A Lei do Cinza - Capítulo VIII

Só quando os homens de roupa preta levaram-na a uma salinha que nunca vira da Administração, Lia percebeu que estava em apuros. O que foi mesmo que o moço do cabelo preto dissera? "Não conte a ninguém sobre esse livro", ou algo assim. Por que não havia se lembrado disso antes de levá-lo para a praça?! E agora estava sentada diante de dois homens anormalmente robustos, que lhe falavam de modo agressivo e quase cuspindo em seu rosto:
- A senhorita sabe do que este livro se trata?
Ela pressionou o corpo contra a cadeira, e respondeu com a voz fraca:
- Do passado...
- E onde a senhorita o conseguiu?
- Na, na biblioteca.
Não podia falar do moço do cabelo preto. Definitivamente, não podia falar dele. Nunca achou que iria mentir para superiores. Quantas regras já havia quebrado nos últimos dias? Os homens se entreolharam:
- Então aquele lugar ainda não foi destruído?
- Temos que avisar a Direção sobre isso - e voltou a cravar os olhos em Lia - O quanto deste livro você leu?
- Hm... quase tudo... - só depois de receber os olhares de condenação, percebeu que deveria ter mentido sobre isso também. Tentou se defender - Eu não fiz nada de errado! Qual o problema de ter lido isso? É só um livro! Por que vocês não querem que eu saiba essas coisas?!
Não sabia da onde tudo aquilo estava vindo, mas não conseguia mais parar. Então o homem mais alto subitamente armou-se de seu cacetete e acertou a face esquerda de Lia, derrubando-a junto com a cadeira. Ela aterrissou violentamente sobre a costela direita e se encolheu. Nunca havia sentido tanta dor na sua vida. Colocou as mãos sobre a face agredida, cuja vermelhidão se destacava na sua pele branca, e gemeu contra o chão frio. O outro homem endireitou a cadeira e indagou em tom de ameaça:
- Quem te deu permissão para se levantar desta cadeira?
Compreendendo que não havia nada a fazer além de obedecer, ela apoiou as mãos no chão e se levantou, esforçando-se para parecer indiferente diante da agressão. Sentou na cadeira novamente, e pode-se até dizer que o fez com dignidade. Então o homem do cacetete se aproximou a ponto de Lia conseguir sentir seu hálito amargo, e rosnou:
- Se a senhorita for culpada por mais alguma ação nociva, como contaminar outros com o seu pensamento subversivo, seremos obrigados a considerá-la uma ameaça à sociedade. Recomendo se comportar daqui para frente. Retire-se.
Ela saiu a passos tortos da Administração, com os olhos voltados para o chão. Parecia que quanto mais se distanciava daquela salinha, mais seu rosto e sua costela doíam. "Não chora. Não chora". Apesar de repetir isso sem parar na sua cabeça, as primeiras lágrimas em doze anos já estavam se acumulando em seus olhos. Mal fazia 24 horas que fora inundada pela complexa história do moço do cabelo preto e agora isso... Continuou a sua marcha desordenada até o depósito abandonado, onde o garoto estava dormindo tranquilamente. Até pensou que foi como no dia em que se conheceram, mas ao contrário. "Ele me acordou e tudo isso começou". Mas não chegou a formular a frase equivalente: "Eu o acordei e tudo isso terminou".
- Moço! Moço! Acorda!
- Hm? Lia... Bom dia... - um longo bocejo, que logo se transformou em espanto ao ver o seu rosto ferido - Lia?! O que aconteceu?!


- Francine, casa 638, correto?
- Sim.
Ainda estava tentando entender por que havia sido levada para a Administração. Será que não havia passado no teste e já seria encarregada de uma função rebaixada?! Mas não seria surpresa... Não achava que havia conseguido a pontuação necessária e passara os últimos dias sentada na sua cama, roendo as unhas, e depois os dedos. Não estava comendo direito e a angústia consumia-lhe inteira. Parecia um pesadelo, mas do qual ela nunca acordava. Seus pensamentos lastimosos foram interrompidos pela voz de um homem de uniforme preto:
- Segundo nossos dados, a senhorita conhece a habitante Lia há nove anos, e ainda mantém relações com ela. Isto é correto?
- Sim, ela é minha amiga.
- O que a senhorita sabe sobre ela?
- Hã? Como assim?
- Alguma característica peculiar, algo que a torne diferente, e que a senhorita talvez encare como ameaçador ou preocupante.
Não foi difícil achar uma resposta:
- Ela sempre gostou de ler... Mas não acho isso preocupante, só um pouco estranho. Desculpe, mas qual o motivo disso tudo? Aconteceu alguma coisa com a Lia?
- Apenas nós fazemos as perguntas aqui. Limite-se a respondê-las.
O outro homem então tomou a palavra:
- Além do gosto irracional por livros, há alguma outra coisa? Ela já te expôs a ideias perigosas ou tem contato com indivíduos dessa espécie?
Tinha aquele garoto... Mas ela não sabia muita coisa sobre ele. Sabia que Lia tinha muitos motivos para ser mandada para o Centro, e proteger sua amiga foi mais um instinto que um ato minimamente pensado:
- Não, nada...
Um dos homens bufou:
- Parece que ela não está disposta a nos ajudar...
Enquanto isso, o outro checou as informações de Francine em uma folha de papel e encontrou algo interessante:
- A senhorita já sabe qual será a sua função na comunidade?
- Não, ainda não...
- Imagino que isso esteja te incomodando - "Incomodando" era pouco. Ela não estava suportando a ansiedade. Não fazia nada além de pensar naquilo - O resultado só será divulgado daqui a uma semana. Mas se a senhorita nos fornecer algum dado útil, mostraremos-lhe seu resultado hoje mesmo. Está aqui, nesta folha.
Dessa vez o instinto perdeu e Francine pensou sobre a proposta. Bastou olhar para a folha na mão do homem e uma reflexão de três segundos para saber o que escolheria:
- Ela... ela uma vez falou sobre um garoto... mas eu não sei o nome dele.
- Um garoto? Qual é a função dele?
- Eu não sei - ela murmurou.
- Parece que a senhorita terá que esperar mais uma semana até o resultado do teste - o homem disse, dobrando a folha e guardando-a no bolso.
- Não, espera! - gritou desesperada - Ela também falou... de um bosque...

2 comentários:

João | quarta-feira, 15 dezembro, 2010

AAAHHH!
precisava bater nela? PRECISAVA?!
esses homens de preto mais parecem robôs...

não culpo a Francine pelo que fez, ela não tinha muita noção do que estava acontecendo e a ansiedade devia estar insuportável...

Elizabeth | sexta-feira, 17 dezembro, 2010

Francine, eu faria o mesmo que ela, pressão de mais!!! @_@
Essa sociedade perfeita é uma diadura fria e muito rigorosa! XD~

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