O que aprendi em 3 anos longe da igreja
Minha família é evangélica desde que tenho 10 anos (e antes disso éramos católicos mais ou menos praticantes, quer dizer, minha mãe comprava estátuas da Maria e de outras santas que ficavam em lugares especiais da casa com velinhas na frente e umas outras coisas assim). Desde que minha mãe "nos converteu", passamos a frequentar uma igreja evangélica quase todos os domingos. Dei uma parada no terceiro ano do ensino médio, voltei com tudo no primeiro ano da faculdade (mas dessa vez em outra igreja) e parei de novo no segundo ano da faculdade. Agora estou no quinto ano da faculdade, o que significa que meu "auge de cristandade" já está a 3 anos de distância. Não cortei totalmente as relações com essa antiga vida, mas foi o bastante pra isso ser um marco na minha trajetória e me fazer pensar em comparações entre a eu "daquela época" com a eu "de agora". Pois bem. Nesses 3 anos em que estive longe da igreja, foi isto que aprendi, percebi e vivenciei:
- todos estão tentando, sofrendo e tendo momentos felizes, e as "provações" e "bênçãos" dos cristãos não são mais dignas que as do resto do mundo;
- há lugares muito mais hospitaleiros que uma igreja evangélica, lugares onde as pessoas têm umas coisas como empatia, compreensão, compaixão, perdão e aceitação incondicional, que eu nunca senti em uma igreja (e isso é ironicamente triste);
- achar que você é salvo e o resto do mundo é pecador faz muitas pessoas se tornarem arrogantes-mor sem nem perceberem, e do alto dos seus pedestais (porque afinal, são elas que estão mais próximas do Céu), elas julgam-condenam tudo e qualquer coisa. Tentar compreender outras pessoas nem passa pela cabeça. A parte da Bíblia que diz para não julgar porque isso não é teu trabalho e nem te interessa também não passa pela cabeça;
- essa noção de ser um dos poucos salvos em um mundo que jaz no maligno também faz muitas pessoas se tornarem paranoicas a ponto de internação, o que é engraçado porque se a sua fé é verdadeira e o seu Deus é todo-poderoso, não há motivo para ter medo de um ataque, abalo ou provocação;
- ainda não entendo porque os cristão se fecham tanto entre si se uma das suas maiores preocupações deveria ser pregar o evangelho e salvar pessoas que eles teoricamente amam (exceto os calvinistas, que aí é outra história);
- também não entendo porque alguns pecados são mais condenados que outros no ambiente das igrejas. Não é difícil encontrar alguém tipo "OS GAYS NÃO HERDARÃO OS REINOS DOS CÉUS", "SEXO SÓ DEPOIS DO CASAMENTO, SEM FORNICAÇÃO POR AQUI", mas nunca vi um "DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR, SEU SONEGADOR DE IMPOSTOS!!". Freud diria que só tem proibição onde tem desejo;
- crescer na igreja me fez ser incapaz de ver as coisas de outros pontos de vista e foi necessário um baita trabalho e muitas horas de ruminação angustiosa para conseguir me colocar no lugar do outro, compreender o outro e ver as coisas um pouco mais do jeito que o outro vê;
- é possível duas pessoas brigarem por horas, berrando versículos da Bíblia na cara da outra, cada uma defendendo pontos de vistas opostos sobre uma questão que não tem importância ou que não é da conta delas. Só imagino Deus olhando e falando "que isso, não mete minha Palavra nisso não...";
- "viver em comunidade" na igreja que eu frequentava parecia significar "fofocar e passar informação distorcida (mentiras) pra frente". Pelo menos fora da igreja as pessoas que fazem isso não escondem que adoram uma fofoca ou tentam dar um nome espiritualmente elevado pra coisa;
- são poucos os cristãos que estão a fim de discutir ou conversar saudavelmente sobre alguma questão que, na verdade, todos temos dúvidas. A maior parte vai te dar uma resposta pronta que eles leram/ouviram por aí (tipo "Jesus só podia ser: um louco, um mentiroso ou realmente Deus", ou ainda "Porque para ser amor de verdade tinha que ter a escolha de não amar"). E raramente você encontra alguém que admite "Eu não sei. Mas isso não é obstáculo para a minha fé", o que me convence muito mais do que aquelas respostinhas que se acham marotas;
- e apesar de tudo que eu mesma listei, ainda espero algum dia voltar a conversar e confiar em Deus como antes, porque pessoas são só pessoas, a gente erra mesmo, e a minha espiritualidade não depende (ou não deveria depender) de igrejas ou pessoas que frequentam igrejas. E se eu recuperar minha fé, da próxima vez estarei alerta e consciente dessas coisas e poderei ser diferente de tudo que critiquei aqui.
1 comentários:
Adoro essas conclusões, muito bom. Sinto então que se nos reencontrarmos estaremos bem mudadas mesmo.
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