Meninas - Capítulo 3: Alecrim dourado que nasceu no campo

Luana alternava entre encarar seu reflexo invertido na colher e lamber a Nutella que estava nela. Estava em um daqueles momentos que tanto odiava, mas que insistiam em aparecer: momentos de apreciação da própria vida sem sentido, sem propósito e sem futuro. Quando tinha uns 15 anos, ficara toda entusiasmada com trabalhos voluntários e decidiu que viveria para os outros. Durou pouco mais de um ano e acabou não dando certo, não tinha certeza por quê. Simplesmente parou de fazer sentido. Diante dos estudos para o vestibular e do primeiro ano da faculdade, começou a viver para si mesma. Mas alguma coisa ainda parecia errada, então largou tudo. Agora estava vivendo para… nada em particular, na verdade. Jogava videogame, olhava pela janela, dormia, lia, comia, ficava pensando… Era bom, exceto por esses momentos de perplexidade no sofá.
"Estou indo e já volto!", ela ouviu Nicole falar da porta. Levantou os olhos, como quem acorda de um longo sonho, e perguntou "Tá indo no mercado?". A outra menina fez que sim com a cabeça. "Então compra mais Nutella também? E Smirnoff". Nicole balançou a cabeça de novo e saiu.
Até que não era ruim morar com aquela menina… Ela era quietinha, fazia as compras, cozinhava, limpava a casa, lavava as roupas, a louça… Talvez estivesse tão entendiada quanto a Luana. Pelo o que entendeu, ela e a irmã haviam estudado inglês na mesma sala anos atrás. E graças a ela, Luana já não comia miojo há duas semanas. Nada contra miojo, era bom, mas não por dias e dias seguidos, como Clarissa estava fazendo. Luana não conversava muito com Nicole, mas na verdade ela não conversava muito nem com a irmã, então não era estranho nem nada. "Cada um no seu mundinho", pensou.
Levantou-se do sofá e foi pegar a garrafa de vodka na cozinha. Enquanto bebia direto da garrafa, Clarissa apareceu com o uniforme do colégio e a mochila sobre um ombro.
"Lua, são seis e quarenta da manhã."
"E daí?"
"E daí que você deveria ser mais solidária e oferecer pra garota aqui que vai pra escola", então Clarissa puxou a garrafa da mão da irmã e tomou um gole.
"Você só vai ter 18 anos daqui a três meses, sabia?"
"Aham, como se você também não tomasse isso desde os 14". Clarissa devolveu a garrafa para a irmã e também saiu de casa.
Era assim que conversavam. Trivialmente, em vinte, trinta segundos no máximo, para depois voltar cada uma ao seu próprio universo. Nenhuma das duas conhecia a outra de verdade. Mas de verdade, ninguém conhecia nenhuma das duas de verdade. Será que fazia falta?
Enfim… sozinha em casa novamente. Foi bebendo aquele líquido transparente enquanto pensava o que fazer daquele dia, até que o líquido acabou e ela de fato teve que ir fazer algo daquele dia.
"Eu vou é dormir", foi o que decidiu. Andou de volta até a sala, mas acabou tropeçando em uma das pilhas que livros que moravam sobre o chão. Agachou-se e se pôs a remontar a pilha, até que encontrou um livro do qual não se lembrava.
Estranho… Tinha certeza de que tinha lido todos aqueles livros… Era um livro verde e bege com uma árvore desenhada na capa. Parecia de autoajuda. Luana já tinha lido alguns livros de autoajuda, por curiosidade, e chegara à conclusão de que não gostava deles. Mas quando viu, já tinha aberto o livro e começado a ler as primeiras letras que surgiram para os seus olhos:
"Deus anseia que você descubra a vida que ele criou para você".
"Mas que comecinho pretensioso…", Luana pensou com desgosto. E ainda por cima, era pior que autoajuda: era um livro sobre Deus. Foi então que se lembrou da onde aquele livro havia surgido. Uma amiga da época dos trabalhos voluntários que havia lhe dado de presente. "Belo presente", foi o que Luana pensou revirando os olhos na hora e mais uma vez agora. A menina era legal, era bem animada e tudo mais, e pensando bem, foi a pessoa com quem Luana mais passou tempo conversando sobre coisas importantes. Mas elas nunca mais se falaram depois que Luana largou o trabalho voluntário.
A garota continuou a ler o começo do livro… Era para ser lido em quarenta dias, um pouco todo dia.
Hm. Ela não tinha nada pra fazer de qualquer jeito…
Luana terminou de empilhar os livros que deixara cair e levou aquele livro da árvore para o seu quarto. Vai que ela dormia enquanto lia e alguém chegasse e a visse com aquela coisa religiosa. Credo.

1 comentários:

Elizabeth | quarta-feira, 17 agosto, 2011

Sempre adorei a Luana...

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