Por que as flores voltam
Um garoto gostava de uma menina que gostava de flores. Ele a viu pela primeira vez em uma terça-feira em que decidiu fazer um caminho diferente para voltar para casa, passando por um parque. E foi em um canto desse parque que ele a viu, sentada em um banco branco, usando um vestido também branco e de cabelo solto. O garoto sabia que a menina gostava de flores porque aquele banco era cercado por elas, e a menina ficava o tempo todo olhando para elas. Então o garoto passou a fazer esse caminho toda terça-feira só para vê-la ali, sentada com os pés em cima do banco ou deitada de barriga para baixo com os pés para cima, olhando uma flor sortuda que estivesse por perto.
Várias semanas se passaram, vários passeios pelo parque, vários segundos da menina com as flores. Um dia, porém, o garoto foi ao parque e as flores não estavam mais lá ao redor do banco. E, como esperado, a menina também não. Por um segundo, o garoto ficou sem saber o que fazer ou o que pensar, mas então teve uma ideia. Na próxima terça-feira, ele mesmo compraria flores e as colocaria em cima daquele banco. A menina com certeza voltaria, como por mágica, como se ela surgisse a partir das flores e do banco, somente às terças-feiras. Quem sabe fosse isso mesmo. Por isso o vestido dela era branco: porque o banco o era.
Na semana seguinte, o garoto fez conforme o plano: comprou um buquê de pequenas flores amarelas, colocou-o em cima do banco e esperou de longe. Viu a menina chegar (então isso significava ela não era uma criatura mágica do parque...), ver as flores em cima do banco, olhar ao redor, pegá-las com cuidado e deitar como sempre. Ela parecia feliz abraçada às flores que o garoto escolheu. Essa visão o alegrou tanto que o garoto prometeu a si mesmo que faria isso toda semana!
Por um longo tempo, o garoto colocou flores em cima do banco, cada terça-feira um buquê diferente, apenas para observar a menina por alguns segundos. Voltava para casa e ficava horas pensando nela. Devia ser a filha mais nova da família, com cinco irmãos, e se dava muito bem com o terceiro. Com certeza sua fruta favorita era manga e sabia cozinhar uma ótima omelete. Talvez tivesse um cachorro. Preferia gatos, mas o terceiro filho gostava muito do Noz Moscada (era esse o nome do cão), então ela aprendeu a gostar dele também.
De tanto vê-la e imaginar como ela era, o garoto sentia que conhecia muito bem a menina. Talvez foi por isso que em uma certa terça-feira, ele se aproximou naturalmente dela, que estava deitada no banco, e perguntou:
- E se chover?
A menina voltou os olhos na direção do garoto e respondeu, com um sorriso frágil e inocente:
- Aí eu me molho.
O garoto achou a resposta satisfatória e continuou:
- Como vai o Noz Moscada?
- Quem? – ela perguntou, inclinando a cabeça.
O garoto se lembrou então de que ele mesmo que inventara isso, e pela primeira vez pensou que as chances do irmão dela e ele terem tido a mesma ideia de nome para o cachorro eram mesmo muito pequenas.
- Posso sentar?
- Uhum – a menina murmurou, sentando-se para dar espaço para o garoto.
Ele se sentou ao lado da menina, e ficou olhando para os próprios pés. A menina parecia não se incomodar com o silêncio, apenas ficava brincando com o buquê do dia, então o garoto decidiu ser o primeiro a falar:
- Tem uma coisa que eu ainda não entendo. Por que você gosta tanto de flores?
A menina olhou séria para o garoto e respondeu:
- Porque elas são bonitas e estão sempre no mesmo lugar quando preciso delas. Diferentemente das pessoas.
- Aconteceu alguma coisa com os seus irmãos? – ele perguntou.
- Eu não tenho irmãos – ela respondeu confusa.
Só então o garoto percebeu como tudo aquilo que estava vivendo não fazia sentido algum! Apaixonara-se por uma menina que via durante alguns segundos por semana e nem reparou que não sabia nada de verdade sobre ela, ele que inventara tudo! Passara meses admirando-a sem que ela soubesse. Estava agora sentado ao seu lado, falando coisas que provavelmente a faziam pensar que ele era louco! Esse pensamento o atormentou tanto que ele se levantou e fez menção de ir embora, mas então ouviu a voz fraquinha da menina atrás de si:
- É você quem deixa as flores aqui, não é? – o garoto se virou e viu o rosto da menina ficar vermelho - Obrigada.
- P... por nada... – ele sentou novamente - Você sabe quem eu sou?
- Um garoto que passa por este parque toda terça... Um garoto gentil que deixa flores de que eu gosto muito. Faz tempo que sei quem você é.
O que a menina falou fez o garoto ficar tonto de alegria, o que torna compreensível suas próximas palavras, ditas sem pensar:
- Eu gosto muito de você. Deixe-me ser como as flores. Eu quero estar sempre aqui quando você precisar.
Ela sorriu, mas com mais tristeza do que alegria:
- Você não sabe o quanto já me ajudou. Mas eu não posso.
- Você já tem alguém? – ele perguntou, com a voz falhando.
- Não, não é isso. Eu apenas não posso. Não me espere. Não sei até quando poderei voltar.
Nesse momento, os olhos da menina começaram a brilhar de lágrimas, e ela saiu correndo do banco. O garoto continuou sentado lá, pois sentia que nenhuma força lhe restava no corpo. Ele só foi embora quando o parque estava fechando, quase à noite.
Na terça-feira seguinte, o garoto colocou flores em cima do banco como sempre. Mas a menina não apareceu. Nem na semana seguinte. Nem na outra. Nem em todas as outras terças-feiras que se seguiram.
O tempo passou, e o garoto já não era mais um garoto e a menina há tempos não era mais uma menina. Mas nem mesmo em uma terça-feira o banco deixou de receber um lindo buquê de flores. Muitas vezes o garoto pensou, com gratidão e luto, se o tempo havia esperado eles conversarem ao menos uma vez para então finalmente levar a menina embora.
6 comentários:
Noz moscada... isso me lembra... moscas? Blargh
É, esse universo me parece louco. Talvez não seja, mas é esse pensamento que me faz querer ficar aqui... um pouco mais.
Uow!!! >w<
adorei esse texto! Acho que me identifico com o garoto...
Acho que por enquanto esse é o me texto favorito
~(>°w°)>S2
waaaaaaaaaaaaaaaaaah!! muittoo bom jeeh! haha
gostei!! triste.. mas muito legal!
sei la, acho q a gnt gosta de coisas meio tristes!
=]
ooh, obrigada a todos!! <33 Eu me diverti muito escrevendo e pensando nesse texto! ^___^ Tava querendo fazer algo mais sweet há bastante tempo...
めぐる木々たちだけが
ふたりを見ていたの
ひとどころにはとどまれないと
そっとおしえながら
Uau, Jéssica, que texto hein.
Muito legal o sentimentalismo empregado na construção e o fim repentino. Gostei mesmo
Beijão
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