Meninas - Capítulo 4: Sozinha eu não fico, nem hei de ficar
"Ela pegou ele no final?"
"Aham, anteontem, finalmente!"
Pra variar, esse era o tema da conversa na rodinha de amigos da Clarissa. De vez em quando ela se perguntava se eles não se cansavam de falar sempre a mesma coisa. Mas só de vez em quando, porque na maior parte do tempo era muito divertido. Estavam ela, dois garotos e mais três meninas, alguns de pé e outros sentados nos bancos de concreto do parque, envoltos por uma nuvem de nicotina. Afinal de contas, eles tinham que relaxar de alguma forma! Especialmente com toda a pressão de estar no terceiro ano do colegial. Por isso, todos os dias depois da aula, o grupo de amigos ia pro parque que ficava bem na frente do colégio, todos com o uniforme do colégio, para preencherem seu ser com a vida dos outros e seus pulmões com arsênico, formol, naftalina, acetona, amoníaco, monóxido de carbono… As meninas fumavam um cor de rosa sabor cereja, porque era mais bonitinho. Só Clarissa que não fumava. Na verdade, ela odiava ficar com o cabelo com cheiro de cigarro, mas tinha que se acostumar. Eram todos seus amigos desde a quinta série, seria mancada abandoná-los só porque eles queriam fumar um pouco. Certo?
"O que eu ainda não acredito é como a Clarissa terminou com o namorado dela!", uma das meninas exclamou para o grupo.
"O que eu não acredito é como ela não terminou antes", uma outra respondeu, "Cêis tavam juntos há quê, um ano?"
"Quase isso", Clarissa disse descontraidamente, "Cansou, foi tempo demais."
"Fez bem!", um dos garotos, que na verdade estava interessado na Clarissa, disse. "Ele já tava no seu pé há muito tempo. Mas e aí, cê viu o babaca depois daquele dia?"
Clarissa se sentiu mal ao ouvir seu ex-namorado sendo chamado de "babaca", mas achou melhor não falar nada. Apenas respondeu meio rindo, "Ah, ele ficou me ligando umas vezes e mandou umas mensagens e uns e-mails, mas eu apaguei tudo sem ler", e todos os outros riram juntos, até que uma das meninas disse, "Vixi, acho que falamos tanto dele que ele se materializou!"
"Quê?", Clarissa perguntou.
"É, ó, não é ele ali? E tá vindo pra cá…"
A menina se virou e reconheceu seu ex-namorado, que vinha andando melancolicamente e todo encolhido. "Aff, não acredito… Vou lá espantar ele", e foi. A cada passo que se aproximava dele, era como se deixasse a alegre Clarissa na roda dos amigos, e ficou tensa e insegura por dentro. E quando isso acontecia, sua voz, por outro lado, assumia um tom irritado para disfarçar a bagunça interior:
"Que que você tá fazendo aqui?", ela lançou sem delongas.
"É que você não me respondeu minhas mensagens…", o pobre garoto murmurou.
"Eu estive ocupada."
"Aham… Ocupada deixando seu cabelo com cheiro de cigarro? Eu sei que você ainda detesta isso." Ela não respondeu nada, apenas desviou os olhos para o tronco de uma árvore que estava por perto. "Eu não consigo parar de pensar em você… E eu ainda não entendi o que foi que aconteceu pra gente terminar. Por favor… me dá cinco minutos, vai. Só cinco minutos, é tudo o que eu peço."
Clarissa colocou uma mão na cintura e a outra na testa, "Tá bom, vai. Fala."
"Hã… A gente não pode ir pra outro lugar?", ele olhou em volta, "O parquinho parece estar vazio. A gente pode sentar nos balanços."
"Não, não podemos. É só pra crianças até 10 anos". Sabia disso porque já havia sido expulsa de lá várias vezes. Mundo injusto com idade máxima pra balanços…
Os dois foram andando em silêncio até lá. Só havia mais uma pessoa no parquinho: um garoto de uns dezessete anos em cima de uma casinha de madeira há alguns metros de distância, mas ele nem foi percebido pelo antigo casal (e também não deve ter sido percebido pelo segurança do parque, senão teria sido expulso de lá).
"Querida…"
"Por que você tá me chamando de querida?", ela interrompeu sem piedade, e o garoto também começou a se irritar. "Por que você tá sendo tão áspera comigo? Afinal, o que foi que eu fiz? Você não entende que eu te amo?"
"Entendo, entendo demais até!"
Os dois já estavam quase gritando. Até o garoto da casinha que não tinha nada a ver com a história levantou a cabeça pra olhar os responsáveis pelo barulho.
"Como assim 'entende até demais'?". Clarissa se calou, sabendo que havia falado mais do que devia. "Eu não entendo. Foi tão repentino. Num dia a gente tava bem, e no dia seguinte você terminou."
"É que eu finjo bem", ela disse firmemente.
"Então todo o nosso tempo juntos foi fingimento?".
Ela não respondeu novamente, então ele continuou, "Pois eu não fingi. E eu realmente te amo", e tentou segurar a mão dela, mas a menina se esquivou com um berro, "Não encosta em mim!".
Nesse ponto, o ex-namorado não pôde mais suportar todas essas ofensas gratuitas e por fim explodiu, "Qual é o problema? Você não entende?!", e a empurrou, com mais força do que gostaria, de forma que ela tropeçou e acabou caindo no chão. Ele se arrependeu no mesmo instante e estendeu uma mão para ajudá-la a se levantar, enquanto gaguejava tentando se desculpar. Mas então, para surpresa de ambos, o garoto desconhecido que até então estava na casinha de madeira subitamente surgiu entre os dois:
"Cara, deixa ela paz…", ele disse para o ex-namorado, com olhos verdes ora focados nele, ora desviando dele. O garoto tinha o cabelo castanho e era um pouco mais baixo que o ex-namorado da Clarissa. Estava usando um jeans escuro e um casaco quadriculado amarelo, que parecia largo demais no seu corpo fino. A menina só ficou olhando aquela figura que veio sabe-se lá de onde, sem entender o que estava acontecendo. Seu ex também também estava confuso, pra dizer o mínimo. O próprio intruso parecia não saber o que estava fazendo lá. Os três ficaram parados, completamente perplexos, sem fazer nada por vários segundos. Até que o ex-namorado da Clarissa simplesmente virou as costas e se afastou. Então o garoto se virou para falar com a menina caída no chão:
"Você tá bem, Clarissa?"
"…Aham…", ela murmurou abismada, ainda tentando entender o que estava acontecendo, até que percebeu outra coisa estranha, "Pera, como você sabe o meu nome?"
"Ah… Ahm… Eu chutei."
"Você chutou 'Clarissa'?", a menina perguntou, levantando uma sobrancelha.
"…É."
"Quem chuta 'Clarissa'?"
"Eu chutei 'Clarissa'", foi a resposta leviana que recebeu. Como não sabia como continuar discutindo, ela se levantou e começou a esfregar as mãos uma na outra e a limpar sua saia xadrez.
"Você tá bem mesmo? Não se machucou?"
"Não, só sujou um pouco…", ela arrumou a saia, a camiseta, e deu mais uma olhada nas mãos, pra ter certeza de que nada estava sangrando, "Hm… Valeu… Por me ajudar."
"Sem problemas. Ah, meu nome é Jean", o garoto disse do nada, e pela primeira vez Clarissa prestou atenção no seu rosto. Olhos verdes, nariz alto, cabelo castanho com uma franja que chegava até as sobrancelhas… Seus olhos pareciam brilhar um pouco mais do que o normal, e ele sorria de um jeito meio estranho. Devia ser um sorriso amarelo, sei lá.
"Ah. O meu é Clarissa. Como você já chutou… Hm… Hã… Eu vou voltar lá... com os meus amigos…"
"Ok! Até outro dia."
"Ahm… Até."
E Clarissa voltou o mais rápido que pôde para o seu grupinho, olhando para trás algumas vezes e vendo que o garoto (Jean, certo?), permanecia de pé no mesmo lugar olhando pra ela sem parar de sorrir. Contou para os amigos que espantou o ex-namorado, mas não disse nada sobre aquele menino desconhecido.
3 comentários:
Clarissa é tão enjoada...
Quero saber oq vai acontecer com ela *-*
let's wait!
Po-pobre... po-po-pobrezinho.
Esquisito!
E eu me enxergo tanto nessa situação ridícula desse menino... é um desespero tamanho. Não, ir procurá-la não é a melhor solução... Mas o que fazer a não ser ir?
(Acho que no amor ninguém nunca é maduro)
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