Leãozinho
A menininha de três anos e meio escalou para o colo do pai, que estava sentado na frente da tela brilhante da sala que faz tec tec tec com os dedos.
- Papai, papai!
- O que foi, bonitinha? - ele olhou para ela mesmo estando ocupado.
- Traz o Leãozinho pra brincar?
- Ué, de novo? Mas você já brincou com ele hoje de manhã, bonitinha.
Ela se ajeitou no colo do pai e pediu bem pedido, agitando os bracinhos no ar:
- Quero o Leãozinho! Eu gosto do Leãozinho! Ele faz rawr!
Pareceu funcionar, porque o pai riu junto com ela, colocou-a no chão e disse que já ia trazê-lo. Logo depois voltou, com o Leãozinho em cima de uma das suas mãos: um bichinho simpático de pelo laranja, juba fofa e uma cauda que balançava pra lá e pra cá.
O Leãozinho abriu a bocona e fez:
- Rawr!
A menininha deu pulinhos de alegria e se jogou no sofá, e o Leãozinho e o pai vieram atrás para brincar.
- Olá, garotinha! Que bom te ver de novo!
- Oi, Leãozinho!
E abraçou o seu amigo de cabelo engraçado.
- Fala oi pro papai!
- Oh, é mesmo, que cabeça a minha! Olá, pai da garotinha! - cumprimentou-o respeitosamente com um aceno de cabeça.
- Olá, Leãozinho - o pai respondeu - E então, do que vocês vão brincar?
A menininha esperou a resposta do Leãozinho, que sempre tinha uma boa ideia.
- Raawr, tem tantas coisas para brincar! Mas estou pensando em uma brincadeira que a garotinha gosta muito... Estátua! Então por que você - e se virou para o papai - não canta para nós, e quando você parar, a gente tem que virar estátua? Que tal, garotinha, gosta dessa brincadeira?
- Siiim! - a menininha berrou de volta.
E o pai começou a cantar uma música que a menininha não entendia nada, ("É inglês, bonitinha, um dia você entende") e ela e o Leãozinho começaram a dançar, virando estátuas sempre que o pai parava a música no meio de uma palavra.
Brincar com o Leãozinho era sempre tão divertido. Ele era a terceira pessoa (ou animal?) que a menininha mais gostava, depois da mãe e do pai. Uma vez a menininha perguntou ao Leãozinho se ele era o seu bichinho de estimação, e ele respondeu indignado que não, porque ele era o rei da floresta, e nenhum rei da floresta pode ser um bichinho de estimação. E que ele preferia ser o seu amigo. Havia outros animais em cima da cama da menininha que os pais diziam ser também seus amigos, mas ela sabia muito bem a diferença entre eles e o Leãozinho. Todos eram macios e peludos e gostosos de abraçar, mas só o Leãozinho falava mexendo a boca, só o Leãozinho se movimentava, só o Leãozinho tinha o corpo quentinho, só o Leãozinho era como ela. Por isso só ele era o seu amigo.
Depois que o pai já tinha cantado umas cinco músicas diferentes e o lado de fora começava a ficar escuro (o que significava que a mãe chegaria dali mais um tempo), o Leãozinho soltou um rugido cansado e disse que queria dormir.
- Mas já? - protestou a menininha.
- Já! Um leão precisa dormir muito! E o seu pai ainda precisa lavar a louça do almoço antes de começar a fazer a janta.
Aí a menininha soube que não tinha jeito: o Leãozinho tinha muita consideração pelo pai, e se ele não pudesse mais brincar, o Leãozinho também não brincava. Ela ainda tentou fazer beicinho e reclamar, mas o Leãozinho se adiantou:
- Não faça essa carinha... A gente brinca amanhã! Agora... Cadê meu abraço de despedida?
A menininha o abraçou forte, ainda contrariada, e ele e o pai sumiram pelo corredor. A menininha ficou espiando, e viu os dois entrarem no quarto dos pais. Bem que suspeitava que era ali onde ele dormia!
Ela correu novamente para o sofá quando ouviu os passos do pai voltando para a sala, e fingiu começar um desenho enquanto ele ia para a cozinha. Assim que ouviu a água da pia correndo, a menininha se esgueirou para o corredor e foi engatinhando para o último quarto. Chegando lá, ficou de pé e apertou o interruptor.
Devia estar por aqui, em algum lugar do quarto grande dos pais. A menininha olhou em volta, mas não viu nada laranja ou peludo.
"Onde leões dormem?", ela se perguntou.
Então a menininha agarrou o edredom fofinho da enorme cama dos pais e foi puxando com muita força, até ele estar todo no chão, mas não havia nada escondido querendo dormir por lá, nem mesmo debaixo dos travesseiros.
"Lugares escuros!", ela continuou, e olhou debaixo da cama, apesar do chão ser duro e portanto não um bom lugar para dormir. E o Leãozinho também não estava lá.
A menininha ficou na ponta dos pés para espiar as gavetas da escrivaninha, e de novo, nada.
Só restava um lugar escuro por ali: o armário de roupas. Ela cruzou o quarto, confiante de que dessa vez encontraria o Leãozinho, e se esticou para abrir as portas do armário. Olhou para cima e abriu um sorriso de alívio e vitória quando viu um rabo laranja com um tufo marrom na ponta pendendo para fora da estante mais alta.
- Leãozinho! - ela gritou, mas logo fez como se tapasse a própria boca, porque o pai ficaria bravo se a encontrasse lá, acordando o Leão.
A menininha voltou para a escrivaninha e empurrou uma cadeira de rodinhas para perto do armário, tentando não fazer nenhum barulho, nem com a cadeira, nem com seus risinhos. Apoiando as mãos no assento da cadeira, depois no encosto, e depois nas estantes do armário, a menininha foi subindo, equilibrando-se e ficando de pé, mesmo com a cadeira ameaçando girar.
- Leãozinho! - ela sussurrou com expectativa, puxando-o pelo rabo e levando-o às mãos - Leãozinho, acorda!
Mas o Leãozinho não se mexeu. A menininha agachou e sentou-se na cadeira, segurando o Leãozinho com as duas mãos, e percebeu que ele não estava dormindo porque seus olhos estavam abertos como sempre.
- Leãozinho! Leãozinho!
Ela esperou, olhando para ele. Igualmente mudo, completamente imóvel.
- Leãozinho?
A cabeça dele inclinou para trás.
- Leãozinho... Rawr...
A menininha o abraçou, mas a sensação do abraço foi tão diferente de sempre que ela se assustou e atirou o Leãozinho no chão.
Mesmo assim, ele não se mexeu nem falou nada. Apenas continuou lá, da forma como havia sido jogado, com os olhos abertos virados para o teto.
Ouvindo um choro que nunca ouvira até então, o pai apareceu à porta do quarto, com as mãos ainda molhadas da louça e as sobrancelhas retorcidas em pânico. Encontrou sua filha encolhida em cima da cadeira, e ela nunca lhe pareceu menor. No chão entre eles estava o fantoche de leão: vazio, inerte.
Em sua sabedoria de pai, compreendeu, e além: compreendeu que não poderia ser desfeito. Então em silêncio ele pegou a menininha no colo e lamentou em unidade com ela, como uma estátua quando a música repentinamente para.
2 comentários:
ESTOU DE VOLTA O_O Depois de quase 1 ano desde a última atualização. Com mais desgraças para a internet. Esse é um conto de outubro de 2014 que eu acabei não postando. Espero retornar ao hábito de escrever, mesmo que ninguém leia, só porque me faz bem.
Eu fiquei tanto tempo longe daqui e é ótimo ver que vc ainda anda escrevendo (:
(mesmo que eu tenha parado, shame on me...)
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