Meninas - Capítulo 5: Tira, põe, deixa ficar
As três primeiras semanas em que Nicole passou a morar com Luana e Clarissa foram um pouco… estranhas. Ninguém conversava muito com ninguém, só havia algumas falas soltas como "Nic, precisamos de chocolate" e um ou outro diálogo breve. Clarissa ia pra escola de manhã e ficava zanzando por aí à tarde. Starbucks, McDonalds, cinema, vitrines de lojas, o parque perto do colégio, casas de amigos… Qualquer coisa para não pensar em nada sério. A superficialidade era o nível favorito da menina. Sabe como é. Nunca se sabe o que você pode encontrar quando começa a vasculhar os fundos de si mesmo. Nicole acabou ficando com a responsabilidade de cuidar da casa, e estava sempre fazendo alguma coisa. Quando toda a louça havia sido lavada, toda a roupa passada, o lixo tirado, quando o chão, as janelas, as paredes, o teto e até as lâmpadas não podiam estar mais brilhantes… Enfim, quando tudo o que tinha para fazer acabava… Ela bebia alguma coisa pra ter um copo pra lavar, ou limpava o chão outra vez, ou simplesmente pegava uma toalha limpa e lavava de novo. Como a Clarissa preferia o quarto bagunçado e a Luana sempre deixava a porta do seu quarto fechada, os metros quadrados que Nicole podia limpar eram reduzidos: a sala, a cozinha, o corredor, o próprio quarto e dois banheiros. Não que fosse tão pouco assim, mas não era suficiente para preencher as horas em que Nicole estava acordada. Mas qualquer coisa para não pensar na realidade.
Apenas Luana não tinha tanto sucesso em não pensar no que não queria. Tudo culpa daquele livro de capa verde, que ela encontrou o outro dia na sala. Ou talvez aquele livro que a tenha encontrado. Já fazia uma semana que a garota estava lendo um capítulo por dia, como orientado. E apesar de sempre ler pensando que toda aquela coisa sobre Deus era uma invenção burlesca, não conseguia deixar de ler o livro nem barrar os pensamentos que ele a fazia ter. Não podia negar que tudo aquilo era uma invenção muito bonita. Provavelmente era por isso que várias pessoas se apegam a essa coisa de religião. É tipo uma criança que quer acreditar que o papai noel é de verdade, mesmo quando começa a notar que sempre que ele aparece, o avô não está mais na sala. Mas, hey, chega uma hora que tem que crescer né? Quantas pessoas já não explicaram o motivo das pessoas inventarem Deus? "Deus" é apenas uma construção social. Um pai idealizado, talvez. Como tem gente que insiste em acreditar, especialmente nos tempos atuais, quando a ciência tá desvendando o mundo inteiro? Como alguém pode pegar um livro que sabe-se lá quem decidiu que era sagrado, e viver de acordo com o que tá escrito lá?
Ridículo.
A única coisa que Luana não conseguia responder era por que ela não parava de ler aquele livro que tanto a incomodava.
Todo esse devaneio aconteceu enquanto Luana estava deitada toda torta no sofá da sala, em sua usual camisola branca. O sol estava se pondo do outro lado do apartamento, então a visão da janela da sala era o céu meio azul meio amarelo e o contorno de prédios cobrindo o horizonte. De repente, Nicole ligou o aspirador de pó e começou a aspirar o chão da sala. "De novo, não…", Luana pensou, então ela se virou, de barriga para baixo no sofá, e disse em voz alta o suficiente para ser ouvida, "Nic. Nic. Não tem nada pra aspirar".
Nicole desligou o aspirador e olhou para a menina no sofá como se estivesse mendigando comida: "Então que que eu faço?".
Luana pensou por um momento e teve uma ideia. Pelo menos era melhor do que ficar pensando nas coisas daquele livro.
"Vamos jogar xadrez".
"Mas eu não sei jogar xadrez…"
"Tudo bem, eu te ensino", ela se levantou do sofá até que animada, "É fácil".
Luana começou a andar em direção ao seu quarto, e Nicole a seguiu. Aquela foi a primeira vez que Nicole viu o quarto da Luana, então ela ficou espantada ao ver que tudo, absolutamente tudo lá dentro era branco. O chão, as paredes e o teto eram imaculadamente brancos, os armários de madeira pareciam ter sido pintados de branco talvez pela própria Luana, o edredom mais parecia um lago de leite, e a cortina de rendas brancas cobria toda a janela, provavelmente porque a vista não era inteiramente branca. Enquanto Nicole olhava embasbacada para aquele monte de tons de branco sem nenhuma outra cor no meio para manchá-los, Luana abriu uma gaveta e tirou um tabuleiro de xadrez lá de dentro, enquanto explicava:
"É assim, o cavalo anda em L, o peão só anda pra frente, a torre mata com dois quadrados de distância, a rainha deve ser protegida, o rei anda o quanto quiser para protegê-la e o bispo morre no lugar da rainha se ela for atacada. O jogo acaba quando matam a rainha. Entendeu?"
"Hm… Acho que sim…"
Então Luana fechou a gaveta e voltou para a sala com o tabuleiro e as peças, colocou-as no chão e sentou. Nicole veio atrás e se ajoelhou do outro lado do tabuleiro, ficando sentada em cima dos pés, esperando o próximo comando da Luana: "Eu sou as peças brancas e você é as pretas, tá? Pode começar".
As duas começaram a mover as peças alternadamente e logo estavam completamente entretidas no jogo. Comemoravam quando conseguiam comer uma peça da outra e se lamentavam quando a perdiam. Parecia que as duas viraram amigas simplesmente por brincarem juntas. Não demorou muito para que começassem a conversar. Primeiro falaram sobre o jogo, e o assunto foi aos poucos deslizando para elas mesmas:
"Nic, você é boa nisso…"
"Mas eu to perdendo! E essa é a primeira vez que to jogando xadrez."
"Também é a primeira vez que to jogando."
"Hã? Sério?"
"Nunca perguntei se a Clarissa queria jogar… Mas provavelmente ela iria recusar agora. A gente fazia coisas juntas quando éramos crianças, mas aí fomos crescendo. Acho que acontece com a maioria dos irmãos. Vão se separando."
"Hm, comigo foi o contrário. Eu tenho um irmão mais velho. A gente nem conversava quando crianças, até que…", terminou a frase na sua cabeça e por menos de meio segundo seu rosto foi tomado por traços de menosprezo, "De qualquer jeito… Quando eu tinha uns catorze anos nós começamos a conversar bastante. Ele é meio bobo."
As duas deram uma risadinha, e o telefone começou a tocar. Nicole levou um susto, pois o telefone nunca tinha tocado desde que ela passou a morar lá. Luana se levantou com um suspiro engasgado, foi até a cozinha e o atendeu. Apesar da Nicole saber que não era educado ouvir a conversa dos outros, não tinha como não ouvir a voz apática que vinha da cozinha: "Alô? Ah, oi, mãe. Não, é a Luana. Ela não tá. Aham… Tá tudo bem sim." Um longo silêncio… "Aham, eu sei. Tá, tchau."
Ela desligou o telefone e voltou para o seu lugar:
"É a minha vez agora?"
"Ah, sim…"
Luana moveu um peão um quadrado para frente, e ficou esperando a jogada da Nicole com os olhos fixos no tabuleiro. Estava claro que o clima não era o mesmo. Então Nicole moveu um cavalo e perguntou hesitante:
"Hã… Quem era no telefone?"
"Minha mãe"
"Ah! Seus pais moram muito longe?"
A menina continuou encarando o tabuleiro, como se estivesse pensando em alguma jogada muito genial, e depois de mover outro peão para frente, por fim murmurou:
"É… Onde será que eles moram?"
Nicole levantou as sobrancelhas:
"Como assim?"
A outra respirou fundo e respondeu, o mais indiferente possível:
"Meu pai saiu de casa quando eu tinha cinco anos, e quando eu fiz dezesseis, minha mãe me emancipou e foi embora também". Como Nicole só a encarava sem se mexer, ela disse, "É sua vez".
Nicole tirou os olhos de Luana rapidamente e encarou o tabuleiro. Pensou um pouco, moveu uma torre e logo perguntou de novo, tomando cuidado para não parecer intrometida demais: "Mas… Quem paga as contas e tudo mais daqui? Nenhuma de vocês trabalha, trabalha?"
Luana examinou o tabuleiro e mexeu uma peça, enquanto explicava: "A gente tem uma conta no banco, e todo mês aparece vinte mil reais lá. A gente nunca consegue gastar tudo, então pode usar também."
Antes que Nicole pudesse fazer a próxima pergunta, a porta da casa foi aberta e Clarissa entrou de uniforme, cabelo preso e a alça da mochila sobre um ombro só. Estava voltando de um dia muito estranho no parque, e não parava de pensar naquilo. Como que aquele garoto sabia o nome dela? Ninguém chuta "Clarissa" do nada. Simples assim. Quem que vai chutar "Clarissa"? Mas mais estranho foi a cena que viu ao entrar em casa: a sua irmã antissocial e a menina que por algum motivo fugiu de casa sentadas no chão da sala, com um tabuleiro de xadrez entre elas.
"Bem vinda de volta, Clarissa!", Nicole disse como sempre. Clarissa respondeu com um ar de estranheza:
"Que que cêis tão fazendo?"
"Estamos jogando xadrez! A Lua me ensinou a jogar, é muito divertido!"
Só então Luana se manifestou:
"Ei, quem te deu permissão pra me chamar de Lua?"
"Ah, mas você me chama de Nic…", defendeu-se, "E 'Lua' é um apelido tão bonito!"
"Ah, que seja… É sua vez."
Clarissa ficou olhando enquanto Nicole mexia o rei quatro quadrados para a direita, e então Luana matou um peão preto com a torre, a dois quadrados de distância.
"Não é assim que se joga xadrez."
"Hã? Como assim? Mas a Lua me ensinou que…"
Clarissa olhou para a irmã:
"Você ao menos sabe as regras de xadrez?"
"Não, eu inventei na hora", ela respondeu simplesmente.
"O quê? Você me enganou?! Lua!!", Nicole mais choramingou do que reclamou.
"Ah, foi divertido ué. Vamos terminar de jogar que eu to quase ganhando."
Clarissa revirou os olhos para aquela estranha dupla e foi para a cozinha, onde largou a mochila em uma das cadeiras. Enquanto abria as panelas para ver o que Nicole tinha preparado de janta, ouviu a voz da irmã dizer: "Clarissa, a mamãe ligou."
"Aff, ela só liga quando eu não to", resmungou, colocando arroz e algum tipo de peixe em um prato.
"Porque você fica sempre fora de casa ué", a irmã respondeu.
"E vou ficar aqui fazendo o quê?", com uma mão Clarissa segurava o prato de comida e os talheres, e com a outra abria a geladeira e pegava uma caixa de suco de laranja. Só para provocar a irmã, continuou, "Vou ficar o dia inteiro comendo Nutella, bebendo vodka e olhando pela janela?".
"Você também pode jogar xadrez". Clarissa podia até ouvir os cantos da boca da Luana sorrindo de sarcasmo naquela fala. Ela passou pela sala bufando, com o prato de comida e a caixa de suco de laranja, entrou no seu quarto e bateu a porta. Luana continuou como se nada tivesse acontecido e moveu um cavalo:
"Ganhei", proclamou, dando um peteleco na rainha preta.
"Ah…", Nicole murchou, "E agora?"
"Sei lá. Eu gostei. Vamos jogar de novo."
Então as duas começaram outro jogo, e continuaram jogando até a meia-noite, quando não aguentavam mais ficar com os olhos abertos. Pelo menos iriam dormir rapidamente, sem os pensamentos que as amedrontavam enquanto estavam de olhos fechados na cama. Ou pelo menos achavam que iam.
2 comentários:
Os pensamentos amedrontadores nunca somem...
O que incomoda é o que encontra eco dentro da gente. Talvez por isso a continuação da leitura é compulsória.
E bom, viver (ou jogar ou qualquer outra coisa) segundo as nossas próprias regras é o único jeito de encontrar a felicidade, né? (:
(e sim, eu sei que fiquei te enchendo pra vc escrever e aí demorei 129059201 anos pra vir ler... shame on me! não serei mais tão displicente, prometo)
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