Além do Cinza - Capítulo V
Lia não voltou ao bosque nem à biblioteca, com medo de encontrar o moço do cabelo preto. Mas como não queria ir para casa logo depois de sair do Instituto, criou o hábito de perambular por aí. Não via nada de interessante, apenas as praticamente idênticas construções: ou locais de trabalho ou casas com uma porta e uma janela de habitantes. Já havia passado uma semana desde aquele dia do sol.
Seus pés frequentemente a levavam para perto do bosque antes que percebesse. Em uma dessas vezes, às 16:27, sentiu uma gota cair do céu. Em poucos segundos, essa gota se transformou em várias e não demorou para que virasse um temporal. “Ai, que ótimo, é isso que dá não andar com guarda-chuva!”. Não havia muitas opções onde se esconder, então ela tentou se encolher debaixo da marquise de um local de trabalho. Não adiantou muito, estava se molhando praticamente tanto quanto estaria se estivesse na chuva. Sua roupa e seu cabelo estavam gelados e grudando no corpo. Como odiava quando isso acontecia! E não parecia que a chuva ia parar em breve.
Enquanto esperava, ouviu passos de alguém vindo correndo. Não levantou a cabeça para ver quem era, nem quando a pessoa parou ao seu lado e abriu a porta do local de trabalho, nem quando a pessoa interrompeu o abrir da porta e olhou a garota encolhida mais uma vez para ter certeza do que vira. Por isso, ela estava totalmente despreparada para a voz de que tanto gostava, mas que não queria ouvir:
- Lia! Faz tempo que eu não te vejo...
Era o moço do cabelo preto. Por que tinha que se esconder bem na frente do local de trabalho dele?! Ficou alguns segundos encarando-o incrédula, até que percebeu que teria que falar algo. Disse a primeira coisa que lhe veio à mente, de um jeito um pouco hostil:
- Você voltou a comer a nossa comida?
- Aham... Desculpa de novo. Você tava certa, eu não deveria ter feito aquilo... – bem, não havia muito o que fazer além de perdoá-lo, então ela lhe disse que estava tudo bem. Ele terminou de abrir a porta e convidou - Vem, entra aqui até a chuva passar.
Qualquer coisa era melhor que congelar na chuva. Ela o seguiu, esperando encontrar o lugar onde ele trabalhava. Talvez fosse uma sala com comida até o teto! Mas ao entrar, se deparou com um espaço grande e iluminado apenas por uma pequena janela. O chão, as paredes e o teto eram cinzas, e havia alguns objetos pelos cantos. Não conseguiu identificar o que eram, apenas enxergou suas sombras.
- Ahm... Que lugar é esse? – perguntou, enquanto tentava inutilmente secar os braços na roupa molhada.
- Acho que era um depósito. Eu entrei aqui uma vez quando tava fugindo da chuva. Não deve ter problema, tá abandonado mesmo.
Só então percebeu que o moço do cabelo preto estava com um livro debaixo da camisa. Conforme o puxou para fora, achou que o livro fosse se desfazer por causa da água da chuva, mas então percebeu que a aparência destruída se devia à idade. Na verdade, nunca havia visto um livro tão antigo quanto aquele!
- O que é isso? Onde você arranjou?
- Na biblioteca. Ainda bem que ninguém sabe o que tem lá, senão o teriam queimado faz tempo – ele sentou no chão com as pernas cruzadas e o abriu - Não fale desse livro pra ninguém.
Nenhuma outra frase incitaria tanto a sua curiosidade. Ela rapidamente sentou ao lado dele e se esgueirou sobre as páginas amareladas e corroídas pelo tempo. Ele explicou:
- Isso aqui é de anos e anos atrás... Olha essa parte... “uma sociedade justa e igualitária, onde todos podem ser felizes e livres de qualquer espécie de sofrimento.” - Ele esperou com expectativa por alguma reação, mas como não a obteve, tentou esclarecer - É sobre o início! Não era pra tudo isso ficar do jeito que ficou! A intenção era outra. Era algo bom! Mas o plano foi mudando conforme as gerações passaram. E agora a gente tá assim.
Ela continuou sem entender nada. Do que ele estava falando? Início? Do quê? Tudo isso o quê? O garoto continuou, sem dar atenção à sua expressão atordoada:
- No começo devia existir o amor...
Argh. Lia tinha aversão a essa palavra, pois não conseguia entender o que significava e ninguém queria explicar. Mas se alguém pudesse lhe dizer o que era, esse alguém era o moço do cabelo preto:
- Desculpa, mas o que é isso? Minha mãe repete essa coisa todo dia, mas eu não sei o que ela quer dizer.
- Aposto que nem ela deve saber. Os pais são orientados a dizer isso aos filhos e ao par, sabia? – ele ia começar a enrolar o cabelo entre os dedos, mas sentiu-o molhado quando o tocou e retirou a mão, convencido de que não conseguiria raciocinar direito sem o seu habitual gesto - Amor é quando você gosta muito, mas muito mesmo de alguém.
Era tão simples assim? Anos e anos imaginando o que era aquilo que mencionavam à exaustão e era só isso? Não pôde deixar de ficar um pouco decepcionada.
- Hm... Tem problema nunca ter sentido isso? – tentava evitar a palavra.
- Acho que significa que você é igual a todas as outras pessoas.
- Ufa, que bom, então eu sou normal! – voltou os olhos ao moço do cabelo preto e percebeu que ele não parecia compartilhar do seu alívio. Será que - Você já gostou muito, muito de alguém?
Um longo silêncio, no qual ele perdeu os olhos em lembranças. Preferia dizer que não, mas não queria mentir outra vez para aquela voz inocente e infantil, então balançou a cabeça positivamente.
- É por isso que você está triste agora?
Nem percebera que deixara a mágoa transparecer... Balançou a cabeça novamente.
- Então vai ver que é por isso que não existe mais. Fazia as pessoas sofrerem.
Depois de alguns segundos ele assimilou o que ouvira. Como nunca havia pensado nisso? Falou em voz baixa, mais para si mesmo, como se tivesse decifrado um enigma:
- “livres de qualquer espécie de sofrimento”...
- Mas não entendi porque fazem as pessoas falarem isso, se é algo ruim.
O moço do cabelo preto voltou à realidade e respondeu propriamente:
- Acho que apenas virou tradição. Ninguém sabe o que é, de qualquer jeito.
- Ainda bem que acabaram com essa coisa. Imagina se você gosta muito de alguém e ela morre – uma pausa e um suspiro - Teria sido horrível se eu gostasse muito do meu pai, por exemplo...
- Seu pai?
Fazia tempo que não dizia essa palavra... Sentiu uma coisa esquisita na língua, como se tivesse dito algo proibido. Nunca havia falado sobre isso para ninguém, mas sentia-se confortável com o moço do cabelo preto:
- Um dia eu cheguei em casa e ele tinha se enforcado – lembrou-se da cena estática de quando tinha quatro anos. Não fora atormentada pela tristeza nem pelo desespero, apenas pelo choque. Não sabia que as pessoas podiam se... Porém, contando agora, não sentia absolutamente nada - É por isso que não tenho irmãos. Acharam que seria inadequado entregar mais um filho pra uma pessoa sozinha criar. Era muito chato quando me perguntavam sobre o meu irmão ou irmã e eu dizia que não tinha. Me sentia mal por ser diferente - o garoto não a condenou por ela se importar mais com o fato de ser diferente do que pela perda de um integrante do núcleo familiar. Era apenas natural. Era o esperado.
O moço do cabelo preto permaneceu sentado em silêncio, vítima de centenas de pensamentos. Mas Lia não estava com vontade de apenas ficar sentada refletindo, então se levantou e pôs-se a explorar o depósito. Estava inesperadamente limpo para um lugar abandonado. Talvez não tivesse sido abandonado há tanto tempo. Viu um balcão e foi espiar se havia algo atrás dele.
- Moço! Moço! Vem cá! Olha! Tem livros aqui! Um monte deles!
Ele se levantou e se deslocou vagarosamente até onde ela estava:
- Ah, Lia, nem são tantos assim. Devem ser uns quarenta, cinqüenta no máximo.
- Mas esses livros são da biblioteca! O que cinqüenta livros da biblioteca tão fazendo num depósito abandonado? – todos tinham a capa dura e cores sóbrias. Um dos motivos pelos quais Lia gostava tanto de livros era a sua aparência. Muitos deles eram atraentes aos olhos, não apenas práticos.
- Isso prova que ninguém sabe e nem liga pra o que tem lá.
Ela se ajoelhou para folheá-los, mas o garoto a repreendeu:
- Ei, não mexe! Isso deve estar cheio de pó. Nunca ouviu falar que a curiosidade matou o gato?
Lia levantou o rosto sem largar o livro e respondeu ingenuamente:
- A curiosidade me fez encontrar o bosque e você.
Um pensamento que fez o garoto estremecer surgiu em sua mente. Não queria afastá-la, mesmo sabendo que o que estava fazendo era errado. Então se esforçou para sorrir e disse, o mais levianamente que conseguiu:
- Então vamos torcer pra esse ditado não ser verdade. Olha, já parou de chover. E já devem ser umas cinco e meia.
- É mesmo! Eu preciso ir! – não queria se separar daqueles livros, mas não podia simplesmente pegá-los sem nem saber a quem pertenciam - Eu sei que ainda to com o seu livro de arte, mas posso pegar aquele antigo emprestado? Quem sabe aí eu o entenda.
- Claro. Não se preocupa, devolve quando puder.
Ela colocou o livro que estava segurando de volta no lugar, tomando o cuidado de deixá-lo como estava, para que o dono não percebesse. Voltou para onde estavam sentados, levantou o livro das páginas amareladas com mais cuidado ainda, e saiu correndo no asfalto molhado, com o cabelo ainda um pouco úmido.
No dia seguinte, Fran e Lia voltavam do último dia de aula no Instituto. As duas ficavam com frio na barriga só de pensar que faltavam menos de 24 horas para o teste que decidiria a função delas na sociedade. Falaram dele o caminho inteiro, se sentindo aptas a conseguir a nota mínima de 900 pontos. Não sabiam que apenas uma delas poderia ser aprovada (estavam precisando de trabalhadores para funções rebaixadas, devido ao crescente número de suicídios). Ao chegarem na frente da casa de Fran, ela disse, antes de sumir atrás da porta como sempre:
- Lia... Não me leve a mal, eu só to preocupada, e faz um tempo que eu quero te perguntar isso... Tá tudo bem com você? Não sei, você parece... diferente.
Diferente? Sentia-se mais leve e... tranquila. Mas não imaginava que dava para notar:
- Deve ser o bosque... – ela pausou e sorriu só de criá-lo em sua cabeça - Sabia? Existe um bosque por aqui! Atrás de um corredor de tijolos. Ele é maravilhoso! E eu conheci um garoto muito interessante lá! – não devia haver problema em falar dele. Nunca foi orientada a não fazê-lo, certo?
- Um garoto? Qual o nome dele?
- Eu não sei... Ele disse que nomes não importam. Então eu o chamo de “moço do cabelo preto”.
- Mas todo cabelo é preto.
- É, mas só ele é o moço do cabelo preto.
Fran observou o rosto cintilante da amiga sem ter certeza do que deveria pensar. Aquilo parecia muito estranho... Por outro lado, nunca vira Lia tão alegre... Então limitou-se a alertá-la delicadamente:
- Só... cuidado com o que você fala, tá? Não tem problema falar pra mim, ou pra esse garoto, aparentemente. Mas... cuidado.
- Pode deixar! – ela se afastou e acenou - Bom teste amanhã, Fran!
A outra sorriu de volta e desejou com igual sinceridade:
- Bom teste!
4 comentários:
O próximo capítulo sai dia 29 ou 30. Será o último da primeira parte!
E olha só que coincidência... Boa primeira fase, pessoas!!
vcs sabem né?
tudo pode se tornar especial.
it's up to you, folks.
uhuul! siim! boa prova people!
e yes jeeh! muito bom o texto! haha
sua historia sei la.. ela as vzs parece tao realista (de que um dia vai ser assim! imagina! xD)
adorei *O*
a história dela é muito poética, espero que continue assim ^w^
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