3+ L/luas

Há algumas semanas me ensinaram a distinguir a lua crescente da lua minguante. E eu fico me perguntando por que falam da lua assim, diferenciando-a conforme o dia, se é tudo a mesma lua. Não importa se é a lua minguante ou a Lua crescente ou a Lua nova ou a Luana cheia.  É tudo a mesma Lua! Por que precisam dividir assim, não dá pra dividir, não é pra dividir! Mas insistem nisso, e é assim que a Lua acaba sucumbindo até partir-se em pedaços, e cada um deles vai viver a sua própria vida.
Esta é a Lua simpática e otimista, que mais sai de casa e vive dessa alegre atenção que lhe dão. Já eu sou a Lua calma e melancólica, que vive do pensar e necessita de outro alguém com quem dividir este mundo tão particular. Apesar disso, estou mais acostumada a ficar dentro de casa, com uma máquina de escrever e diversas janelas à minha disposição. Pode não parecer, mas nós, duas Luas, frequentemente saímos juntas para tomar um chá ou um chocolate e conversar sobre a vida. Mas só nos permitimos ser vistas na companhia uma da outra por outros alguéns cuidadosamente escolhidos. 
Outra Lua bastante presente é a que mora no fim do corredor do primeiro andar. Não importa o que coloquemos para bloquear a porta dela, ela sempre consegue derrubá-la e sair correndo pela casa fazendo um escândalo, é um verdadeiro incômodo às outras Luas. Quer dizer, tem algumas que gostam, mas… Bem, o mais importante é que ela seja impedida de sair da casa e encontrar alguém que não uma Lua. E até agora, temos conseguido mantê-la do lado de dentro. Ela é a Lua que me fez escrever "Sorte a minha que ninguém vê beleza interior, senão não sobraria ninguém à minha volta!"
Há centenas de quartos nesta casa, e em cada um habita uma Lua. A partir de certo ponto do corredor do quinto andar não há mais eletricidade, então não sei se existem outros quartos por lá, ou até onde aquele corredor se estende. Mas suspeito que haja Luas lá sim. Algumas das Luas quase nunca saem de seus quartos, outras passeiam por aí de meias, algumas não se aventuram a sair da casa, outras conseguem pôr o pé pra fora e encontrar alguém. Às vezes se ouvem batidas nas portas ou outros ruídos (de vez em quando ouve-se até música!) vindo de dentro dos quartos. Tem quartos trancados do lado de dentro, outras Luas foram trancadas em seus quartos. E apesar de serem todas Luas, a aparência de cada uma é única. Tem Luas de cabelos compridos, curtos, com franja, sem franja, penteados, desarrumados, presos, soltos. A cor da pele difere, dependendo do quão frequentemente elas saem de casa. Entretanto, o que marca não é a luz do sol, mas o calor recebido de outros alguéns. Tem também as roupas, cada uma é livre para vestir o que preferir. Sem falar em detalhes como olheiras, tamanho das unhas, desenhos ou feridas no corpo… É uma casa cheia de Luas. 
E vê que é exatamente este o problema? Porque elas não deveriam estar assim, fragmentadas, cada uma em um quarto. Eu quero ser apreendida inteira. Aceita ou rejeitada inteira. Sem me preocupar com o dia em que convidarei alguém para visitar esta casa e esse alguém poder acabar se deparando com Luas que não suporta. 
É tudo uma Lua só. Uma Luana mutável, sim, mas que no momento é como é no momento. E apesar das diferenças entre as Luas, existe um desejo comum a todas: o de serem vistas e acolhidas (não necessariamente compreendidas) por alguém de fora desta casa. 

1 comentários:

Anônimo | quarta-feira, 04 abril, 2012

Duro é quando se quer acolher a pessoa que te rejeita e que provavelmente nunca te perdoará.

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