosos por ela ter entrado naquela universidade…
Suspirou. Mais uma coisa pela qual eles nunca iriam a perdoar. Vamos ver… não lavou a louça ontem à noite, largou a faculdade, fugiu de casa, saiu sem arrumar a cama, estava grávida de cinco meses... "Ok… Não é tão ruim assim…", pensou. Ficaria ruim, ficaria muito ruim, mas só quando eles descobrissem sobre todas essas coisas. Até lá só seria ruim para a Nicole. E a menina não se incomodava muito com isso, pois sabia esconder seus sentimentos tão bem que às vezes nem ela mesma sabia o que estava sentindo. Começou a cantar uma música na sua cabeça... "Será que a noite virá... num vilarejo, vejo a ponte que levará... o que desejo, admiro o que há de lindo e o que há de ser..."
Uau. Seis e vinte da manhã e a Avenida Paulista já estava movimentada. Nicole saiu da estação Trianon e andou alguns metros até chegar na frente de um prédio enfeitado com muitas flores na entrada. Era ali. Ela sentiu um calafrio ao apertar o botão da caixinha preta para falar com o porteiro:
"Oi… Eu vou no oitavo andar."
"Nome?"
"Nicole."
O porteiro interfonou para o apartamento e em seguida a deixou entrar. Nicole passou pelas muitas flores da entrada e entrou no elevador, notando que este também demorava muito para chegar nos lugares! Quando finalmente chegou no oitavo andar, ela respirou fundo e apertou a campainha.
"Lua, vai abrir a porta!", ela ouviu a voz da amiga (na verdade, era mais uma conhecida do que propriamente uma amiga) gritar lá de dentro. "Eu to me trocando!"
Alguns segundos depois, a porta foi cautelosamente aberta por uma figura que Nicole desconhecia: uma menina em uma camisola branca que parecia saída de uma floresta de um conto infantil. "Sabia que fadas existiam", foi o que Nicole pensou. A "fada", entretanto, pareceu um tanto incomodada com a situação, então desviou os olhos para a foquinha de pelúcia na sua frente e perguntou "Você que é a Nicole?"
"Ah, sim, isso, Nicole", a menina respondeu desajeitadamente.
"Pode entrar. A Clarissa já deve vir" e sumiu para dentro da casa, deixando Nicole sozinha no hall.
"Com licença", a menina disse baixando a cabeça enquanto entrava no apartamento. Assim que levantou os olhos, espantou-se com o que viu. A sala era composta por paredes brancas, um chão de madeira, um sofá marrom e muitos livros em diversas pilhas pelo chão. Mas só. Nem a menina que parecia uma fada estava mais lá. "Hm… Acho que é para sentar no sofá, então…" Assim Nicole o fez, e esperou com os ombros rígidos mas os olhos curiosos. A parede do lado oposto à entrada era inteiramente ocupado por uma larga porta de vidro que dava para uma varanda, de modo que naquele momento a sala começava a ser invadida pela luz do sol que nascia. Atrás do sofá, havia duas portas. Uma devia dar para a cozinha, e a outra, para o corredor… "Será que é muito grande?", perguntou-se. A sala pelo menos o era. Mas talvez fosse a falta de móveis que fazia com que parecesse grande… Ou talvez a sala fosse grande mesmo, simplesmente.
No meio da divagação de Nicole, a amiga (ou melhor, conhecida) apareceu por uma das portas, com o cabelo amarrado e o uniforme do colégio. Uma mecha do cabelo castanho claro caía-lhe pelo rosto e a saia xadrez terminava um pouco cedo demais para o padrão de decência de Nicole. Como aquilo podia ser o uniforme de um colégio?
"Oi, Nicole, bem vinda, como você tá?"
"Ah, oi, Clarissa. Estou bem, e você? Obrigada de novo por me deixar ficar aqui..."
"Que isso, fica à vontade!", Clarissa respondeu sorridente, "Eu tenho que tomar café, vamos pra cozinha. Pode deixar suas coisas aí", e Nicole a seguiu por uma das portas.
Pelo menos a cozinha era normal, apesar de estar um pouco bagunçada. Nicole se sentou em uma das cadeiras e observou enquanto Clarissa pegava suco de laranja da geladeira e colocava Sucrilhos em um potinho.
"Haha, que legal, eu nunca abriguei uma fugitiva antes", ela quase cantarolou. "Mas por que exatamente você fugiu? Brigou feio com os pais? O que foi que você fez?"
"Ah, hm, então, saí de lá antes que isso acontecesse na verdade… Eu… hm…", gaguejou desviando o olhar.
"Um dia você me conta então", Clarissa disse com a boca cheia de sucrilhos.
Crunch crunch crunch crunch crunch.
"Hm… a menina que atendeu a porta é sua irmã?"
"Aham, é minha irmã mais velha, o nome dela é Luana, mas chama ela de Lua que ela detesta."
"Mais velha? Quantos anos ela tem?"
"19. Mas ela só fica em casa o dia inteiro", Clarissa parecia não se importar em falar com comida na boca e continuou, "É um pouco difícil lidar com ela, nem liga. Aliás, você já tá com 18 agora né?"
"Sim…"
"Que inveja de vocês duas, já terminaram o colégio… Mas eu só tenho que aguentar mais esse ano, ainda bem! Ih, falando nisso, já tenho que ir. O seu quarto é o último, e tem um computador no meu quarto se você quiser usar. Se quiser comprar alguma coisa pra gente comer também…", deu um sorriso descontraído, "Haha, foi mal pela folga, é que eu odeio ir no mercado mas a Lua não sai de casa, aí já viu."
"Ah sim, claro", mas antes que Nicole pudesse terminar de falar, Clarissa já havia levantado, pegado a mochila e saído de casa.
Como tudo isso era estranho… Nicole nunca imaginou que um dia poderia viver algo assim. A fim de afastar esses pensamentos, ela recolheu o copo e o potinho que Clarissa deixara em cima da mesa, lavou a louça, e depois pegou sua mochila e sua foquinha do sofá para procurar o seu quarto.
O corredor também era consideravelmente extenso. Atravessou-o e chegou ao último quarto, o que seria seu a partir de agora. Nem parou para pensar nas paredes azul escuro ou para estranhar a cama de casal, apenas deitou e dormiu profundamente, visto que quase não dormira na noite anterior.
Só acordou quando o sol estava se pondo. Levou um susto quando abriu os olhos, ao se ver em um lugar não familiar, mas então se lembrou de tudo o que acontecera. Essa era a pior parte de acordar… Descobrir que não era tudo um pesadelo. A menina tirou o anel de prata do seu dedo anelar e o contemplou enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
"Inútil… O único que eu queria era um de ouro…", sussurrou. Subitamente, abriu a janela do quarto e atirou o anel violentamente para fora.
Computador… Entrou no quarto de Clarissa sem prestar atenção a ele e checou seus e-mails. "11 mensagens não lidas". Por um momento, seu coração deu um salto de alegria, mas foi apenas um mesmo, pois só havia um e-mail do namorado. O resto era tudo do irmão:
"NIC!!!!! CADÊ VOCÊ?!! COMO ASSIM 'ESTOU FUGINDO'?? PODE VOLTAR JÁ PRA CÁ, ANTES QUE A MAMÃE E O PAPAI ACORDEM!!! Minoru"
"E ainda por cima você não levou o celular!!! Nic, caramba, cadê você?? Você tem noção do que eu senti quando fui te acordar e não te encontrei?? Minoru"
"O papai e a mamãe acordaram e tão desesperados atrás de você. O papai tá ligando pro mundo inteiro e a mamãe não para de chorar. Olha o que você fez. Minoru"
"Nic… pra onde você foi...? Minoru"
"Seu pai acabou de me ligar falando que você fugiu de casa… Precisava chegar a esse ponto, meu amor? Estou preocupado…"
"CARAMBA NIC RESPONDE MEUS E-MAILS!!!! Minoru"
"Ok, quer saber, eu tinha comprado coalas de morango pra gente comer junto hoje quando você voltasse da faculdade. Não vou te dar mais!!!! Minoru"
"Retiro o que disse, eu vou te dar sim, mas você tem que voltar pra casa!! Ou me falar onde você tá! Minoru"
"Nic, o mundo é perigoso, volta pra casa!! Minoru"
"Espero que você esteja segura… Minoru"
"AAAAAAAHHHH ONDE VOCÊ TÁAAAAA??!! Minoru"
Nicole olhou irritada para a tela. Como ele ousava chamá-la de "meu amor"? Nicole o amava, disso tinha certeza, mas ele não a amava, só estava apaixonado por ela. Era a mesma diferença entre "por enquanto" e "para sempre", como ouvira alguém falar uma vez. E ele mesmo disse não querer ficar com ela para sempre. Ou algo assim. Desligou o computador e foi dormir de novo.

9 comentários:

Anônimo | sábado, 14 maio, 2011

Eu comento de novo, não tem problema: não fique nunca muito tempo sem escrever, você faz falta! (:

Anônimo | sábado, 14 maio, 2011

PS: maior emoção vc ter dedicado um capítulo da história pra mim :D vc tem um jeito bem único de escrever!

Anônimo | sábado, 14 maio, 2011

Que inveja, um capítulo dedicado a outro.

Mas faz sentido, já que não sou o Anônimo que o merece.

Jessica Priscilla Huang | sábado, 14 maio, 2011

Muito obrigada, senhor anônimo dos dois primeiros comentários!! ^____^

E, meu moço do cabelo preto, não fique com inveja, você teve o Além/A lei do Cinza inteiro dedicado a você :3

Becko | segunda-feira, 16 maio, 2011

noooooooossa! muito da hora! haha
congratulations jeeh! espero que essa não seja voce ein! xP =]

Jessica Priscilla Huang | terça-feira, 17 maio, 2011

haha, acho que é inevitável colocar um pouco de si mesmo em um personagem, especialmente inconscientemente XD eu admito minha identificação com o gosto por coalas de morango :3

Anônimo | terça-feira, 17 maio, 2011

Enquanto a identificação for só os coalas e não a gravidez, ótimo! haha!

Érica | quarta-feira, 18 maio, 2011

hauhauhauah briguinhas no meio dos comentários, que ótimo! Jessy! estou passando por uma fase em que não consigo me concentrar totalmente numa atividade, não estou conseguindo ler como lia antes! Li o seu capítulo agora, mas quando o ciclo do tempo der mais uma volta e eu chegar na época de ler com o meu todo eu vou ler tudo de novo!! Daí eu poderei dizer das entranhas que adorei o seu texto, mas agora não dá!! Mas continue escrevendo, depois eu lerei se ainda estiver por aqui!!!!!!!

victor pompêo | sexta-feira, 20 maio, 2011

Você escreve bem! Me deu vontade de escrever por capítulos tb :P

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