A Lei do Cinza - Capítulo XI
Morrer? Sim, era uma solução. Certamente resolveria tudo. Talvez a amiga sentisse sua falta por alguns dias, dois ou três no máximo, e logo estaria bem novamente. "Bem". Lia olhou para baixo. A ponte era bem alta mesmo... Ficou imaginando como devia ser a sensação de pular dali, como tantas vezes fizera desde criança. Como das vezes em que era criança, esse pensamento não passou de uma simples e até mesmo inocente hipótese. De jeito nenhum Lia cometeria suicídio. Ela nunca faria a mesma coisa que seu pai. "Covarde! Fraco! Irresponsável!", era o que a garota pensava enquanto caminhava para longe da ponte.
Suas roupas e seu cabelo estavam molhados e fazendo-na tremer novamente. Lembrou-se de que seria bom se andasse com um guarda-chuva. Guarda-chuva, guarda-chuva... Antes que percebesse, seus pensamentos foram involuntariamente levados ao moço do cabelo preto. "Vou fugir amanhã bem cedo", foi o que ele disse. "Vai fugir e me deixar aqui", Lia pensou ressentida. Mas não pôde deixar de imaginar onde ele estaria agora.
Quando deu por si, estava na frente do depósito abandonado. Provavelmente ele ainda estava bravo com ela, mas mesmo assim, a garota abriu a porta do depósito e gritou:
- Moço! Moço!
Nada. Ela entrou e começou a vasculhar o lugar. Os livros roubados da biblioteca ainda estavam lá, mas o garoto não. Realmente, não seria prático fugir levando consigo cinquenta livros. Será que ele voltaria para o depósito? Lia sentou-se com as costas contra uma parede e esperou. Estava sem relógio, mas era capaz de contar o tempo na sua cabeça quase com a mesma exatidão. Quinze minutos... Quarenta minutos... Uma hora... Uma hora e vinte... Duas horas e dez... Duas horas e cinquenta e cinco... Três horas e trinta... Quatro horas e cinco minutos... Lia se levantou e olhou pela única janela do depósito, tão grande quanto sua mão espalmada. Mais algumas horas e ela não poderia estar fora de casa... E se ele não voltasse até lá?! Ela deixou o depósito e correu até o corredor de tijolos que levavam ao bosque. Atravessou com pressa aquele espaço estreito, arranhando o cotovelo contra uma das paredes sem querer.
O bosque estava igual à primeira vez em que Lia o adentrou. Na verdade, ele quase não havia mudado durante todo esse tempo. Folhas secas no chão, luz passando entre as folhas das árvores e o lindo silêncio. A sensação é que fazia semanas desde a última vez em que Lia estivera lá, naquele dia em que o moço do cabelo preto atirou seu relógio de cima de uma árvore. Foi como se nada do que tivesse acontecido depois disso fosse realmente verdade: descobrir que o moço do cabelo preto era procurado pelo Centro, ouvir sobre o seu passado, ser agredida por causa de um livro imbecil, brigar com o moço do cabelo preto, encontrar Fran no meio da chuva e esperar durante quatro horas e cinco minutos no depósito. Era difícil de acreditar que tudo isso havia acontecido em dois dias. E o segundo dia ainda nem havia terminado.
Lia andou a passos rápidos entre as árvores, o tempo todo gritando "Moço! Moço! Moço!". Pensou ter ouvido alguém atrás dela e se virou, mas não viu ninguém. Devia estar alucinando novamente, que nem quando ficara presa naquela árvore. Continuou andando e chamando-o, até que finalmente viu um vulto pular de um galho e chegar ao chão. Era o moço do cabelo preto, que se aproximou furioso:
- Lia! Você ficou louca?! Fica quieta!
Ela se ofendeu com a recepção agressiva e retrucou:
- Eu tava te procurando. O que posso fazer se você fica se escondendo em cima de árvores?
- Então você sai berrando por aí?! E se alguém te ouvir? Ou descobrirem esse lugar?!
Lia não havia pensado nisso. Ela o olhou contrariada mas em silêncio. O garoto virou as costas, deu alguns passos e parou:
- O que você veio fazer aqui?
Boa pergunta... "O que eu vim fazer aqui, afinal?", Lia pensou. Decidiu-se por responder:
- Não sei. Eu só vim.
Ele se sentou e ela o imitou. Ficaram os dois sentados sem falar nada por um longo tempo, até que Lia perguntou:
- Você se lembra de quando a gente ficou sentado aqui em silêncio que nem agora? Na segunda vez em que a gente se encontrou... Você disse que era pra eu te chamar de moço do cabelo preto porque nomes não importavam...
Agora Lia sabia que era porque ele não queria ouvir a voz da sua irmã chamando-o... O garoto levantou a cabeça e disse:
- Lembro... Você parecia uma criança.
- E você parecia mais mágico.
- Desculpe por perder o encanto, então.
- Desculpe por perder a inocência.
Voltaram a ficar em silêncio. Não restava muito tempo até Lia ter que voltar para casa. Se não falasse agora, perderia para sempre a chance:
- Me leva com você amanhã. Pro outro lado da fronteira.
O moço do cabelo preto se levantou e começou a andar como se não tivesse ouvido seu pedido, então Lia também se levantou e o seguiu:
- Por favor... Não me deixa aqui. Eu não tenho nada a perder de qualquer jeito.
- É claro que você tem. Você tem uma boa amiga e provavelmente deve ter passado no teste pra programadora. E você nem é uma ameaça à sociedade. Você tem um futuro.
- Eu nunca pedi por esse futuro... Sempre achei que as coisas eram assim, simplesmente, mas agora que posso escolher, eu quero sair daqui. Nada mais aqui faz sentido pra mim.
- Você não pode escolher porque eu não vou te levar - ele parou e se virou para encará-la - Lia, eu nem sei se vou conseguir fugir. Tem uma grande chance que eu seja pego no meio do caminho e levado pro Centro, entendeu? - dessa vez era ele quem estava gritando. Lia ia comentar isso, mas ele continuou - Eu não quero que você vá parar no Centro também.
- Então eu morro no Centro ou pulando de uma ponte, mas pelo menos na primeira opção tem a possibilidade de sair daqui!
Ela estava mentindo quanto à parte de pular da ponte, mas tinha esperanças de que a ameaça o convencesse a levá-la com ele. Porém, ela apenas o enfureceu ainda mais:
- Então vai, pula, se joga de uma ponte que nem a Sofia! Eu só consigo fazer as pessoas pularem de pontes de qualquer jeito!
O moço do cabelo preto limpou as lágrimas que haviam surgido em seus olhos e voltou a andar. Lia não sabia se devia continuar a segui-lo, mas aqueles poucos minutos eram definitivamente a sua última chance.
- Eu só acho que vale a pena correr esse risco...
- Lia... - a voz do moço do cabelo preto estava baixa e falhando - eu não te contei tudo sobre o Centro. Eles não apenas matam... Os pacientes viram cobaias e são até torturados - lembrou-se daquela pavorosa visão, um quarto cheio de pessoas que mais pareciam animais, gemendo e chorando solitariamente. Quando enfim encontrou uma que aparentava estar com todas as partes do corpo, percebeu que lhe faltavam os olhos. E então dois homens de branco e mascarados entraram no quarto, e todos se encolheram e gritaram com medo. Não viu mais que isso, pois nesse momento o moço do cabelo preto foi descoberto do lado de fora da janela - Volte a obedecer as regras, Lia. Faça o que for necessário pra não ser levada pra lá.
Pela expressão séria e o tom solene do moço do cabelo preto, Lia sabia que não adiantaria falar mais nada. Chegaram ao final do bosque, onde ele encontrava o corredor estreito de tijolos.
- É hora de você voltar. Estudantes não podem estar fora de casa-
- Depois das seis - ela completou.
Sem saber o que falar, a garota se esgueirou no corredor, sentindo o corpo inteiro pesar de mágoa, enquanto o moço do cabelo preto a viu sumir, sentindo o corpo inteiro se encher de medo.
Durante todo o tempo em que estiveram juntos pela última vez, nem Lia nem o moço do cabelo preto perceberam que não eram os únicos no bosque. Nenhum deles percebeu a presença dos homens que os seguiam e ouviam com imenso interesse. Aqueles homens estavam apenas se certificando de que a garota não era uma ameaça, então ficaram extremamente satisfeitos quando ela os levou a um fugitivo.
Depois de muitas horas deitado de olhos fechados no chão do depósito, Vinicius conseguiu dormir. Antes disso, não conseguia parar de pensar sobre o seu plano de fuga, sobre Lia e sobre o Centro. Primeiro, seguiria pelo rio até onde ele encontra a fronteira. Então esperaria escurecer para tentar passar da fronteira junto com o rio. Seria difícil não ser visto, mas era a única opção. O rio era a única coisa que saía da comunidade. Quanto mais pensava, mais acordado se sentia, mas sabia que precisava de algumas horas de sono para estar descansado quando partisse. Tentou esvaziar a mente e deixar o sono vir. Depois de bastante tempo, finalmente adormeceu.
Do lado de fora, havia apenas a escuridão e o silêncio. Assim permaneceu, até que um carro grande e preto apareceu na rua e parou em frente ao depósito. De dentro dele, saíram quatro homens vestidos inteiramente de branco, e um quinto permaneceu no volante. Suas mãos eram cobertas por luvas e seus rostos estavam escondidos atrás de máscaras também brancas, exceto por alguns detalhes em preto. Dois homens tiraram uma maca da parte de trás do carro e os outros dois abriram cuidadosamente a porta do depósito. Localizaram o fugitivo dormindo em um canto. Já fazia dez semanas que o procuravam. Poucos conseguiram se esconder por tanto tempo. Mas este era um administrador, era apenas esperado que fosse esperto. Os homens se aproximaram no escuro sem fazer barulho algum. Em um movimento rápido e preciso, um deles espetou o fugitivo com uma agulha e injetou a anestesia. Vinicius acordou bruscamente, mas não teve nem dois segundos para se debater aterrorizado pois o outro homem cobriu sua cabeça com um saco preto e a anestesia o fez adormecer novamente. Dois homens colocaram-no na maca e o levaram para o carro, enquanto os outros confiscavam os livros que lá estavam. Finalmente o capturaram. Os quatro homens voltaram ao carro e partiram para o Centro de Reabilitação Social.
4 comentários:
O próximo é o último capítulo! Como vou viajar, só vou postá-lo quando voltar, dia 28. Até lá!
é bem melhor que ficar nesse lugar pro resto da vida, ou melhor, meia-vida...
Uouw! Como ele sairá de lá??? ;~;
e mais uma coisa: NÃAAAAAOOOOOO JÁ YÁ ACABANDO!!!!
T___T
meeeeeeeentiraa! haha
whats going to happeeen?? tensoo!! =D
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