Além do Cinza - Capítulo IV

Nenhuma luz estava acesa às cinco da manhã. Felizmente, não levou muito tempo para que Lia se acostumasse à escuridão, e assim conseguiu fazer o caminho até o bosque. Estava caindo de sono, pois normalmente só acordava às sete.
O bosque escuro era um lugar totalmente diferente. As sombras das árvores não se distinguiam muito bem, então a única forma de se orientar era pelo som das folhas no chão. E agora? Para onde iria? Combinaram de se encontrar no bosque, mas ele era imenso! Será que o moço do cabelo preto já estava lá? Se pelo menos conseguisse enxergar alguma coisa...
- Ei! Lia! É você? - ouviu alguém sussurrar.
- Sim! Cadê você? Por que você tá sussurrando?
- Ah, pra ficar mais divertido - uma risadinha - Consegue me ver? Eu tô aqui!
- Ah, achei - disse ao ver uma sombra acenando a alguns metros de distância - O que você queria me mostrar?
- A gente vai ter que andar um pouco - "no escuro?!", pensou horrorizada, mas ele logo a tranquilizou - eu vou balançando o braço, é só seguir. Cuidado pra não bater a cara em uma árvore - outra risada, apesar de Lia não achar graça nenhuma naquilo.
- Como você tá com tanto bom humor a essa hora? - não pôde deixar de perguntar, um pouco irritada.
- Talvez sejam as frutas! Você também deveria parar de comer aquela coisa! Nunca me senti melhor!
Ela recusou educadamente e continuou andando atrás do braço em movimento. O chão se tornara bastante inclinado e ela já estava ficando cansada de subir:
- Tá chegando? Há quanto tempo a gente tá andando?
- Tudo ao seu tempo, cara Lia! Estamos quase lá!
Mal sabia Lia que esse "quase" significava mais quarenta minutos de subida, nos quais ela trombou contra cinco árvores e caiu duas vezes. As árvores se tornavam mais escassas à medida que subiam, até que chegaram ao topo de um monte coberto por um gramado macio, onde ela deitou completamente exausta.
- E então? O que você queria me mostrar?
O moço do cabelo preto se sentou perto de Lia, com as pernas estendidas e as mãos apoiadas no chão atrás do corpo. Clareara um pouco e agora estava tudo, incluindo ele, coberto por tons de azul escuro. Os dois primeiros botões de sua camisa estavam abertos, o que violava a regra 133, mas Lia nem se deu ao trabalho de repreendê-lo, pois sabia que de pouco adiantaria.
- Agora é só esperar... de olhos bem abertos...
Ela obedeceu. Mas o que estariam esperando, afinal? O que havia para ser mostrado no alto de um monte às seis e doze da manhã? Talvez devesse ter ficado dormindo, mal começara o dia e já estava cansada!
Então ela percebeu o que era e retirou os protestos. O céu começou a mudar. “É o sol! Ele me trouxe pra ver o sol!”. Chamaria-o de excêntrico, se ela mesma não tivesse se entusiasmado tanto com aquilo. Não podia permanecer deitada, levantou-se e correu alguns metros para o ponto mais alto do monte. Pela primeira vez, esqueceu-se das regras e do relógio nomeando o tempo. Nem percebeu quando o moço do cabelo preto veio também correndo e se posicionou ao seu lado.
A maior parte do céu resistia no azul escuro, mas o horizonte começava a ceder ao amarelo. Os raios do sol tingiam as nuvens que estavam por perto de laranja e lilás, e o céu também estava se tornando uma mescla de cores infindáveis, que não se deixavam definir nem queriam que descobrissem onde uma acabava e a outra começava. O azul se transformava em amarelo, o lilás em vermelho, o rosa em laranja e tantas outras ao mesmo tempo, no espaço infinito sobre suas cabeças. Enquanto admirava assombrada com tamanha perfeição, angustiou-se com o pensamento de que poderia estar perdendo mais alguma coisa no mundo:
- Que ridículo... O sol nasceu umas seis mil vezes desde que nasci e eu nunca parei pra olhar - murmurou, não sem um pouco de melancolia.
Ao tirar o rosto do céu, viu a fronteira bem longe, aquele enorme muro de concreto sem fim. Aproximou-se do moço do cabelo preto, que também parecia ter avistado a fronteira:
- O que você acha que tem do outro lado?
Ele enrolou o cabelo nos dedos como de costume:
- Hm... Mais chão, mais árvores... Nada de regras nem horários... Espero que não tenha pessoas, senão já vai estar tudo estragado. Você consegue imaginar como seria isso? - perguntou empolgado - E você? O que acha que tem?
- Os perigos dos quais falam. Só não sei o que são.
- Só se for um perigo chamado liberdade.
- E isso não pode ser perigoso?
O moço do cabelo preto refletiu e teve que concordar. Realmente, podia ser perigoso. Mas estava convicto de que não o seria para ele.
- Você acredita em tudo o que dizem?
Ela respondeu um pouco sem jeito:
- Acredito... Só tenho algumas dúvidas... Certas coisas que gostaria de saber, mas acho que não é permitido perguntá-las.
O garoto se interessou:
- Como o quê?
- Hm... Eu queria saber como é o tratamento no Centro de Reabilitação Social, por exemplo.
- Tratamento? Lia, não tem tratamento nenhum.
- Mas então o que eles fazem com as - não precisou terminar a frase, apenas olhar para o garoto foi o suficiente - É por isso que meu vizinho não voltou? Ele nunca vai voltar? – engasgou.
- Não, Lia. Ninguém volta. O Centro é uma sentença de morte.
- Como você pode saber? - choramingou. Não tinha a intenção de ser grossa, apenas não queria acreditar no que estava ouvindo. Ele ficou quieto por alguns instantes, pensando em como convencê-la sem revelar mais do que devia.
- Eu apenas sei. Tudo bem se você não acreditar em mim, mas eu tenho certeza do que disse.
No fundo, Lia sabia que ele estava falando a verdade. No fundo, ela mesma já sabia, ou no mínimo suspeitava daquilo. Segunda mentira que lhe haviam ensinado. A primeira era que tragédias como suicídio não existiam, pois todos eram felizes do lado de dentro da fronteira. Lembrou-se de uma pergunta que fez à Fran semanas atrás e a repetiu para o garoto:
- Você gosta de viver?
Não recebeu expressões de estranhamento dessa vez.
- Sim... Eu gosto muito de viver. Eu gosto demais de viver – alguma coisa estava errada. Suas palavras soaram tão sinceras, mas tão... tristes. E amarguradas. Quando indagou-lhe sobre isso, o moço do cabelo preto hesitou, mas acabou respondendo – Há algo que me preocupa...
- O quê?
Ele voltou o rosto na direção da fronteira e não disse mais nada. Lia sabia que ia ficar sem a resposta daquela pergunta. Depois de alguns minutos de devaneios mútuos, ele finalmente disse:
- A gente podia fugir... Imagina você num lugar sem regras nem horários. Acha que consegue sobreviver? - um sorriso. Devia estar brincando, então Lia sorriu de volta.
- É, quem sabe?
Mas o garoto continuou com os olhos fixos na fronteira. E se ele não estivesse brincando?
- Ah, mas é impossível atravessar a fronteira, não é mesmo? – acrescentou Lia, para desencorajá-lo da ideia absurda.
- É... Acho que sim...
O moço do cabelo preto tirou os olhos da fronteira e os dirigiu para Lia. O sol já iluminava a terra de um ponto mais alto no céu e uma brisa começara a soprar. Ele não parava de olhar. Ela o encarou como que perguntando "Por que tá me olhando desse jeito?".
Lia não esperava pelo o que aconteceu em seguida. O garoto subitamente a agarrou pela cintura e a puxou para si, e enquanto uma mão passeava pelo seu cabelo e pelo seu rosto, a outra a mantinha junto de seu corpo.
- O que você tá fazendo?! - exclamou enquanto tentava se afastar - Você não pode me tocar! É contra a regra - qual era mesmo? - trinta e - trinta e quanto?! - trinta e - tentava se lembrar e se livrar dele, sem sucesso, até que percebeu que teria que quebrar a tal regra se quisesse afastá-lo. Empurrou-o com toda a força que conseguiu reunir, enfim separando-se dele - Você tá louco?! O que foi isso?! - Mas ele também estava ofegante e confuso.
- Eu... eu não sei... De repente... eu senti que precisava... - ele olhou para as mãos e em seguida para Lia, que por sua vez estava com as mãos sobre o lugar onde ele a tinha agarrado - Eu te machuquei? Desculpa, Lia, desculpa. Eu não sei... Por que... Será que... as frutas...? - murmurou, compreendendo.
- Pronto, você descobriu pra que que serve a mistura. Impede as pessoas de ferirem outras! - ele escondeu o rosto, cheio de culpa. Lia ainda sentia as mãos dele na sua cintura. Que sensação horrível! Não apenas a dor, mas também o calor latejante que não lhe pertencia. Não era à toa que isso era proibido! - Agora para de comer essas frutas. E me leva de volta pro bosque.

7 comentários:

Anônimo | sábado, 20 novembro, 2010

vamos fugir!
desculpa, desculpa.
não consegui me controlar...

Elizabeth | sábado, 20 novembro, 2010

vamos fugir!!!! [2]
meu deus, essa sociedade é mais rígida que o comunismo ou a ditadua...
Sua história é fascinante Jeh, eu adoooooooooooro ela ^^
Queremos a continuação ù.ú

Anônimo | sábado, 20 novembro, 2010

Queremos a continuação ù.ú [2]

Jessica Priscilla Huang | sábado, 20 novembro, 2010

Obrigada, pessoas! :D
É um capítulo novo a cada 4 dias! ^_^ Porque eu não consigo em menos tempo que isso @_@

Anônimo | sábado, 20 novembro, 2010

não se preocupe tanto com o tempo!
desde que os capítulos saiam... xD

Anônimo | segunda-feira, 24 janeiro, 2011

O Sol me lembrou Tron! =)

AH | segunda-feira, 04 abril, 2011

"- Só se for um perigo chamado liberdade.
- E isso não pode ser perigoso?" =]

Postar um comentário