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E por que não é sempre que podemos nos sentir vivos? Precisa anestesiar, né? Saber que está vivo preenche todo o espaço, mais que isso, não cabe no corpo e temos que jogar fora.  Se terei que passar por uma cirurgia, por favor, torne insensível o meu inteiro, não apenas a parte que vai perfurar. Senão a dor permanece grande, e eu prefiro dormir. Uma noite implorei ao mundo para que me anestesiasse e me enterrasse em bichos de pelúcia. De outra forma não conseguiria dormir, e a dor era grande. Anestesie-nos porque dói saber que se vive. Foi o que pensei à noite. 

Pode acontecer das coisas mais prazerosas doerem em alguns momentos. E das coisas mais dolorosas darem prazer em algum momento. Que venha o que vier, estou aqui para isso. Vou inspirar fundo e sentir o cheiro de húmus com brisa morna. O mundo é bruto.

Uma manhã cruzei o caminho de um cachorro livre que abocanhava um rato. O amor me afastou dele em repulsa. Outra manhã dei com um pássaro sendo devorado por moscas eufóricas. Fui procurar correndo o afago do amor. Em uma terceira manhã o amor me contou: "Um bicho asqueroso parecido com sanguessuga estava subindo pela minha perna. Eu o afastei jogando-o no chão. Olhei e não havia árvores por perto. Com um papel, peguei a sanguessuga e a coloquei no tronco de uma árvore. Ela subiu, subiu... E mais em cima tinha uma lagartixa..." Eu abracei o amor dizendo-lhe, "Eu sei que você não a tinha visto." Mas em outra manhã o amor quis me provar que ele estava certo, e enfiou um lápis no que eu não acreditava ser um formigueiro. Dezenas de formigas frenéticas vieram à superfície, no meio de suas vidas. Eu olhei tudo o que pude, então dei um salto e saí correndo, rindo assustada com nojo. 

O mundo é bruto. E eu quero tudo, deixa eu ficar olhando tudo! até sair correndo. 

Agora sou parte disso. Ando descalça na grama, com a sensação de grama entre os dedos do pé, esmagando eventuais besourinhos e sendo picada por eventuais abelhas, recolhendo do ar flores que já não prestam senão aos olhos. 

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