Olhos de raposa (resposta a "brincar de querer...")



A você que me ensinou a ternura,
Você que me ensinou o desejo,
Você que me ensinou a ternura em perfeita harmonia com o desejo,

Sabia que às vezes você tem um olhar de raposa?

Às vezes quando abro os olhos e separamos nossos rostos, você me lança um olhar travesso, brincalhão, altivo… E me faz rodar para então me puxar de volta para você. Tenho um lampejo de astúcia e divertimento no seu rosto antes de me entregar e amolecer inteira, ou antes de me entregar e te fazer amolecer inteiro. E me sinto também raposa, e somos duas raposas pulando e deixando pequenas pegadas de raposa na neve, mesmo que quem olhe não veja duas raposas na neve, mas dois jovens apaixonados no meio da rua em um dia de sol.

Seus olhos, oh, seus olhos são mágicos, eles se transformam. Apenas na categoria raposa você já tem os olhos de raposa travessa, os olhos de raposa séria, e os olhos de raposa quase lobo. Seus olhos não apenas se transformam, mas me transformam. Na verdade o que me assusta nos olhos quase lobo é o que eles podem fazer comigo: tornar-me-iam mero corpo sem alma para se colocar no lugar? Mas você me mostra que não. E te adoro cada vez mais enquanto o temor vai embora. Seus outros olhares, esses me transformam de uma maneira que mal consigo descrever… Como é bom entregar o coração de mão beijada a você! Como é bom ter os versos completados e os refrões cantados a duas vozes! Como é bom saber que o outro entende e então poder começar um assunto do meio e não do começo! Como é bom poder compartilhar palavras e pensamentos no mesmo nível de entendimento e contemplação! Como é bom quando o gostar vai e volta! Como é bom e lindo e divertido e bonitinho e natural e simples e doce!

Poderia dizer que adoro sua sensibilidade, sua poeticidade, sua humanidade, sua audácia, sua sutileza, sua adorável arrogância, sua delicadeza, sua agilidade, sua perspicácia, sua profundidade, sua imaginação, sua leveza, sua graça, sua criatividade... Mas o que realmente amo em você...

Oh, será que posso te dizer? Posso mesmo?
Hmm...
Pois direi mesmo assim.
Chegue mais perto porque é um segredo:
Amo você ser.

E sei que você entende o que quero dizer.

E sei que você sorri ao ler isso.

É tudo tão precioso, você é, e isso é tão precioso…

Aproxime-se mais, pois aqui vai outro segredo:
Você me inspira.
A pensar e a crescer.
Você me inspira.

Uma vez seus olhos tomaram minha dor.
Uma vez suas palavras me libertaram.

Será que você sabe o bem que me faz?

Eu sei que você é você, você sabe que eu sou eu, e isso é tão incrível e grande que me espanto ao pensar nisso: tão simples, tão óbvio, e por isso mesmo desconhecido na maior parte do tempo pela maior parte das pessoas.

"Nós", especificamente dual eu-você, é uma irrealidade que toca a realidade.

O sincronismo é perfeito, o ritmo é coerente, as coincidências, improváveis. Parece tão irreal, tão inverossímil, tão impossível de acontecer na vida real que entendemos desde lá do fundo que é como deve ser. 

Se nossa relação tivesse alguma característica de posse, eu diria que sou sua. Mas não há esse sentimento de posse entre nós, muito menos de dominação. Não (e que bela palavra de liberdade): ao nosso redor há um misto de liberdade, simplicidade e transparência, como nunca antes vi entre duas pessoas, e como nem sabia era possível se sustentar entre duas pessoas.

Um dia seu aniversário vai chegar, e você me diz que não liga para presentes e eu fico sem saber o que te dar de presente de aniversário.
Um sorriso para você usar no rosto e por dentro é suficiente?

Sabe aquele dia em que estávamos na Livraria Cultura da Cia das Letras e você decidiu ler lá mesmo Juca e os Anões Amarelos? Eu estava com um livro de contos da Lygia Fagundes Telles, e resolvi então também ler um dos contos dela enquanto você lia Jostein Gaarder. Comecei a ler do seu lado, mas então pensei que seria melhor te deixar mais espaço e solitude para se concentrar no livro, então fui ler em outro canto da livraria.
Bem, o meu conto terminou antes da sua narrativa, então pensei que àquela altura você já deveria estar bastante absorto na leitura e não teria problema eu ficar de pé ao seu lado, a alguns metros. Aproximei-me e fiquei te olhando ler e ser.
Seus olhos passeavam cheios de atenção pelas páginas, e dava para ver que não eram meras palavras que você via, mas você concedia vida a elas e estava maravilhado por ser guiado por elas. Algumas vezes você sorria, e eu me via involuntariamente sorrindo também. Por várias vezes pareceu que seus olhos seriam capazes de me ver te vendo, eu segurava a respiração nesses momentos. Mas até o final você não me percebeu, ainda bem, a história te tinha inteiro, e eu queria que você pudesse desfrutar disso, assim como sempre desejo que você tenha o seu espaço, o seu tempo e o seu ritmo. Então pensei que somos mesmo muito jovens e muito sortudos, de pé em uma livraria na Avenida Paulista em uma sexta-feira à tarde, você dentro da história e eu tendo a oportunidade de te olhar alheio ao resto do mundo, no qual eu estava alegremente e plenamente incluída.

Oh, sim, vamos continuar voando juntos, e vamos andar de vez em quando também, pois sabemos que as pernas também precisam ser usadas. "Alcancemos as alturas", você uma vez disse. Sabemos que ambos passamos por bastantes coisas até chegarmos aqui. Talvez agora sejamos ainda um pouco crianças e irresponsáveis em relação ao relógio e coisas assim. E (e uso "e" e não "mas") isso não exclui a felicidade e o contentamento de agora, nem o vir a ser, real desde já, em que possivelmente alcançaremos as alturas.

Isso tudo está dentro do que quero dizer quando, olhos nos seus olhos, e às vezes um sorriso, digo:

"Quero-te bem."

2 comentários:

Jessica Priscilla Huang | sexta-feira, 10 agosto, 2012

Foto por
Originalmente escrito em

Devido à diferença entre as datas de escrita e de postagem, gostaria de comentar uma pequena atualização:
"Duas vezes seus olhos tomaram minha dor. E nem sei mais quantas vezes palavras suas me libertaram."

(Sim, eu tirei uma partezinha entre no parágrafo da livraria. Na verdade pensei em tirá-lo completamente para postar aqui, mas... Não o tirei)

victor pompêo | sábado, 11 agosto, 2012

que lindo =)

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