Além do Cinza - Capítulo II

Aquela voz parecia tão distante que, pensando tratar-se de um sonho, ela apenas balbuciou de volta algumas poucas palavras ininteligíveis. O dono da voz chegou mais perto:
- Ah, opa, você tá dormindo, desculpa.
- Quê? Que horas são? - perguntou com os olhos agora mais ou menos abertos.
- Não sei.
Ela levantou o pulso esquerdo para ver a hora:
- Nossa, já são cinco e trinta! - se levantou em um salto e viu a pessoa com quem estava falando: um garoto de altura regular e rosto comum, mas que por alguma motivo parecia ser diferente dos outros. Talvez fossem as fendas palpebrais. Ainda com sono, a única coisa que conseguiu falar foi - Você não tem relógio?
- Não.
- Mas todo mundo tem relógio. Regra 26. Não dá pra viver sem um.
- Hm... - olhou para o lado e começou a enrolar uma mecha do cabelo no dedo. Lia olhou para o relógio novamente.
- Cinco e trinta e um. Tenho que ir. Estudantes não podem estar fora de casa depois das seis. Regra 89.
E saiu correndo pelas árvores, pelo corredor de tijolos e pelas calçadas agora conhecidas. Enquanto corria, começou a assimilar o que acontecera. Um bosque não tão longe de casa! O que outra pessoa estava fazendo lá? Deveria ter perguntado quem ele era, ao invés de ficar falando sobre relógios. Passou dias imaginando se ele estaria lá novamente, no meio de todas aquelas árvores. Ah, as árvores... Havia algo nelas que a deixou tão... tranquila? É para essa sensação que essa palavra serve? Essa coisa de prestar atenção apenas ao que está à sua volta e esquecer-se do que não está ao alcance dos olhos. Foi como se ela tivesse, pela primeira vez, tomado consciência de que estava viva.
Só depois de duas semanas Lia conseguiu convencer seu lado obediente à rotina a voltar àquele lugar, após, como todo dia, voltar do Instituto com Francine. Queria sentir-se viva mais uma vez, e foi com esse desejo que chegou ao bosque.
Tudo continuava igual: a terra escura, os troncos altos, o céu cinzento, o lindo abandono. Dessa vez quis saber o quão grande era o bosque, então começou a andar em linha reta. Quanto mais avançava, porém, mais denso ele ficava. "Devo estar andando há vinte minutos". Ao redor, apenas troncos e o barulho de folhas secas sendo pisadas, que começaram a soar mais intensamente, como se ela não fosse a única a pisoteá-las. Lia se virou mas não viu ninguém.
- Quem está aí? - gritou, e percebeu que sua voz tremera um pouco.
Mais um farfalhar de folhas e uma figura familiar apareceu detrás de uma árvore:
- Ah. A menina que tava dormindo aqui o outro dia.
- O menino que me acordou o outro dia.
- Então você era real. Bom saber que não estou ficando louco.
"O que ele achou que eu fosse? Uma ilusão? Que... excêntrico". E ficaram a olhar um para o outro. Ela via um garoto magro e pálido, de cabelos e olhos escuros em uma camisa branca e calça branca. Ele via uma garota magra e pálida, de cabelos e olhos escuros em uma camisa branca e saia vinho até os joelhos. Por um intervalo ao mesmo tempo curto e longo, permaneceram assim, sem dizer nada. Ela foi a primeira a falar:
- Eu me chamo Lia. Qual o seu nome?
Respondeu após um lento desviar de olhos:
- Lia, o seu nome muda quem você é?
- Como assim?
- Uma rosa teria outro cheiro se não se chamasse rosa?
- É claro que não.
- Então nossos nomes não interessam.
"Argumento bom o suficiente".
- Mas do que eu te chamo então?
O garoto novamente enrolou o cabelo entre os dedos para pensar:
- Que tal "moço do cabelo preto"? E eu te chamo de moça da franjinha.
"Moça da franjinha" com certeza era patético:
- Ahn... me chama de Lia.
- Tá bom, tá bom. Mas eu serei o moço do cabelo preto.
"Definitivamente excêntrico".
O garoto se virou e voltou a andar como se nada tivesse acontecido. Lia correu atrás:
- Ei! Ei! - ficara surdo de repente? - Moço do cabelo preto! - ele olhou.
- Sim?
- Quantos anos você tem? O que você é?
- Por que você faz tantas perguntas? Até parece uma criança! - disse em tom de brincadeira e voltou a caminhar.
- Você também fez muitas perguntas hoje - defendeu-se enquanto tentava acompanhá-lo - E eu não vejo o problema de parecer uma criança.
- É perigoso querer saber tanto... Mas essas coisas eu posso te responder. Tenho 19 anos e faço a entrega de alimentos todo dia e dos uniformes uma vez por ano. E quanto a você?
- Eu... eu tenho 16 e vou ser programadora. Daqui a seis semanas é o teste. Ninguém mais conhece esse bosque?
- Bem, faz um mês que venho pra cá e você é a única pessoa que encontrei.
Lia apertou o passo para continuar a segui-lo. Por que ele estava com tanta pressa?
- Pra onde você vai?
- Estou procurando uma árvore.
Isso não fez sentindo nenhum para Lia:
- Mas você está cercado por elas! São todas iguais!
- Não seja boba, as árvores são diferentes! Eu até diria que cada folha é única! - ele parou repentinamente e abriu um sorriso - Achei.
Ela observou enquanto o moço do cabelo preto subia em uma árvore. Notou que ele tinha as mãos ossudas e o pulso mais fino que o normal e lembrou:
- O que aconteceu com o seu relógio?
- Quebrei - respondeu, ainda escalando o tronco.
- O quê?!
- Não gosto de relógios - disse se equilibrando sobre um galho - Não aguento o tempo pesando no meu pulso. Não gosto de ser lembrado que cada tique significa um segundo a menos.
Lia amava o som do relógio. Era a representação da constância na qual ela precisava acreditar. Olhou para o alto para discutir com o moço do cabelo preto, mas ele parecia não estar mais naquele mundo, a julgar pelo olhar vago e a expressão neutra. A garota simplesmente sentou-se abraçada aos joelhos e quis também devanear. Ficou encarando uma árvore que estava na sua frente, pensando no que ele dissera. Após alguns segundos se concentrando nos contornos do tronco, dos galhos e das folhas, conseguiu enxergar o que o garoto quis dizer. De repente, as árvores se tornaram estranhamente bonitas e diferentes aos seus olhos. Novamente, a forte sensação de estar viva!
A tarde passou e os dois continuaram no mesmo lugar, confidentes do divagar um do outro, como se o silêncio os tivesse aproximado. Quando Lia voltou para casa às cinco e trinta sem despedir-se com palavras, um mesmo pensamento, mas com significados diferentes, cruzou a mente de ambos: "Será que vamos nos encontrar de novo?".

5 comentários:

Becko | sexta-feira, 12 novembro, 2010

wooow! muuito bom! haha
quero saber o que que é isso! que sociedade mais bizarra! (não que a nossa não seja! xD)

Anônimo | sábado, 13 novembro, 2010

maybe... that was a good idea.
maybe... adventures make us feel alive.
maybe... returning out of the routine makes us feel alive.

can you feel it now?

Elizabeth | sábado, 13 novembro, 2010

UUUAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUUUUU
*olhos brilham*

a forma da qual escreve é fascinante. e eu adoro a palavra "excêntrico", ela é maravilhosa.
adorei esse novo personagem, tenho medo qndo o Centro perceber que quebraram a Regra 26 ><

Jessica Priscilla Huang | domingo, 14 novembro, 2010

Thanks, everyone! <3 Espero que continuem gostando! ^__^
Sim, "excêntrico" é demais, adoro palavras que parecem explicar a si mesmas! É tipo uma onomatopeia semântica!

Anônimo | segunda-feira, 24 janeiro, 2011

Jé, são todos de olhos puxados sem fendas palpebrais menos o moço do cabelo preto?

V

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