Todos os dias seguintes



Muito prazer. Meu nome é Tália. Tenho 17 anos, mas pareço ter 14. Sou da classe alta paulista. Moro nos Jardins. Estudo em um colégio bilíngue renomado. Sou a filhinha única e querida do papai e da mamãe. Estou no terceiro ano do ensino médio. Pretendo prestar Cinema na FAAP. Pretendia. Ah, sei lá. Que importância tem isso agora?

Estou no Conjunto Nacional, escrevendo em um caderno que comprei há uns 2 minutos na Livraria Cultura de Arte. Agora estou sentada em um banco a poucos metros da rampa da livraria principal (sou péssima para estimar distâncias). Escrevo para tentar organizar meus pensamentos. No momento, minha mente está cheia de argumentos favoráveis, contrários e alguns que parecem só querer ocupar espaço e me atrapalhar. E apesar de parecer que esses pensamentos indo em direções contrárias vão rasgar meu crânio, ainda tive o capricho de comprar um caderno Moleskine de R$55,00 para recebê-los. Capa preta. Sem pauta. Meu favorito. Recompensa para quem encontrá-lo: o momento atual e as consequências futuras, de uma adolescente que está por aí, vivendo ao mesmo tempo que você no mesmo mundo que você. 

Por onde começar… Bem, antes daqui eu fui a uma farmácia. Uma farmácia à qual eu nunca mais voltaria, foi esse o critério de escolha. E lá vivi a situação mais humilhante pela qual já passei. Não, espera. A mais humilhante foi ontem. Hoje foi a segunda mais humilhante.

Entrei na farmácia, tentei ir direto no farmacêutico pedir o que queria, mas não consegui. Fiquei lá, uns trinta minutos andando em volta das estantes de shampoos e condicionadores, tentando fingir que era só mais um dia qualquer e que não havia motivos para me preocupar além da escolha do meu próximo condicionador. Como se alguém precisasse de 30 minutos para escolher um condicionador. Repassei a pergunta que faria na minha cabeça obsessivamente, enquanto ouvia "vai lá, não é nada demais, ainda por cima nos tempos atuais!", e ao mesmo tempo "eu não vou conseguir, o que ele vai pensar de mim, com que cara vou perguntar isso?!"

Enfim. 30 minutos olhando condicionadores. Li a parte de trás de uns treze ou catorze. Eu mesma estava me cansando dessa aparente enorme preocupação com condicionadores. Peguei um qualquer, porque meu condicionador realmente acabou ontem. Esperei o último cliente da farmácia pagar suas compras e sair. Pensei "é agora, vai lá pergunta e pronto!" E fui.

Nem sabia que eu conseguia falar tão baixo.

"Moço, vocês têm pílula do dia seguinte?"


...Ele disse que sim, também baixinho, e pegou discretamente uma caixa. "Toma uma, espera 12 horas e toma a outra." Agradeci, paguei e saí olhando pro chão, tentando fazer parecer que tivesse comprado… Apenas um condicionador. 

Ok, talvez agora você se pergunte por que isso foi tão horrível para mim. Imagino que muitas pessoas não pensem que uma menina de 17 anos comprar uma pílula do dia seguinte seja algo tão absurdo e censurável (mas também, lembre-se de que eu pareço ter 14). Acontece que eu nem queria ter me colocado em uma situação em que eu teria que comprar isso no dia seguinte. Acontece que eu genuinamente queria que fosse "só depois de casar". Comprar aquilo foi admitir que o garoto que parecia perfeito para mim não é nem um pouco o que parecia ser, que eu perdi meu valor e a posse sobre meu próprio corpo, e que eu cometi um erro que não importa o que eu faça não tem como desfazer. E agora, ainda por cima, ainda tinha que me preocupar em tomar uma pílula do dia seguinte. 

Voltando à cena… Aí eu saí da farmácia. Era umas seis da tarde (agora são sete e meia). Pensei em voltar pra casa e tomar lá mesmo, mas vai que meus pais me vissem ou invadissem meu quarto enquanto estava engolindo ou algo assim. E também, não tinha certeza se queria tomar mesmo aquilo (ainda não tenho, aliás, e é por isso que escrevo). Saí andando, sem saber exatamente pra onde. Parei em um posto e comprei uma garrafa de água pra tomar com a pílula. Continuei andando. Pensando se tomava ou não.

Tentei ligar pro meu namorado algumas vezes, conforme andava para lugar nenhum. Em primeiro lugar, queria xingá-lo (como se eu conseguisse, mas enfim, a vontade era é essa). E segundo pra perguntar o que ele achava e fazê-lo se sentir culpado por eu ter que tomar a pílula agora. Ele não me atendeu nenhuma das vezes. E depois me mandou uma mensagem falando "foi mal, tava jogando e não ouvi o celular tocando."

Apenas um conselho amargo: nunca namore um garoto menino que realmente gosta de jogar coisas feitas para crianças perderem tempo. 

E novamente voltando para a história, porque nem sei quando comecei a desviar do assunto… Fui andando, andando, andando, e acabei chegando no Conjunto Nacional. Sentei em um banco, tirei a caixinha do remédio (porque agora um possível bebê é uma doença) e a abri.

Li a bula inteira. 7 vezes. Mas a única coisa que lembro é que se eu vomitar até 2 horas depois de tomar, tenho que tomar de novo. Não duvido que eu vomite. Não porque tenha estômago fraco, muito pelo contrário. Eu não vomitaria a pílula a em si. O que eu vomitaria é minha decisão. Vomitaria tudo o que fiz nas últimas 48 horas. E vomitaria com gosto.

Sem conseguir decidir se tomava aquilo ou não, entrei na Livraria Cultura de Arte e comprei este caderno no qual agora escrevo pra me ajudar na decisão.

Tomar ou não esta pílula?

Se eu não tomar… Talvez eu engravide. E se eu engravidar… Minha vida acaba por aí mesmo. Provavelmente vou ser rejeitada pelos meus pais. Acho que nem vou conseguir terminar o terceiro ano... Eu que não vou pro colégio com uma barriga que me denuncia. Aliás, não vou querer ir pra lugar nenhum. Tchau, faculdade. Tchau, sonhos. Tchau, minha vida. E além disso, não tenho amigos para me apoiar. Só tenho um garoto (porque agora as relações com as pessoas são relações de posse) que eu gostaria de matar.

Não, espera, eu não quero matá-lo não. Se eu engravidar, a verdade é que não espero que ele me ajude, de qualquer jeito. Mas pode ter certeza de que eu vou levá-lo pra baixo junto comigo. Sim, minha vida vai ser arruinada, mas ela não vai sozinha.

E se eu tomar a pílula… E estiver acontecendo uma fecundação no meu corpo, que daria em uma pessoa… A vida desse aí acaba por aqui mesmo.

E nem venha me dizer que tudo bem tomar a pílula porque o que pode ser que esteja dentro de mim ainda não é vida. Sua visão é tão limitada assim pra não conseguir enxergar o vir a ser?

Vir a ser. Porvir. Também conhecido como aquilo que mantém as pessoas de pé. Porque se você não tivesse perspectiva alguma pro seu futuro, você já teria se suicidado ou estaria deitado em um sofá, sem forças nem para se matar.

Se no futuro eu tiver muitas chances de estudar e conhecer muitas coisas que me inspiram e me fazem refletir e virar uma cineasta famosa, por exemplo. Se existe alguém que agora, neste exato momento, pode fazer alguma coisa para acabar com o meu vir a ser (tipo fechar algum curso que seria muito importante na minha formação, ou matar uma pessoa que seria importante para a minha ascensão), eu com certeza não gostaria que ele o fizesse. E se o encontrasse, pediria e até imploraria para que ele não o fizesse. E se mesmo assim ele não me ouvisse e estivesse decidido a tomar a atitude que acabaria com o meu vir a ser, eu faria de tudo para impedi-lo.

E me diga, você não faria o mesmo? Se pudesse, você não lutaria contra qualquer coisa que tem o poder de acabar com o seu vir a ser?

E se dentro de mim houver uma pessoa que virá a ser feliz, apesar de tudo? Que virá a ser importante para a vida de outra pessoa. Neste caso eu estou acabando com o vir a ser não apenas de uma pessoa, mas de duas. Essa decisão terá um efeito imenso no vir a ser. Eu não tenho condições de decidir! Nenhuma pessoa deveria ter o poder sobre a vida de outra pessoa! Pessoas são egocêntricas e egoístas, é óbvio que elas não têm condições de decidir esse tipo de coisa! Não deveria ser do poder das pessoas decidir esse tipo de coisa!!

Só porque não se vê o vir a ser materializado na sua frente ele é menos real que o que agora é??

E eu, o que faço? Sou igualmente pessoa, portanto egocêntrica e egoísta. Sinceramente, eu quero tomar a pílula pra não correr o risco de engravidar (então eu quero tomar pra não correr o risco de deixar outra pessoa existir, sendo que eu tive a oportunidade de existir?)

***

Não adianta. Meu egoísmo é maior. Eu tomei a pílula.

Vou deixar este caderno aqui neste banco. Talvez alguém encontre e leia por curiosidade. Agora vou voltar pra casa. E se minha mãe perguntar por que demorei tanto para voltar, vou responder que é muito difícil decidir qual condicionador comprar.  

4 comentários:

Matheus Takeshi Yabiku | domingo, 20 maio, 2012

Se eu for lá agora eu acho esse caderno?? 8D

De qualquer jeito, essa questão é bem delicada... Acho que o conflito de interesses é o que reina, já que o certo ou errado me parece definido(IMHO).
ah... o vir a ser...muita coisa a se pensar.(como ainda não foi, poderia ser tudo...)

Gostei bastante do texto =D

Jessica Priscilla Huang | domingo, 20 maio, 2012

Foi mal Matheus, achei o caderno primeiro ;D Mas eu gostei da ideia... Fiquei com vontade de escrever alguma coisa em um caderno também e largar em algum lugar. Podíamos fazer isso um dia!

Concordo com a sua humble opinion. E fiquei meio assim com o final do texto... Achei que ela não ia tomar a pílula, depois de todos os argumentos sobre o vir a ser...

Obrigada! :D

Elizabeth | terça-feira, 22 maio, 2012

Oh, o caderno é real? Se for é especialmente genial, se não for, ele é extremamente genial.

Se o meu vir a ser fosse um estorvo para alguém, preferia até não existir. "Tome logo a pílula", diria.

Elizabeth | terça-feira, 22 maio, 2012

Aliás, sim, imensa discussão...

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