Relato de uma manhã

Abri os olhos, e vi meu quarto iluminado por uma pálida luz branca que atravessava toda a janela. Dia nublado de novo… Sentei-me, afastei as cortinas do dossel e olhei para a Mel, que ainda dormia na minha cama. Estava deitada de lado, com metade do corpo completamente à mostra, e o cabelo loiro quase branco espalhado sobre o lençol. Espreguicei-me, e com isso ela também acordou. Coçou os olhos docemente e simplesmente perguntou:
- Gostou da noite?
Eu só fiquei a olhar para aquele rosto branco e aqueles olhos pequenos e opacos. Não era muito bonita, as pessoas diziam, mas aos meus olhos era atraente, e isso bastava. Como eu não respondia à sua pergunta, sentou-se na cama e tornou a falar, enquanto fazia seus dedos caminharem pelas minhas costas nuas:
- Fazia tempo que não passávamos uma noite juntas… Obrigada por me receber mais uma vez. Achei que você nunca mais ia querer me ver.
Coloquei minha mão na sua bochecha e aproximei meu rosto do dela:
- Que besteira, Mel. Eu nunca conseguiria te deixar... Quero beber cada gota sua.
E comecei a beijá-la como na noite anterior. Minhas mãos foram escorregando da sua bochecha para o seu pescoço, e depois para o resto do seu corpo, enquanto as mãos dela acariciavam minha nuca. 
Então a Cá entrou saltitando no quarto, com seu vestidinho vermelho de babados, suas sardas e os cabelos presos em duas marias-chiquinhas:
- Bom dia, vocês duas! Que tal saírem dessa cama e se prepararem para o dia? A Liz fez omelete de café da manhã pra todas nós!
Separei irritada minha boca da boca da Mel:
- Cá, que que você tá fazendo aqui? - Eu perguntei, com vontade de jogar algum bichinho de pelúcia nela - Como você entrou na minha casa? Já não falei que odeio quando você tá por perto?
- Ai, isso lá é jeito de falar comigo, depois de tudo o que eu te fiz?
- É exatamente por causa de tudo o que você me fez que eu te quero longe de mim, sua imbecil!
- Ai, isso machuca, tá? Mas não importa, eu vou continuar aqui até alguém de fora me expulsar! E aliás, foi a Sol quem me deixou entrar, ela sim é uma boa amiga. Agora, ponham alguma roupa vocês duas e venham comer o omelete da Liz!
E saiu saltitando novamente. 
Bufei. Pelo menos havia um omelete feito pela Liz me esperando. Falaram-me que eu não deveria comer a comida dela, mas eu finjo que não ouço. 
Eu e a Mel nos levantamos, vestimos as primeiras regatas que encontramos no armário e fomos para a cozinha. A Cá nem estava lá, já devia ter comido, mas fomos recebidas pela Sol, uma garota de cabelo preto na altura do pescoço, que estava quase terminando o omelete:
- Ora ora, que bom ver vocês duas unidas de novo. Se não fosse por mim, talvez vocês nunca mais se falassem, não é mesmo?
Sol… Difícil explicar minha relação com ela… Eu gosto dela. Mas não por muito tempo. Sabe como é. No começo o sorriso dela é misterioso, sedutor, interessante… Mas quando eu passo muito tempo ao seu lado, esse mesmo sorriso passa a ser irônico e desprezível. No momento, ele era quase irônico.
- Oi, Sol - eu respondi - Quando é que você vai embora?
- Um pouco antes da Cá. Mas eu volto, eu sempre volto, não se preocupe… Aliás, já que eu e você vamos ficar sempre uma com a outra, a gente podia se casar logo de uma vez, não? Até já tenho as alianças - ela falou, mostrando no ar dois anéis de ouro com um pequeno diamante encravado. Senti um calafrio percorrer meu corpo com a visão daqueles aros cintilantes. Sentei-me ao seu lado, em frente a um prato de omelete, tentando aparentar calma:
- Nem adianta tentar, Sol. Você sabe que eu não prometo o perpétuo a ninguém. 
Ela deu de ombros, como se dissesse "Bem, não foi dessa vez", e voltou a comer. Então eu e a Mel também começamos a comer o omelete que a Liz nos fez. 
Estava delicioso… Na boca, pelo menos. Sabia que quando chegasse ao estômago se tornaria tremendamente amargo. Era assim com tudo o que a Liz nos dava para comer. Mas mesmo assim, eu sempre aproveitava enquanto ainda fosse bom. 
De repente, o encanto daquele momento foi interrompido pelo som da campainha. 
- Quem será a esta hora? - a Mel perguntou, inclinando a cabeça com aquele jeito fascinante dela.
Levantei-me, andei até a sala e abri a porta. Quando vi quem era, imediatamente fechei a porta com toda a força que pude, e fez-se um estrondo pela casa. 
- Por favor, deixe-me entrar! - uma voz masculina do outro lado da porta implorou.
- De jeito nenhum! Vai embora! - eu gritei de volta - Rô, não sei o você veio fazer aqui, mas vai embora e vê se nunca mais volta! 
- Por favor, querida, me dê mais uma chance! Eu nem consigo entender o que foi que aconteceu para você me repudiar desta forma! Por favor! Eu não consigo viver sem você!
- E eu não consigo te ouvir sem sentir vontade de vomitar - berrei - E daí se um dia eu te amei?! Pare de valorizar o meu afeto! Eles vão pra qualquer um! Entendeu?! Me deixa em paz!
Silêncio do outro lado. Depois de um tempo ouvi o barulho do elevador: a porta sendo aberta, fechando-se e indo embora. Abri a porta de casa e dei uma espiada, e o Rô não estava mais lá. Ainda bem… 
Quando me virei para voltar para a cozinha, dei de cara com a Liz, que me encarava com seus grandes olhos verdes:
- Quem era? - perguntou. 
Fiquei com muita vontade de mentir, mas não podia fazer isso, não com ela:
- Hã… Era o Rô… 
- E você o expulsou?
- É… - desviei os olhos para o chão - Desculpa, eu sei que vocês eram bons amigos, e agora vocês nem podem mais se ver por causa da minha briga com ele…
- Não, tudo bem - ela falou cheia de charme e inocência - Ele é dispensável para mim - e começou a andar em direção à cozinha. 
Ah, como eu adoro essa garota… A Liz é tão… Linda. Tem sempre os pés no chão. Sim, lindos pés sempre descalços correndo por aí. Fiquei com vontade de agarrá-la, abraçá-la, beijá-la, e assim o fiz. Então voltamos à cozinha, e nos sentamos junto com a Sol, a Mel e a Cá, que voltara para lá para comer mais um pedaço de omelete. 
E assim todas nós apreciamos na companhia uma da outra um por-um-momento-pelo-menos delicioso omelete de café da manhã: eu, a Melancolia, a Solidão, a Carência e a Idealização, sem ser incomodadas pelo Romantismo que tentara entrar.  

3 comentários:

Matheus Takeshi Yabiku | segunda-feira, 04 junho, 2012

Esse texto ficou incrível!!
E tive que ler três vezes haha
Se tivesse que citar as partes que achei geniais este comentário ficaria muito grande xD

Ah... a quase doce Mel...
Estas meninas... uma relação conturbada.

Jessica Priscilla Huang | segunda-feira, 04 junho, 2012

Muito obrigada!!

Diria que é tão doce quanto o mel... Mas se você come muito mel uma hora dá um pouco de vontade de vomitar...

Aposto que você nem imaginou um certo quarto específico ao ler esse texto, haha!

Matheus Takeshi Yabiku | terça-feira, 05 junho, 2012

por isso tive que ler a terceira vez xD

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