A Lei do Cinza - Capítulo IX

Lia estava ofegante enquanto tentava contar o que acontecera:
- Eles... me levaram pra uma salinha na Administração... por causa daquele livro que você me emprestou. E quando eu tentei me defender, eles...
O moço do cabelo preto tinha se levantado e ouvia com atenção, esperando pelo pior:
- Você foi classificada? Como ameaça à sociedade?
- Não. Mas falaram que da próxima vez que eu fizer algo errado...
- Ai, ainda bem, até que eles foram bonzinhos.
Lia não podia acreditar naquilo. Ele não podia estar falando sério.
- Claro, eles realmente estavam cheios de bondade quando me bateram com aquela coisa!
O tom ácido era merecido. Não podia explicar por quê, mas estava com vontade de feri-lo também. No final, pessoas feridas só conseguem ferir. Na verdade, uma parte escondida de Lia esperava que ele compreendesse sua dor, e lhe dirigisse palavras reconfortantes, mas Vinicius só sabia responder reciprocamente:
- Se você acha isso, que bom pra você. Mas poderia ter sido muito pior. Pelo menos você não chegou ao ponto de ter que fugir da comunidade!
- Ah tá, e você vai fugir da comunidade?!
- Vou! - um curto silêncio no qual o choque foi adicionado à raiva - Eu ia te procurar hoje pra te contar. Eu descobri como sair daqui. Vou fugir amanhã bem cedo.
Não era só o rosto e a costela de Lia que estavam doendo agora. Ela o encarou incrédula, mas ainda cheia de raiva:
- Você realmente vai fugir? E eu vou ficar aqui?
- Não posso ficar aqui pra sempre, Lia. Um dia vão acabar me encontrando.
Então Lia percebeu porque aquilo estava ardendo tanto. Ela tinha desejado... Tinha cometido o erro de desejar que aquilo durasse para sempre. Tinha criado expectativas que simplesmente não podiam ser atendidas, pois não havia ninguém para atendê-las. Ninguém podia atendê-las. Antes de ceder ao desespero, ela disse sem emoção nenhuma:
- Que bom pra você, Vinicius. Espero que você seja feliz.
Suas palavras tinham a intenção de machucá-lo. E elas conseguiram. Lia saiu correndo do depósito, sentindo o seu peito queimar, e aquele calor sufocante subiu para a sua garganta e então para os seus olhos, transformando-se em lágrimas. Não tentou impedi-las. Apenas continuou correndo, sem olhar para frente, enquanto algumas gotas de chuva começavam a cair.


- Agradecemos pelas informações, senhorita Francine. Como prometido, aqui está o seu resultado.
O homem baixou a folha na altura dos olhos da garota. Francine passou os olhos avidamente pelo papel, e no final da folha leu: "895 pontos. Reprovada".
- Pode se retirar - um deles disse, com um leve sorriso.
Ela levou alguns segundos até conseguir levantar e sair. Caminhou sem rumo, completamente imersa em pensamentos. 895 pontos?! O que era isso, uma piada de mau gosto?! Precisava de 900 e tinha feito 895?! Mas na verdade não importava o quanto tinha feito... De qualquer jeito, não tinha passado. Seria uma rebaixada. Rebaixada! E além disso, tinha passado informações importantes sobre sua amiga para aqueles homens... E se Lia fosse mandada para o Centro por sua culpa?! Ela mesma a tinha alertado para tomar cuidado e não contar esse tipo de coisa para ninguém!
Apenas andar não era mais o suficiente para o seu desespero, então começou a correr. Não sabia para onde. Apenas continuou correndo, sem olhar para frente, enquanto algumas gotas de chuva começavam a cair.

2 comentários:

Anônimo | segunda-feira, 20 dezembro, 2010

não se amargue... por favor.

Elizabeth | terça-feira, 21 dezembro, 2010

"No final, pessoas feridas só conseguem ferir."
Concordo plenamente.

Aff mano, a Fran não tinha mais nenhuma informção ... Esses caras são muito podres!

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