A Desordenada História da Menina que Virou uma Boneca

Uma vez era uma menina. Quando deu a hora de ser garota, disse assim não, garota não, muito sem graça isso, quero o bonitinho, quero o doce e submisso, quero minha vida o artificialmente idílico. E deu que passava por ali um fragmento de espelho com asinhas purpurinadas que ouviu o seu pedido. Então aqui está um vestidinho com rendas, sapatinhos pretos e uma meia pra deixar um teco das coxas aparecendo. Notou cabelos sedosos para agradar a quem tocá-los, olhos brilhosos com longuíssimos cílios para agradar a quem fitá-los e lábios macios para agradar a quem acariciá-los. Notou também articulações de plástico nos joelhos e nos cotovelos, que teria que esconder, os movimentos estavam duros e conseguia ficar em belas posições. Plim, feito. Boneca, boneca. Mas dá trabalho se manter assim, ok? Ok, ela adorou, tudo bem se dá trabalho, e saiu cantando alto no meio da rua: O amor é meu, o coração é meu, de mão beijada entrego a quem quiser.

Quem quer meu amor, quem quer meu coração? É de graça, de graça, a quem quiser! Venham, venham pegá-lo, é de graça! Opa, um menino que passava disse, de graça mesmo? Eu quero, me dá? Te dou! Tinha aparência de bom menino, e não deu muito tempo viu as articulações de plástico e descobriu que era uma boneca, e não uma menina. Oba, bonecas servem para brincar. E a outra fazia papel de boneca muito bem mesmo: vai pra lá, e ela ia, vem pra cá, e ela vinha, faça isso, ela fazia, diga isso, ela dizia, deixe-me isso, ela calada permitia. E a brincadeira era uma dessas violentas de criança que não sabe limite de brincadeira, e um braço ou uma perna sempre acabavam arrancados, ou um olho saía pra fora, isso quando não entrava pra dentro. 

Espelho, espelho, isso dá muito mais trabalho do que eu imaginei! Fosse só cuidar do cabelo, passar creme no corpo todo e verniz nos olhos e lábios, mas isso está dando trabalho demais, não paro de ter que me consertar e não tá mais dando pra consertar em cima do conserto dos estragos antigos! Nem a cola quente resolveu dessa vez e olha agora, agora tenho um braço e um ombro que o braço não tá no ombro, e aquelas unhas tiraram a tinta do meu ventre, espelho, espelho, o que faço? O fragmento de espelho com asinhas purpurinadas olhou e disse assim: se vira, meu amor, e você sabe que é meu amor. Você desejou e eu concedi e agora você só está sendo é uma ingrata. E a boneca teria chorado se bonecas pudessem chorar, e chorou-se-pudesse-chorar até não se aguentar mais, e chegou até a jogar o braço sem o ombro contra a parede que por lá estava para ver pedaços seus estilhaçados no chão que do lado de fora do mundo ficava. 

Aí um dia chegou uma noite, e na noite chegou uma luzinha que pensou que fosse um vagalume mas não era, era uma luzinha mesmo, que de nada tinha de inha, mas parecia uma luzinha. E a luzinha aqueceu a boneca e os pedaços do braço da boneca se refizeram no ar, e foi de volta para o ombro que estava sem braço. E naquela noite era menos boneca. Soube disso porque uma lágrima plena de alegria e culpa e alívio e tristeza apareceu de verdade: agora podia chorar de verdade. E sabia de mais uma coisa que poderia fazer agora que era menos boneca. 

Devolve que é meu, eu te dei mas ainda é meu e eu quero de volta, e ele respondeu que não, não, não. Não que não ia devolver, era não que nunca foi dele. Você mentiu, você disse que ia me dar seu amor e seu coração mas você nunca me deu, você me deu outras coisas suas, mas eles dois, nunca. E ela virou os olhos pra dentro e viu que era verdade, estavam o amor e o coração bem dentro dela, e ela sorriu ao vê-los na verdade intocados, ainda que tivesse outras partes que ainda tivesse que consertar. Sentiu um gosto amargo e gostoso na boca e disse pra ele, parabéns, você fingiu muito bem, você realmente tem aparência de bom menino, e agora o que você me quebrou eu vou te quebrar, ninguém mandou aceitar a oferta de uma boneca, que tipo de ligação poderia uma boneca lhe dar? Abandono-te. E foi embora feliz e leve e livre e sem dono. 

Queria ser uma mulher, mas não se vai de boneca a mulher direto assim não, primeiro vai de volta pra menina e depois pra garota e depois pra moça e por fim vai pra mulher, desfazendo-se aos poucos das coisas de boneca. As articulações de plástico haviam sumido, agora tinha cotovelos e joelhos de carne, assim como todo o resto do corpo. O cabelo não era mais artificial, então os fios caíam e cresciam, e os lábios não eram mais envernizados, então eles secavam de vez em quando também. O lado de fora é sempre o mais fácil de mudar, o difícil é se desfazer das coisas do lado de dentro. Uma vez mais era uma menina. Deu um tempo e começou a ser também garota. E decidiu que não queria mais meninos-donos, e mudou os versos que antes cantava, acrescentando uma palavrinha que significava muito mais do que a palavrinha: O amor é meu, o coração é meu, de mão beijada entrego a quem eu quiser. 

4 comentários:

Jessica Priscilla Huang | domingo, 05 agosto, 2012

Foto por Augusto Mory, PIX6 Estúdio de Fotografia
Página no Facebook: http://www.facebook.com/pages/PIX6-est%C3%BAdio-de-fotografia/128815080574969

victor pompêo | terça-feira, 07 agosto, 2012

Eu gosto do seu estilo de narrativa! (e de como os seus textos podem ser analogias pra várias situações)

Jessica Priscilla Huang | terça-feira, 07 agosto, 2012

Muitíssimo obrigada, Victor... Você sabe que seu feedback é especialmente special for me, né?

victor pompêo | terça-feira, 07 agosto, 2012

sweet of you (:

Postar um comentário